Capitulo 1

2727 Palavras
Eleonor Eu acordo antes do sol, não porque quero, mas porque o calor dentro do barraco fica insuportável quando a madrugada começa a ir embora, e também porque o barulho do morro nunca para de verdade, só muda de intensidade. Abro os olhos devagar, sentindo o corpo pesado do cansaço acumulado, e por alguns segundos fico encarando o teto manchado, tentando lembrar que dia da semana é, como se isso ainda fizesse alguma diferença na minha vida. Ao meu lado, no colchão fino jogado direto no chão, minha mãe dorme largada, respirando de um jeito estranho, às vezes roncando, às vezes murmurando coisas sem sentido, o cheiro azedo de suor, álcool e droga misturado ao ar abafado do quarto. Levanto com cuidado para não acordá-la, porque quando ela acorda m*l-humorada a casa inteira vira um campo de guerra, e caminho até a pequena pia improvisada na cozinha, abrindo a torneira que cospe água fraca e amarelada. Lavo o rosto tentando espantar o sono e olho meu reflexo no pedaço de espelho rachado colado na parede. Olheiras profundas, cabelo preso de qualquer jeito, boca sem cor. Parece que eu tenho mais idade do que realmente tenho, como se a vida tivesse passado por cima de mim sem pedir licença. — Tem café? — a voz rouca dela surge atrás de mim, arrastada, irritada, como se a simples existência dela fosse um fardo. — Sobrou um pouco de ontem — respondo sem virar, pegando a panela e colocando no fogão velho. — Frio eu não quero. Esquenta isso direito, menina. Engulo a resposta que vem pronta na ponta da língua. Não adianta discutir. Nunca adiantou. Enquanto o café esquenta, procuro algum pão duro dentro do armário quase vazio, encontro metade de um e coloco na mesa. Ela se senta arrastando os pés, os olhos fundos, a pele sem vida, e começa a beber como se aquilo fosse a única coisa que a mantivesse funcionando. — Hoje você vai receber? — pergunta sem me olhar. — Só amanhã. Ela bate a caneca na mesa com força, fazendo o líquido escuro respingar. — Você precisa pedir adiantado. Tô precisando de dinheiro. Eu fecho os olhos por um segundo, respirando fundo para não perder o controle. — Mãe, eu já pedi mês passado. O dono não vai adiantar de novo. — Sempre tem uma desculpa, né? — ela retruca, finalmente me encarando com aquele olhar duro que mistura acusação e desprezo. — Se você quisesse mesmo ajudar, dava um jeito. A vontade de rir vem amarga, quase dolorida. Ajudar. Como se eu não trabalhasse doze horas por dia, seis dias por semana, aguentando bêbado passando a mão, piada nojenta e patrão gritando, só para pagar comida, luz clandestina e as contas que ela mesma cria. — Eu já ajudo, mãe. É o que eu faço o tempo todo. Ela desvia o olhar, bufando, como se eu fosse a ingrata da história. O silêncio que se instala é pesado, cheio de coisas não ditas, de mágoas acumuladas que nunca vão ser resolvidas porque nenhuma de nós tem força ou coragem para isso. Termino de me arrumar em silêncio, colocando a mesma calça jeans de sempre, a blusa simples e o avental dobrado na bolsa. Quando estou saindo, paro na porta e olho para trás, não sei exatamente por quê, talvez por hábito, talvez por esperança de ouvir algo diferente, mas ela nem levanta a cabeça. Está ocupada demais encarando o nada, como se o mundo inteiro não passasse de um borrão distante. — Eu volto tarde — digo baixo. — Traz alguma coisa pra comer — ela responde na mesma hora, como se fosse a única coisa importante. Desço o morro sentindo o sol já começando a esquentar as costas, desviando de lixo, de crianças correndo descalças, de homens armados encostados nas esquinas que observam tudo sem realmente olhar para ninguém. O caminho até o buteco é automático, um trajeto que meus pés já conhecem melhor do