Will
Mel e eu estávamos vendo desenho, quando minha pequena disse:
- Papai, eu vi o machucado da Steph. No ombro. Estava muito f**o.
- É mesmo? - Perguntei.
- Aham. Vou ao banheiro.
Mel saiu do quarto e eu fiquei pensando no que minha filha havia dito, tinha algo de muito estranho nisso, eu não tinha ideia do que era, mas iria descobrir.
Fiz Mel dormir e depois fui para meu quarto. Deitei na minha cama e passei a relembrar a viagem que eu havia feito com minha filha e com a Steph, e quase sem perceber, dei um leve sorriso. Porém, em seguida lembrei do comentário da minha pequena sobre a babá, o que me deixou bastante intrigado.
“Ah, Steph, o que será que houve?” - Pensei.
(...)
Steph
Era uma terça - feira. Na parte da manhã, fiquei com a Mel, que cada dia estava mais apegada em mim. Já à tarde, resolvi passear com Kami, fazia tempo que queria vê-la, mas com tudo que havia acontecido nos últimos dias, eu não havia conseguido.
- Ai amiga, estou tão feliz que você está de volta. - Falei.
- Eu também!
- E me conta, como estava a viagem?
- Maravilhosa! A Europa é linda, um dia iremos juntas.
- Eu iria amar! - Dei um leve sorriso.
- Mas vai, me conta, você ainda está com aquele teu namorado i****a? - Revirou os olhos.
- Estou, sim. - Falei ao baixar o olhar.
- Ai amiga… Quando você vai ver que esse cara não é pra você?
- Ele… Ele é um bom rapaz. - Menti.
Kami nunca gostou do Philippe, os dois nunca se deram bem, e por diversas vezes, ela me disse que eu deveria acabar com esse relacionamento, antes que fosse tarde demais e que eu me machucasse.
Kami não sabia do que eu passava nas mãos do homem, e eu preferia assim, quanto menos gente soubesse, melhor.
Tentando mudar de assunto, contei super empolgada sobre o meu trabalho, e quase sem perceber comentei sobre Will.
- Ele é gostoso? - Perguntou, empolgada.
- Quê? - Me surpreendi com a pergunta direta da minha amiga. - Ele é meu patrão!
- Grande coisa! O meu marido era meu professor.
Kami não havia exagerado, ela realmente era casada com o Olliver, que havia sido nosso professor no ensino médio. O homem de f**o não tinha nada, pelo contrário, parecia galã de filme americano, fazia todas as garotas da nossa turma suspirar, e alguns garotos também. Porém, ele nunca demonstrou dar bola para nenhuma aluna, por serem menores de idade, e na época ele era casado. No entanto, dois anos depois de terminarmos o ensino médio, Kami, que já era maior de idade, reencontrou Olliver, que estava divorciado há um ano, e então começaram a sair, e meses depois, ela começou a namorar o homem, que é oito anos mais velho que ela, mas eles já estavam casados há alguns anos e se davam super bem.
- Eu sei, mas é diferente. - Me defendi.
- Não é, não.
Revirei os olhos com um leve sorriso, e logo mudei de assunto. Kami e eu ficamos conversando sobre vários assuntos, até começar a anoitecer e eu resolver ir embora.
Assim que cheguei em casa, liberei a dona Gesi e fui até o quarto do meu pai, que dormia. Me aproximei da cama dele e lhe dei um beijo no rosto. O homem abriu os olhos vagarosamente e se pôs a me olhar.
- Desculpa, pai, eu não queria acordar o senhor. - Falei.
- Eu não estava dormindo, só descansando os olhos. - Sorriu docemente. - Onde você estava, querida?
- Eu havia saído com a Kami. Lembra dela?
- Claro! Como ela está?
- Está bem! - Sorri. - E o senhor? Como se sente?
- Bem, na medida do possível. - Fez uma curta pausa. - E aquela menininha? Quando vai trazê-la de novo?
- A Mel? Não sei. Vou falar com o pai dela para trazê-la.
- Promete?
- Prometo! - Sorri. - Agora vou deixar o senhor descansar e eu vou tomar banho, mas qualquer coisa me chama.
- Pode deixar!
Dei um beijo na testa do meu pai e me retirei do seu quarto.
Fui até o banheiro, tirei toda a minha roupa e me pus a me olhar no espelho. Meu corpo ainda estava marcado, marcas das mãos do infeliz do Philippe. Derramei uma lágrima ao lembrar da última vez que ele me espancou, mas afastei tais lembranças e pude perceber que os hematomas estavam mais fracos, acho que em breve iriam desaparecer, e eu estava torcendo para isso acontecer em breve.
Tomei um banho demorado, e depois coloquei meu pijama. Fiz o jantar para mim e meu pai, e depois fui para meu quarto.
Deitei em minha cama e peguei meu celular para ver as horas e por alguns minutos fiquei olhando para a foto do papel de parede. Era da Flor. Lembro do dia que tirei essa foto.
Flashback On
Era o aniversário de 4 anos da Flor, havíamos preparado uma linda festa de aniversário, Flor havia escolhido o tema “Frozen” e ela estava tão linda vestida de Anna. A festa havia sido perfeita, estavam presentes a nossa família, nossos amigos e todos os coleguinhas da Flor, ela havia se divertido tanto.
- Eu ainda não te dei o meu presente. - Disse meu pai, que estava com Flor no colo.
- O que é? - Ela perguntou super empolgada.
Papai pegou um embrulho, que estava ao seu lado e entregou para minha filha, que abriu rapidamente.
- Um carrinho de controle remoto da Barbie! - Falou com os olhinhos brilhantes.
