Capítulo 18

885 Palavras
Kieran Domingo, pra muita gente, é dia de sofá. Pra mim, é dia de cuidar da moto, vistoriar o resort e hóspedes. Acordo cedo, antes mesmo do sol se decidir se vai aparecer com força ou não. Lavo o rosto, escovo os dentes, pego o balde e vou direto pra garagem aberta onde minha moto me espera. Enquanto a água escorre pela lataria, eu passo a esponja devagar, como se estivesse limpando também qualquer resquício de preocupação que tenha sobrado da semana. É quase meditativo… roda, banco, tanque, farol. No fim, ela brilha como se tivesse saído da loja ontem. Volto pro meu bangalô, tomo um outro banho rápido, visto uma blusa preta, jaqueta de couro igualmente preta, calça jeans e um tênis confortável. Olho no espelho, passo os dedos pelos cachos curtos no topo da cabeça, bagunço de um jeito estudado. Pronto. Dono de resort modo ativado. A desvantagem de ser dono de um lugar como esse é que, quando está cheio, você perde o direito de chamar qualquer dia de “folga”. A vantagem é que eu amo isso aqui. Saio do meu bangalô e começo o roteiro de inspeção que já virou hábito. O caminho de pedras que liga tudo, restaurante, recepção, bangalôs, está limpo, sem folhas caídas em excesso, sem nada fora do lugar. A mata ao redor parece abraçar o resort sem sufocar. É o equilíbrio que eu sempre quis. Sorrio sozinho. Eu fiz isso aqui existir. Com ajuda, claro. Mas a base foi minha teimosia. No restaurante, o cheiro de café me recebe antes da equipe. Entro, dou bom dia, vejo gente terminando de arrumar as mesas, outros ajustando detalhes no buffet. Pego uma xícara, vou até a cafeteira, me sirvo. Dou o primeiro gole. Na medida certa. Nem forte demais, nem fraco, exatamente como pedi para ser o padrão da casa. Olho ao redor. Frutas cortadas com capricho, pães variados, bolos ainda quentes, manteiga, uma mesa de frios organizada, geleias coloridas em potinhos de vidro. Tudo convidando qualquer estômago a acordar. — Tá perfeito — digo para a gerente do restaurante, que passa perto de mim com uma prancheta na mão. Ela sorri, aliviada. Dou mais uma volta, confiro detalhes que ninguém mais nota, um guardanapo torto aqui, uma cadeira desalinhada ali, e, quando sinto que não há nada a acrescentar, sigo rumo à recepção. No caminho, eu reparo de novo no desenho do resort, os bangalôs afastados uns dos outros, cinco ou seis metros de distância calculada, garantindo que cada hóspede possa se sentir dono de um pedacinho da natureza sem ser incomodado. Em alguns já têm gente sentada na varanda, outros com cortinas fechadas. Hóspedes passam por mim. Alguns já são velhos conhecidos. Casal que vem todo ano, família que descobriu o lugar por acaso e nunca mais largou, gente que foge da cidade grande pra respirar. Cumprimentam com acenos, sorrisos, um ou outro “bom dia, senhor Maldini”, que eu aceito, mas tento não deixar subir à cabeça. — Bom dia, Kieran — um dos funcionários fala, apressado, mas respeitoso. — Bom dia — respondo, batendo de leve no ombro dele. — Qualquer coisa, você me chama. Na recepção, tudo está em ordem. Funcionária atrás do balcão com postura profissional, telefone tocando de vez em quando, computador aberto com tela de reservas e check-outs. Alguns hóspedes estão resolvendo detalhes de passeio, outros pegando informações sobre trilhas. Passo também na área administrativa, dou uma olhada rápida nos relatórios do fim de semana. Ocupação alta, avaliação boa, reclamações mínimas. Domingo, pra mim, é assim, checar se todo mundo que escolheu meu pedaço de mundo como refúgio realmente está encontrando aqui o que veio buscar. Depois disso, caminho de volta para o meu bangalô, pensando seriamente em fazer uma segunda xícara de café e aproveitar uns minutos de silêncio olhando o lago. Estou distraído, curto o som dos meus próprios passos sobre o caminho de pedras, quando sinto uma mão pousar no meu ombro. O instinto faz meu corpo endurecer por um segundo. Eu me viro pronto pra dar bronca se for funcionário desesperado com alguma tragédia. Mas não é funcionário. — Achei você — Sean diz, sorrindo. Meu cunhado. Jaqueta leve, expressão tranquila, aquele ar de eu resolvo crises de empresa, mas sei relaxar quando preciso. — Cadê a Melissa? — pergunto, automaticamente. Minha irmã é quase extensão do meu senso de responsabilidade. — Ela ficou em casa — ele responde. — Está preparando uma tarde do chá com a sua mãe e algumas amigas dela. Eu rio de leve. Consigo imaginar Melissa, com aquela personalidade meio elétrica, tentando combinar “tarde do chá” com “mãe Maldini + amigas” sem enlouquecer. — E o tratamento dela? — pergunto, ficando sério. — Como ela está? O rosto dele suaviza. — Bem melhor — garante. — Os médicos disseram que a anemia não é mais um alvo nas costas dela. Ela ainda precisa manter a alimentação certinha, examinar de tempos em tempos, mas… estamos longe do perigo de antes. A lembrança vem como flash. Melissa desmaiando nos meus braços, aqui mesmo, no resort. Eu me sentindo desesperado sem saber o que estava acontecendo com ela. Já ouvindo meu pai dizer que minha irmã passar m*l estando ao meu lado era culpa minha.
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