Pré-visualização gratuita Prólogo
Prólogo
Eleonor sempre repetia para si mesma que, por pior que fosse sua vida, ao menos ainda tinha um teto e um lugar para onde voltar depois das noites intermináveis servindo bebida, limpando mesas engorduradas e desviando das mãos insistentes dos homens bêbados no boteco da esquina. Mas, naquela madrugada abafada, enquanto subia o morro com os pés doloridos, a maquiagem borrada e o uniforme impregnado de álcool barato e fritura velha, algo dentro dela estava inquieto. O silêncio incomum das vielas parecia anunciar uma tempestade prestes a cair.
Ao abrir a porta do barraco, encontrou a mãe largada no sofá, os olhos vermelhos, o corpo trêmulo e o cheiro inconfundível de drogas, impregnando o ar. Uma cena tão comum que já não causava choque, apenas um cansaço profundo, pesado, que parecia ter se alojado em seus ossos. Eleonor m*l teve tempo de tirar os sapatos quando um estrondo ensurdecedor rasgou a madrugada. A porta foi arrombada com violência, arrancando as dobradiças e batendo contra a parede, levantando poeira e lascas de madeira pelo chão.
Quatro homens armados invadiram o pequeno espaço como se fossem donos de cada centímetro dali. As pernas de Eleonor fraquejaram no mesmo instante em que reconheceu o homem que vinha à frente. Mais alto, mais largo, com uma presença opressora que parecia sugar o ar do ambiente.
Predador.
O nome ecoava nas conversas sussurradas do morro como uma sentença. O homem que todos temiam. O dono de tudo aquilo. Alguém que não precisava levantar a voz para ser obedecido, sua simples presença era suficiente para paralisar qualquer um. O coração de Eleonor disparou de forma dolorosa, e por um breve instante ela teve certeza de que iria desmaiar ali mesmo, incapaz de se mover ou de desviar o olhar daquele par de olhos escuros e frios que vasculhava o barraco com desprezo calculado.
— Cadê meu dinheiro, sua noiada? O prazo acabou. Você foi boa pra comprar minhas mercadorias — disse ele, em um tom baixo, quase calmo, carregado de uma ameaça tão densa que parecia pressionar as paredes.
A mãe de Eleonor começou a tremer ainda mais. Os lábios ressecados se moveram sem formar palavras por alguns segundos, até que ela soltou uma risada fraca, desesperada, típica de quem já havia perdido qualquer noção de consequência.
— Eu não tenho, Predador, mas pode levar ela como pagamento da dívida. Ela é virgem, é até bonitinha, só é gorda, deve servir pra alguma coisa.
O mundo de Eleonor implodiu dentro do próprio peito. Por um segundo, acreditou ter ouvido errado, como se o cansaço ou o medo estivessem distorcendo as palavras. Mas o silêncio pesado que se seguiu confirmou que aquilo era real demais para ser um pesadelo.
Predador voltou o olhar diretamente para ela, avaliando-a de cima a baixo como se estivesse diante de um objeto à venda. Em seguida, encarou a mulher no sofá com puro desprezo.
— Você é uma desgraçada mesmo. Entregar a própria filha como moeda de troca, sua v***a drogada.
Eleonor não conseguiu responder. As palavras morreram antes mesmo de nascer, presas em um nó sufocante na garganta, enquanto as lágrimas escorriam quentes e silenciosas pelo rosto. Sentada no sofá gasto, encolhida como uma criança que tenta se tornar invisível, ela só conseguia pensar em como era possível que a pessoa que a carregou por nove meses, que deveria protegê-la de qualquer m*l fosse capaz de entregá-la daquela forma. Sem hesitação. Sem remorso. Como se estivesse se livrando de um peso inútil.
A dor não era apenas o medo do que aquele homem poderia fazer, mas a certeza devastadora de que, naquele instante, ela havia deixado de ser filha para se tornar mercadoria.
As mãos tremiam tanto que m*l conseguia mantê-las unidas no colo. O ar entrava em golfadas curtas e irregulares enquanto a realidade se acomodava de forma c***l em sua mente: ninguém viria salvá-la. Ninguém impediria aquilo. Naquele lugar, o poder falava mais alto do que qualquer moral ou compaixão.
Ela ergueu os olhos uma única vez, encarando a mãe em busca de algum sinal de arrependimento, de humanidade, qualquer coisa que provasse que aquilo não estava realmente acontecendo. Mas encontrou apenas um olhar vazio, consumido pela necessidade, como se Eleonor fosse apenas mais um objeto trocado por algumas horas de fuga química.
Naquele momento, algo se partiu dentro dela de forma definitiva e irreversível. O amor, a esperança, a ingenuidade de acreditar que, apesar de tudo, ainda existia um vínculo entre elas, tudo se dissolveu em um vazio gelado, capaz de substituir até mesmo o pânico.
Ela entendeu, com uma clareza c***l, que havia sido abandonada muito antes daquela noite. Apenas não tinha percebido.
E enquanto as lágrimas continuavam a cair sem controle, uma única certeza se gravou dentro dela com a força de uma promessa feita em pedra: fosse qual fosse o destino que a aguardava nas mãos do homem mais temido do morro, ela jamais perdoaria aquela traição. Jamais esqueceria o instante em que deixou de ser filha para se tornar o pagamento de uma dívida que nunca foi sua.