Ayla narrando
Por um segundo, o mundo ficou mudo.
Pantera.
O nome caiu sobre mim como um soco no estômago, tirando o ar, o equilíbrio, a lucidez. Eu já tinha ouvido aquele nome sussurrado com medo nas filas do posto, falado com raiva nos becos, cuspido com ódio pelos policiais. Pantera era sinônimo de poder, de perigo, de sangue derramado na escadaria do Cruzeiro.
E eu estava ajoelhada ao lado dele. Com as mãos mergulhadas no sangue dele. Salvando a vida dele.
— Ayla… — ouvi minha própria voz tremendo. — Meu Deus…
Ele franziu a testa, tentando focar no meu rosto. A respiração estava pesada, descompassada, como se cada entrada de ar fosse uma batalha.
— Não desmaia agora… — murmurei, puxando minha mochila. — Nem pensa nisso.
Procurei freneticamente a bolsinha de primeiros socorros que eu sempre carregava. Era um hábito do estágio. Ataduras, gaze, pequenos frascos… nada que realmente pudesse parar uma hemorragia profunda, mas melhor do que ficar olhando ele morrer ali.
Rasguei a camisa dele com o estilete de emergência e o ferimento apareceu por inteiro: ainda mais feio, mais fundo, mais assustador do que eu imaginava.
— Isso… não vai dar certo aqui — falei, sentindo o estômago virar.
— Não vai dar certo em lugar nenhum se eles voltarem — ele respondeu baixo.
Aquela calma dele, mesmo à beira do desmaio, me dava um tipo de raiva estranha. Era como se ele estivesse acostumado a morrer aos poucos. Engoli seco, e pensei rápido.
O beco estava silencioso de novo, mas silêncio no Cruzeiro nunca significava paz, só significava que algo pior estava vindo. Peguei a gaze e pressionei com força, arrancando dele um gemido rouco que fez meu coração bater mais rápido.
— Respira fundo.
— Se tu apertar mais, eu vou xingar.
— Se eu não apertar, você morre.
— Justo.
Ele tentou um sorriso, mas a dor venceu. Apoiei a cabeça dele no meu colo, mesmo sabendo que aquilo me colocava ainda mais na mira de quem quer que estivesse caçando ele. Mas não importava. Não importava nada além de manter aquele homem vivo, ainda que fosse o homem que eu mais deveria ter medo.
— Preciso te tirar daqui — murmurei. — A gente tem que chegar no posto.
— No posto? — Ele abriu os olhos com dificuldade. — Nem pensa nisso.
— É o único lugar com material decente!
— O posto é o primeiro lugar que eles vão procurar. Eu não posso aparecer lá. E tu não pode ser vista comigo.
— Então me diz onde posso te levar!
— Em lugar nenhum aqui. Eles querem me ver morto hoje.
A forma como ele disse aquilo… Crua, fria e resignada. O som distante de motos subindo a ladeira fez minha pele arrepiar.
— Levanta — eu disse, tentando erguer ele.
— Se eu levantar, eu caio.
— Então eu te carrego. — A coragem saiu antes do bom-senso. — Eu dou um jeito.
Ele me olhou como se eu fosse uma louca completa.
Talvez eu fosse.
— Tu não sabe no que tá se metendo, Ayla.
— Não sei mesmo — respondi. — Mas sei o que acontece se eu for embora agora.
Os olhos dele sustentaram os meus, e naquele instante, senti algo que jamais admitiria em voz alta:
medo dele, e medo por ele. Pantera respirou fundo, reuniu o que restava de força e se apoiou em mim.
— Então vamos — disse, com a voz falhando. — Antes que o morro decida por nós.
E enquanto eu passava o braço dele por cima dos meus ombros e o ajudava a ficar de pé, uma única pergunta me atravessou como um espinho: O que diabos eu estava fazendo? Porque naquele instante, carregando o homem mais perigoso do Cruzeiro, eu sabia, no fundo da minha alma, que minha vida tinha acabado de se dividir entre antes dele e depois dele.
E não havia mais volta.
Eu estava quase arrastando Pantera. Cada passo dele parecia puxar metade do meu fôlego junto. Ele mancava, gemia baixinho, tentando controlar a dor, mas o sangue continuava escorrendo entre meus dedos e manchando o chão do beco.
— Só mais um pouco… — murmurei. — A gente precisa chegar na rua de cima.
Ele riu, ou tentou.
— Tu fala como se eu tivesse escolha.
Eu ia responder, mas ouvi passos. Rápidos, desordenados. Meus músculos travaram, o coração disparou. Apertei Pantera contra a parede e coloquei o corpo na frente dele, como se eu fosse capaz de parar uma bala com os ossos.
