Capítulo 17

845 Palavras
Kaius Eu me sinto um monstro egoísta. Alguém que está roubando o lugar de outro que poderia dar a ela o que realmente merece. Um relacionamento sem mentiras, um relacionamento de verdade. Polly está de boa-fé. Ela está se abrindo, ainda que desconfiada. Ela está apostando em mim. E eu não estou sendo completamente sincero. Não sobre o que sinto. Não sobre quem ocupa aquele espaço dentro de mim que ela ainda nem sabe que existe. Por alguns segundos, penso em digitar alguma coisa honesta demais. Penso em dizer: — “Eu não sei se vou conseguir amar você como merece.” Penso em confessar que meu coração já está comprometido com outra pessoa. Que eu menti, que estou usando ela para agradar meus pais. Mas não faço nada disso. Escrevo: — “Eu não vou ser um pesadelo pra você.” E, enquanto as letras aparecem na tela, eu sinto um nó apertar na garganta. Eu realmente quero que isso seja verdade. Tento focar no trabalho. Abro relatórios, reviso projeções, respondo e-mails. Forço minha mente a se ocupar com números, fluxos, previsões. Por um tempo, funciona. Duas horas depois, a porta do meu escritório se abre sem aviso. É o tipo de liberdade que poucas pessoas têm. Meu pai é uma delas. — Não adianta — ele diz, entrando com um sorriso satisfeito. — Domingo, empresa vazia… eu já sabia que ia te encontrar aqui. Ele se senta na poltrona na frente da minha mesa como se fosse dono dela. De certa forma, foi por muito tempo. — Eu queria te dar parabéns, filho — ele começa. — A aliança com o Elon foi um golpe de mestre. Você está indo melhor do que eu fui um dia. A empresa está crescendo numa velocidade que eu m*l consigo acompanhar. Eu me ajeito na cadeira, forçando um sorriso profissional. — É pra isso que você me colocou aqui — respondo. — Pra dar resultado, fazer a empresa ir além de qualquer estimativa. E, no que depender de mim, a gente ainda tem muito pra crescer. Ele sorri, satisfeito. — É bom ouvir isso — diz. — Você honra o sobrenome. Por um momento, o clima é quase leve. Quase. — Mas… — ele continua, como se a parte pesada fosse apenas um detalhe — hoje é domingo. Você devia estar programando uma saída, alguma coisa pra espairecer. Um jantar, um evento social. Algo que te aproxime de mulheres. Isso ajudaria nessa história de encontrar alguém. A caneta que eu seguro entre os dedos quase quebra. Eu conto até três. Quatro. Cinco. Depois levanto o olhar. — Eu não preciso sair pra encontrar ninguém — digo, tentando manter a voz neutra. — Até porque eu… já estou com alguém. O impacto é imediato. O rosto do meu pai se abre num sorriso largo, raro. — Você está… com alguém? — repete, como se estivesse saboreando cada sílaba. — Sim — confirmo. — Mas eu ainda não vou apresentar ela pra vocês. Primeiro, quero conquistar a confiança dela. Construir algo de verdade, sem pressa de empurrar minha família em cima. Não é totalmente mentira. Eu realmente quero conquistar a confiança da Polly. A parte que dói é outra, a razão pela qual esse relacionamento começou. Meu pai parece nem registrar possíveis nuances. — Isso é excelente, Kaius! — ele fala, animado. — Excelente! Você tem até o Natal pra trazer ela pra conhecer a família. Vai ser tempo mais do que suficiente pra construir algo sólido entre vocês. “Até o Natal.” Pra ele, é só um prazo confortável. Pra mim, é um lembrete c***l. Eu balanço a cabeça em concordância, por fora calmo. Por dentro, sinto algo enrugar. Meu pai se levanta, claramente satisfeito. — Eu vou contar pra sua mãe — avisa, já andando em direção à porta. — Ela vai ficar radiante. Finalmente, nosso filho entendeu o que é bom. Ele sai tão rápido quanto entrou, sem dar tempo pra eu desfazer nada. Quando a porta se fecha, o silêncio volta mais pesado do que antes. Eu fico ali, com a caneta na mão, olhando para o nada. Tentando imaginar que forma essa mentira vai tomar nos próximos meses. Eu penso na Polly, sorrindo por mensagem, brincando com a ideia de eu ser um sonho que não quer virar pesadelo. Penso nos meus pais, do outro lado da cidade, comemorando uma notícia que não veio inteira. Penso na pessoa que eu realmente amo, distante, intocável, ocupando um espaço dentro de mim que ninguém conhece. E me pergunto, com uma lucidez dolorosa: — Quando o destino cobrar a fatura dessa história m*l contada, quem vai sangrar mais? Eu? A mulher que confia em mim? Ou os pais que acreditam que, finalmente, eu estou construindo a vida que eles queriam que eu tivesse? Eu não tenho resposta. Só sei que, a partir de agora, cada passo que eu der com a Polly vai ser um equilíbrio delicado entre o que eu posso oferecer… e o que, por mais que eu queira, nunca vou conseguir dar.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR