Pré-visualização gratuita Capítulo Um — O Arquiteto do Caos
Guilherme Sampaio
Voltar ao Brasil depois de anos em Londres não foi um retorno triunfal. Foi uma necessidade de resolver pendências antigas e quem sabe, dar o troco àqueles que me traíram sem nenhuma culpa.
O asfalto de São Paulo parecia queimar sob as rodas do Mercedes blindado, mas o gelo dentro de mim era inabalável.
Saí daqui com o coração em frangalhos e o gosto amargo da traição de quem mais amava. Lívia Ferreira. Linda. Inteligente. E c***l.
Deixei para trás uma noiva que jurava me amar e me trocou pelo meu próprio irmão, com o apoio dos meus pais.
E o meu coração nunca mais encontrou lugar para o amor. Minha família me tratou como se eu valesse menos do que uma folha de papel riscada.
Após tantos anos já não sou o homem ingênuo que acreditava em lealdade. Sou o CEO da Blackwood Global Holding.
Tornei-me uma máquina de destruir impérios fictícios. Um homem quebrado que transformou a dor do abandono em cifrões e ódio em poder absoluto.
Mulher nenhum conseguiu quebrar a barreira de gelo que se formou em volta do meu coração.
E eu não pretendia mais entregá-lo para que ninguém o esmagasse e eu tivesse que juntar seus pedaços novamente.
— Muda essa cara de quem comeu e não gostou, Guilherme — Dário, meu mentor, interrompeu meus pensamentos sombrios.
Ele é o único que ousa falar comigo nesse tom. Foi ele quem me recolheu da sarjeta emocional anos atrás e me trouxe ao lugar que estou hoje.
— Sabe que eu não queria estar aqui, Dário. Este país cheira a lembranças que eu fiz questão de enterrar.
— Você não ia poder fugir para sempre. Uma hora ou outra, teria que encarar os fantasmas com a sua família.
— Você poderia ter resolvido o caso da Holding Paiva sem me arrastar para este calor infernal — falei, ainda contemplando a vista da cidade pela janela do carro.
Dário suspirou. Ele sabia qual era o meu verdadeiro objetivo ao aceitar essa viagem: destruir quem me destruiu.
Como meu mentor e amigo, ele me acompanha nessa viagem pois sabe o quanto ainda carrego na alma.
— O Rômulo é um amigo antigo, Guilherme. Eu não tinha estômago para dar o ultimato final. A situação dele é terminal.
— A dívida é impagável — retruquei, lembrando dos números vermelhos que analisei no voo de volta.
Após a decepção com minha família, decidi deixar tudo e sair do Brasil. Recebi uma boa proposta dele de respirar novos ares. Aceitei o desafio de trabalhar numa holding em Londres e acabei me tornando o CEO.
Após anos sem contato algum com nenhum dos Sampaio, fui surpreendido com um e-mail da minha mãe.
Meu pai não anda nada bem de saúde e tudo indica que tem a ver com a situação financeira da empresa da família.
Ironia do destino ou não essa situação tem a ver com a Blackwood Global Holding. Eles não fazem ideia de que estão em minhas mãos.
No e-mail ela me convida para comparece ao aniversário de setenta anos do meu pai. Um evento que acontecerá em breve e preciso me preparar para esse reencontro.
— Temos que analisar o contrato da Sampaio Engenharia logo depois. Os prazos do meu pai também estão vencendo.
Dário me encarou, os olhos cerrados. Ele sabia que eu não daria trégua. Eu era o carrasco agora.
— Você vai mesmo ter coragem de executar a dívida do seu próprio pai, Guilherme? Vai deixar o velho na rua?
— Por que não? — Sorri, mas não havia alegria ali. — Ele me deu o mundo e depois ajudou a tirar tudo o que eu tinha. É justo.
Eu vim fazer justiça e se pra isso fosse necessário destruir quem me destruiu primeiro. Não vou poupar esforços. Não é vingança. E a oportunidade de fazê-los colherem o que plantaram
Mas algo me incomodava. Não queria entrar naquela mansão da mesma forma que saí. Sozinho. Humilhado.
Me dediquei tanto para esquecer a dor da traição que não fui capaz de me envolver com ninguém. De criar vínculos afetivos. De me apaixonar.
Agora, vejo que preciso de alguém ao meu lado para não dar a minha família o prazer de me ver solitário e endurecido.
O carro parou diante do imponente edifício da Paiva Holding. Meus olhos se estreitaram ao ver o logotipo dourado.
Entramos na empresa. O luxo era ostensivo, cafona e gritava desespero. É sempre assim com quem está prestes a ruir: tentam esconder a falência sob camadas de ouro falso e mármore de segunda linha.
Por ironia do destino — que para mim não passa de uma v***a sádica — dei de cara com a pessoa que menos desejava encontrar. Ao menos não agora, sem o meu escudo emocional totalmente erguido.