- Era esse que você queria? - Papai perguntou.
- É, sim. Obrigada, vovô. - Falou ao abraçá-lo. Logo desfez o abraço e se dirigiu para mim. - Olha mamãe!
- Que lindo, meu amor.
- Gostou? - Papai perguntou.
- Eu amei!
- Amou? Não parece! E o meu beijo? - Falou em tom de brincadeira, enquanto virava o rosto para a neta.
Flor abriu um imenso sorriso e deu um beijo estalado em meu pai, que logo fez cócegas nela, que começou a rir, enquanto eu olhava a cena com um largo sorriso. Eu amava ver a relação dos dois, um era louco pelo outro, e papai vivia mimando ela, às vezes tinha medo dele estragá-la. Papai foi quem mais sofreu (depois de mim) com a morte da Florzinha.
Em seguida, Flor começou a brincar com o carrinho e eu aproveitei para tirar algumas fotos, enquanto ela fazia poses com o brinquedo. Em uma delas, Flor estava sentada no chão, dirigindo o carrinho com o controle remoto, e quando eu mirei o celular nela para tirar foto, a pequena se pôs a olhar para a câmera e sorriu. A foto tinha ficado linda, por isso resolvi colocar no papel de parede do meu celular, e nunca mais consegui tirar.
Flashback Off
Abri os olhos, que eu havia fechado por um minuto, e vi que ela não estava. Como eu sentia falta daquele sorriso, daquela doçura, da minha parceirinha, Flor e eu éramos tão grudadas uma na outra, fazíamos tudo juntas. Saudade de todos os nossos momentos. Saudade de ser mãe.
Com a lembrança do sorriso da minha pequena, eu acabei adormecendo.
(...)
Will
Fui tomar banho e deixei Mel dormindo mais um pouco. Quando sai do banheiro, enrolei a toalha em minha cintura e me dirigi para o meu quarto, e então escutei a voz da minha filha, parecia estar falando com alguém, pensei que pudesse ter ligado para alguém, Steph ou Daphne talvez. Me aproximei do seu quarto, e a vi brincando de panelinha enquanto parecia estar conversando com alguma pessoa.
- Filha? - Ela virou assustada para mim. - Com quem você está falando?
- Hã… - Olhou para o lado e novamente para mim. - Com ninguém, papai, estou falando sozinha, só estou brincando.
- Hum… - A olhei meio desconfiado, e fui para meu quarto.
- Papai, que horas a Steph chega? - Perguntou Mel ao adentrar meu quarto como um furacão.
A pequena se jogou em minha cama, deitando na mesma e se pondo a brincar com um cubo mágico.
- Daqui a pouco. - Respondi ao jogar a toalha em cima da Mel, que riu.
- Hey! - Tirou a toalha e colocou ao seu lado. - Papai, posso escolher sua roupa?
- Por quê?
- Porque você escolhe a minha. Me parece justo. - Abriu um singelo sorriso.
- Ok. - Falei ao me sentar na cama. - Mas se eu não gostar, vou falar.
- ”Xá” comigo. - Falou me fazendo rir.
A menina levantou da cama em um pulo e foi até o meu roupeiro. Primeiro abriu minha gaveta de cuecas e começou a mexer nelas.
- Cueca do Bob Esponja, papai? - Perguntou ao pegar minha cueca da sorte.
- Ué, você não tem calcinha da Barbie e da Monster High? - Tentei me defender, a fazendo rir.
- Verdade! Vai com essa. Eu gostei.
Jogou a cueca para mim e eu a coloquei. Mel também escolheu uma calça preta social, uma camisa azul claro também social, um paletó preto e uma gravata preta. Até que ela não tinha ido nada m*l, como eu imaginava.
- Está um gato! - Falou, assim que eu terminei de pentear meu cabelo.
- Obrigado! - Lhe dei um beijo no rosto.
Nisso a campainha tocou, e Mel correu para atender. Eu fui atrás dela, e quando cheguei na sala, a pequena já havia aberto a porta e estava no colo da Steph.
- Oi. Bom dia. - Falei.
- Bom dia. - A mulher respondeu com um singelo sorriso enquanto abraçava a minha pequena.
Nisso lembrei do que a Mel me falara no dia anterior, sobre o machucado no ombro da Steph.
- Filha, vai brincar um pouco no teu quarto enquanto o papai conversa com a Steph, ok?
A mulher colocou a minha filha no chão, que foi para o seu quarto.
- Algum problema, senhor? Fiz algo de errado?
- Quê? Não! Claro que não. - Falei, tentando tranquilizá-la. - Ontem a Mel me disse que viu o teu machucado no ombro.
- Ah… - Falou, parecendo meio envergonhada.
- Ela disse que estava muito f**o.
- Exagero dela, sabe como são as crianças…
- Sei… - Falei meio desconfiado. Logo me aproximei dela. - Steph, se você tiver algum problema, seja qual for, pode contar comigo, viu?
- Eu… Está tudo bem.
- Certeza? - A encarei.
- Aham. - Acenou positivamente com a cabeça.
- Ok. Bom, vou nessa… Até!
- Ah, Will… Será que você se importa se qualquer hora eu levar a Mel para ver meu pai? Ele perguntou por ela.
- Não, sem problema. - Falei. - E como ele está?
- Na mesma. - Sorriu tristemente.
- Se eu puder ajudar em algo…
- Já ajuda demais pagando os remédios dele.
- Não é nada demais. Até depois!
- Até!
Dei uma última olhada para a mulher, que estava cabisbaixa, e sai para o meu trabalho.