Predador
Eu sou Renan Montenegro, conhecido no morro como Predador, tenho trinta e cinco anos e posso dizer que não nasci, esse homem que todo mundo teme hoje aqui no morro, eu fui construído aos poucos pela vida, pela dor, pelas perdas e pelas escolhas que fui obrigado a fazer quando ainda era muito novo para entender o peso delas. No morro ninguém cresce como criança por muito tempo, a gente cresce como sobrevivente, aprendendo desde cedo que o mundo não é justo, que quem não se impõe é esmagado e que o medo pode ser uma arma ou uma fraqueza, depende de como você usa. Eu aprendi cedo que preferia ser o homem que causa medo do que o homem que vive com medo.
Eu nasci e cresci no Santa Marta, minha mãe era costureira, mulher direita, daquelas que acorda cedo, trabalha o dia inteiro e ainda acha tempo para cuidar da casa e do filho. Meu pai eu me lembra pouco, morreu quando eu ainda era moleque, foi baleado numa troca de tiro que nem era com ele, estava no lugar errado, na hora errada, como acontece com muita gente no morro. Depois disso foi só eu e minha mãe, e eu vi ela sofrer muito para me criar, vi ela deixar de comer para eu comer, vi ela costurar até de madrugada para pagar conta. Eu prometi para mim mesmo que ia tirar ela daquela vida, que ela nunca mais ia passar necessidade, e foi essa promessa que começou a me colocar no caminho que eu estou hoje.
Comecei como todo mundo começa, fazendo favor, levando recado, avisando quando a polícia subia, olhando um movimento estranho. Eu era esperto, observador, falava pouco e ouvia muito, e isso fez os caras mais velhos começarem a confiar em mim. Com o tempo fui subindo, virei vapor e comecei a andar armado, depois já estava participando das decisões, das guerras, das cobranças, das divisões. Quando eu percebi, eu já não tinha mais volta, já estava dentro demais para
sair.
A vida nesse mundo ensina muito, mas ensina da forma mais dura possível. Eu perdi amigos, perdi gente que cresceu comigo, vi menino virar homem da pior forma possível, vi mãe chorar por filho morto, vi traição, vi covardia, vi coragem, vi de tudo. Cada coisa que eu vivi foi tirando um pedaço de quem eu era e construindo quem eu sou hoje. O nome Predador não surgiu do nada, surgiu porque eu aprendi a não ter pena quando precisava resolver as coisas, aprendi que quem manda não pode hesitar, que quem manda não pode demonstrar fraqueza, porque no dia que demonstrar alguém tenta tomar o seu lugar.
Quando o antigo dono do morro caiu, começou a guerra pelo comando, e foi aí que muita gente morreu. Eu lutei, eu planejei, eu arrisquei minha vida muitas vezes, mas eu não lutei só por poder, eu lutei porque eu sabia que se outro assumisse talvez a minha mãe, meus amigos, as pessoas que cresceram comigo iam sofrer na mão de gente pior. No fim da guerra, eu fiquei. Não porque eu era o mais forte fisicamente, mas porque eu era o mais frio para decidir, o mais calmo para pensar e o mais firme para manter a palavra. E no morro, palavra vale mais que dinheiro.
Hoje eu moro na parte mais alta, na minha fortaleza como o pessoal chama, não porque eu gosto de luxo, mas porque posição é estratégia, de lá de cima eu vejo tudo, sei quem entra, quem sai, sei quando a polícia sobe, sei quando tem movimento estranho. Eu vivo praticamente sozinho, porque nesse mundo, quanto menos gente perto de você, menos chance de alguém ser usado contra você. Meus homens são minha família, F2, GD, VK, cada um tem sua casa, sua mulher, seus filhos, mas todo dia a gente se encontra na boca, resolve as coisas, divide os problemas e mantém o morro funcionando.
No dia que a garota entrou no meu caminho, eu não acordei pensando que ia levar uma mulher para casa, eu acordei como qualquer outro dia, com problema para resolver, dinheiro para cobrar, carga para chegar, gente para pagar, reunião para fazer gente pra matar. A dívida daquela mulher já estava atrasada fazia tempo, dois mil não é muito dinheiro para muita gente, mas no morro não é só o dinheiro, é o respeito, se um não paga e nada acontece, amanhã ninguém paga. Então eu mandei chamar, ela pediu prazo, pediu para a gente voltar à noite porque a filha ia chegar com o dinheiro do trabalho. Isso já me soou estranho, mas eu resolvi voltar à noite para resolver logo aquilo.
Quando a gente voltou, batemos na porta e ninguém atendeu. Aquilo já começou a me irritar, porque eu não gosto de perder tempo e não gosto de ser feito de bobo. Depois de bater várias vezes, eu mandei arrombar. Quando a porta abriu e eu entrei naquela casa, eu vi uma sala velha, um sofá rasgado e uma menina sentada, assustada com o sapato na mão , olhando para a gente sem entender o que estava acontecendo. Ela levantou na hora, nervosa, perguntando o que estava acontecendo, e antes que eu falasse qualquer coisa a mãe dela apareceu e falou a frase que eu ainda lembro exatamente como foi.
Ela disse que não tinha dinheiro e que podia levar a filha como pagamento. Falou isso como se estivesse entregando um objeto, uma televisão, qualquer coisa, mas não a própria filha. Eu já vi muita coisa nesse mundo, mas naquela hora até eu fiquei alguns segundos sem falar nada, porque tem coisa que até para quem vive na escuridão ainda é difícil de aceitar. A menina começou a chorar na mesma hora, dizendo que trabalhava, que podia pagar, que não era para fazer aquilo, e a mãe simplesmente mandou ela ir arrumar as coisas.
Naquele momento eu podia ter recusado, podia ter dado outro prazo, podia ter feito muita coisa, mas naquele mundo que eu vivo as decisões são rápidas e as consequências também. Eu aceitei. Não porque eu precisava de uma mulher, não porque eu queria aquilo, mas porque naquele mundo uma dívida precisa ser paga e uma decisão precisa ser mantida, senão você perde o respeito e sem respeito você perde tudo.
Quando ela entrou no carro chorando, abraçada com a mochila, eu percebi que a vida dela tinha mudado ali, naquela rua, naquela noite. E de certa forma eu também sabia que a minha vida ia mudar, porque trazer alguém para dentro da minha casa, para dentro do meu mundo, nunca é uma coisa simples.
Eu sou Renan Montenegro, o Predador do Santa Marta, um homem que construiu respeito, poder e medo ao longo dos anos, mas naquele dia, quando eu aceitei uma garota como pagamento de uma dívida, eu não fazia ideia de que aquela decisão ainda ia mexer com muita coisa dentro de mim que eu achava que já tinha morrido há muito tempo.