Uma sombra virou a esquina correndo.
— Ei! Ei! — a voz era fina, ofegante. — Dona Ayla?! É tu?!
Eu reconheci antes mesmo de ver o rosto. Era Magrin, um moleque de quinze anos que vivia na porta do posto de saúde pedindo para colocar curativo nas mãos que ele queimava no escapamento da moto. Um vapor do morro. Um daqueles meninos que carregam o mundo sem nunca ter tido chance de escolher outro caminho. Ele me analisou num segundo. Viu o sangue, viu Pantera quase desmaiando. E a expressão dele mudou completamente. Os olhos se arregalaram, o susto virou terror, e o terror virou instinto.
— p**a merda… é o Pantera! — ele sussurrou alto demais. — c*****o, dona Ayla, o que que aconteceu?!
— Depois eu explico! — segurei o braço dele. — Preciso de ajuda agora!
Magrin olhou para os lados, completamente em pânico.
— Se ele tá assim, os cara tão vindo! Eu escutei rádio ali embaixo, geral tá caçando ele!
— Então me ajuda antes que eles cheguem! — gritei mais do que queria.
A urgência finalmente acertou ele. O garoto respirou fundo, jogou a mochila no chão e se colocou ao lado de Pantera.
— Apoia nele, chefe — disse, a voz tremendo. — Eu aguento.
Pantera levantou o olhar para o menino, meio surpreso, meio orgulhoso. Magrin ficou sério, como se estivesse carregando um deus ferido.
— Devagar, devagar… — falei, guiando os dois pela viela estreita.
Magrin era pequeno, magro, mas se firmava como se tivesse o dobro do peso. As mãos tremiam, mas ele não soltava Pantera de jeito nenhum.
— Pra onde a gente leva? — perguntou, arfando.
— Qualquer lugar seguro!
— Aqui no morro não tem lugar seguro, dona Ayla! — Ele praticamente chorava de nervoso.
Tiros estouraram no fim da rua. Magrin praguejou e apertou o passo.
— Tem uma casa abandonada atrás do barracão do Tonho… — ele disse rápido. — Ninguém mexe lá porque dizem que é amaldiçoada.
— Amaldiçoada? — sorri nervosa. — Então ninguém entra. Ótimo.
Pantera soltou um som que talvez fosse riso. Ou dor, ou os dois. O garoto virou outra esquina, puxando Pantera quase no colo. Eu os segui, segurando a gaze no ferimento, sentindo a vida dele escapando por baixo dos meus dedos.
— Magrin — murmurei — obrigada.
Ele não olhou para mim. Apenas balançou a cabeça.
— O Pantera salvou meu irmão uma vez… — disse, baixo, como um segredo. — Eu… eu não podia deixar ele morrer.
Meu coração apertou.
O morro tinha dessas coisas: coisas que ninguém vê, ninguém entende, ninguém noticia. Voltamos a subir a viela. Pantera já quase não falava. A cabeça dele caía para frente, o corpo pesado demais para alguém que se recusava a perder.
— Aguenta mais dois minutos, chefe — Magrin repetia. — Dois minutos e a gente chega.
E então eu vi a tal casa: uma porta torta, janelas cobertas por tijolo, uma luz fraca no poste ao lado piscando como se estivesse prestes a morrer também. O abrigo perfeito para quem precisava desaparecer.
Magrin empurrou a porta com força. Ela abriu com um gemido de madeira velha.
Entramos.
Eu senti o ar frio e o cheiro de poeira. A luz do poste m*l iluminava o interior.
Colocamos Pantera no chão. Eu ajoelhei ao lado dele, com o coração disparado, as mãos tremendo, e pela primeira vez naquela noite, admiti a verdade: Eu podia perder ele ali. Sem nem saber por quê aquilo importava tanto.
— Vai buscar água, vela, qualquer coisa — pedi ao Magrin. — Rápido.
— Tô indo! — ele saiu correndo pela porta.
Ficamos só nós dois. Eu e Pantera. O dono do morro. O homem que todos temiam. O homem que, naquele momento, dependia só de mim.
— Não dorme — pedi, encostando minha testa na dele. — Por favor… não dorme.
Ele abriu os olhos devagar, a respiração curta.
— Tu… é problema, Ayla… — murmurou.
— Eu sei. — Apertei sua mão. — Mas você também é.
Ele tentou sorrir, mas apagou de dor, antes que conseguisse. E ali, naquela casa vazia, com tiros ecoando ao longe e minha roupa ensopada de sangue que não era meu, eu soube: Era tarde demais pra voltar atrás.