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Leonardo Narrando
Eu estou encostado na minha moto, de braços cruzados, observando o movimento de Santo Amaro começar.
Ainda é cedo, mas o morro já está acordado.
Gente descendo para trabalhar, criança correndo para a escola, comércio abrindo, moto subindo e descendo as vielas. Eu conheço praticamente todo mundo por aqui e, mesmo quando não conheço, sei reconhecer quem é de fora.
É assim que funciona.
Aqui, eu preciso estar atento o tempo inteiro.
— Você vai ficar aí com essa cara fechada até quando? — Pedroca pergunta ao meu lado.
Olho para ele.
— Que cara?
Ele aponta para o meu rosto.
— Essa aí. De quem quer matar alguém antes das oito da manhã.
— Essa é minha cara normal.
— Exatamente.
Reviro os olhos e volto a olhar para a rua.
Pedroca começa a falar alguma coisa sobre o movimento da noite anterior, mas eu paro de prestar atenção quando escuto uma voz que conheço muito bem.
— LÉO!
Fecho os olhos por um segundo.
Não.
Não pode ser.
Olho para o outro lado da rua e encontro Maya.
Doze anos.
Uniforme escolar, mochila nas costas e os cabelos cacheados presos de qualquer jeito. Ela está andando ao lado da mãe, mas parece esquecer completamente que está indo para a escola no momento em que me vê.
Ela abre aquele sorriso enorme.
— Bom dia!
Levanto a mão.
— Bom dia, Maya.
Ela vem na minha direção.
A mãe continua andando por alguns passos até perceber que a filha ficou para trás.
— Maya!
— Já vou, mãe!
Ela para na minha frente.
— Você vai ficar aqui hoje?
— Vou.
— Até de tarde?
— Provavelmente.
Ela sorri.
— Que bom.
Franzo a testa.
— Por quê?
— Porque eu gosto quando você fica.
Pedroca solta uma risada atrás de mim.
Olho para ele de lado.
— Não começa.
Maya olha para Pedroca.
— O que foi?
— Nada, não — ele responde, segurando o sorriso.
Ela volta a olhar para mim.
— Você está bonito hoje.
Eu fico alguns segundos sem saber o que responder.
— Obrigado.
— De nada.
Ela continua parada.
— Você não vai para a escola? — pergunto.
— Vou.
— Então vai.
— Já vou.
Ela não vai.
Continua me olhando.
Eu olho para a mãe dela, que está parada alguns metros à frente, claramente esperando pela filha.
— Maya.
— Oi?
— Sua mãe está esperando.
Ela olha para trás.
Depois olha para mim novamente.
— Eu sei.
— Então vai.
Ela finalmente se vira.
Dou um suspiro aliviado.
Até ela parar de novo.
— Léo?
— O quê?
Ela coloca a mochila melhor no ombro.
— Quando eu crescer...
Já sei que vem alguma coisa.
— O quê?
Ela sorri.
— Eu vou casar com você.
Eu simplesmente fico olhando para ela.
Acho que até esqueço de respirar.
Pedroca fica em silêncio por dois segundos.
Depois começa a rir.
Maya olha para ele, sem entender.
— Que foi?
Eu finalmente encontro a voz.
— O quê?
Ela repete, completamente séria:
— Eu vou casar com você.
A mãe dela leva a mão à cabeça.
— MENINAAAAAAA!
Maya se vira.
— Que foi, mãe?
— Você está maluca?
— Não.
— Então por que você está falando que vai casar com o Leonardo?
Ela me aponta.
— Porque eu vou.
Eu olho para Pedroca.
Pedroca olha para mim.
Depois começa a rir ainda mais.
— Para de rir — falo.
— Eu não consigo.
A mãe de Maya vem até nós e segura a filha pelo braço.
— Você tem doze anos!
— Eu sei.
— Ele é adulto!
Maya olha para mim.
Depois olha para a mãe.
— Quando eu crescer, eu também vou ser adulta.
Eu aperto os lábios para não rir.
A mãe dela percebe.
— Não ri, Leonardo!
— Eu não estou rindo.
— Está sim!
Maya aponta para mim.
— Eu sabia.
— Sabia o quê?
— Que você gosta de mim.
Eu quase engasgo.
— Maya, pelo amor de Deus...
Pedroca vira de costas.
Esse desgraçado está rindo.
— Eu nunca disse isso.
— Mas você sorriu.
— Eu sorri porque você é engraçada.
Ela pensa por alguns segundos.
— Então você gosta de mim.
— Não foi isso que eu falei.
— Mas vai gostar.
A mãe dela fecha os olhos.
— Eu vou enlouquecer.
Eu passo a mão pela nuca.
Não sei lidar com isso.
Não sei mesmo.
Maya é uma criança.
E eu não tenho absolutamente nenhuma intenção de alimentar essa ideia.
— Maya, você precisa ir para a escola.
— Eu sei.
— Então vai.
Ela começa a andar com a mãe.
Antes de virar a esquina, porém, olha para trás.
— Tchau, Urso!
— Tchau.
— Eu vou casar com você!
A mãe dela puxa a menina pelo braço.
— MAYA!
Ela começa a rir enquanto corre.
Eu fico olhando até as duas desaparecerem.
Pedroca aparece novamente ao meu lado.
— Então...
— Não.
— Eu nem falei nada.
— Mas eu sei o que você vai falar.
— Ela é apaixonada por você.
— Ela tem doze anos.
— Eu sei.
— É uma criança.
— Eu sei, Leonardo.
Olho sério para ele.
— Então para de graça.
Ele levanta as mãos.
— Tá bom.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Até ele começar a rir novamente.
— O que foi agora?
— Nada.
— Pedroca.
— Só estou imaginando você entrando na igreja.
— Vai tomar no cu.
Ele gargalha.
Eu balanço a cabeça e volto a olhar para a rua.
Maya é assim.
Uma criança.
Inocente.
Falante.
Sem filtro nenhum.
E eu tenho certeza de que isso vai passar.
Um dia ela vai crescer, conhecer alguém da idade dela e esquecer essa história de casamento.
É o normal.
Pelo menos é o que eu penso.