que minha própria casa. Lá, o cheiro de cerveja velha e gordura me recebe como sempre, junto com o barulho de copos, música alta e risadas exageradas. — Chegou cedo hoje, Eleonor — diz seu Zeca, o dono, sem levantar os olhos do caixa. — Sempre chego — respondo, amarrando o cabelo mais firme e pegando a bandeja. O dia passa arrastado, como todos os outros, clientes entrando e saindo, pedidos repetidos, comentários inconvenientes que eu finjo não ouvir. Às vezes me pego pensando em como seria minha vida se eu tivesse nascido em outro lugar, com outra mãe, outra história, mas esses pensamentos são perigosos porque trazem junto uma sensação de perda por algo que nunca tive. Então eu empurro tudo para dentro, sorrio quando precisa sorrir, calo quando precisa calar e continuo trabalhando, porque no fim das contas é isso que mantém as coisas de pé, mesmo que por um fio. Quando a noite chega e finalmente me libero, minhas pernas doem, meus ombros queimam e minha cabeça lateja, mas o pior é a sensação de voltar para o mesmo lugar, para a mesma rotina, sabendo que amanhã tudo vai se repetir exatamente igual. Subo o morro devagar, segurando a bolsa contra o corpo, observando as luzes espalhadas pelas casas como pequenas estrelas presas na terra. Por um instante, permito-me imaginar que talvez algum dia as coisas mudem, que exista uma saída, uma vida onde eu não precise apenas sobreviver. Mas quando chego em casa e vejo a porta entreaberta, a luz acesa e o silêncio pesado lá dentro, essa pequena esperança se apaga antes mesmo de ganhar forma, substituída por uma sensação estranha, um aperto no peito que não sei explicar, como se algo estivesse prestes a acontecer e eu ainda não tivesse ideia de que minha vida, do jeito que conheço, estava prestes a acabar. Empurro a porta devagar, o coração batendo um pouco mais rápido sem motivo claro, e a primeira coisa que me atinge é o cheiro, mais forte do que o normal, pesado, ácido, como se o ar estivesse podre. A casa está uma bagunça maior do que de costume, coisas espalhadas pelo chão, a cadeira caída, a panela virada na pia, e por um instante penso que ela teve uma crise pior, que talvez tenha passado m*l, que eu vou precisar correr atrás de ajuda, mas então ouço um som abafado vindo do quarto, um murmúrio estranho, como alguém conversando sozinho ou chorando baixo. — Mãe? — chamo, largando a bolsa no chão sem nem perceber. Nenhuma resposta, só aquele ruído arrastado, quase animal. Caminho até a porta do quarto e paro antes de abrir, uma sensação r**m subindo pela minha espinha, como se algo ali dentro estivesse errado demais para ser ignorado. Empurro a porta e a encontro sentada no chão, encostada na parede, os olhos vermelhos, a pupila dilatada, o corpo balançando de leve para frente e para trás. Ao redor dela, embalagens vazias, um copo quebrado, uma colher suja, coisas que eu já vi antes e que sempre significam problema. — O que você fez agora? — minha voz sai mais cansada do que irritada. Ela levanta o rosto devagar, como se o simples movimento exigisse um esforço absurdo, e por um segundo parece não me reconhecer. Depois ri, uma risada fraca, sem alegria nenhuma. — Você demorou… — Eu saí no horário de sempre. Você comeu alguma coisa? — Não tô com fome. Claro que não está. Nunca está quando está assim. Eu suspiro, passo a mão no rosto e começo a juntar o lixo do chão, porque se eu não fizer, ninguém vai fazer. Enquanto recolho as coisas, sinto o olhar dela em mim, pesado, estranho, como se estivesse tentando medir algo. — Eles vieram aqui hoje — ela diz de repente. Minhas mãos param no ar. — Quem? — Os homens do morro. Um frio desce pelo meu estômago. Todo mundo sabe o que isso significa. — Por quê? Ela não responde imediatamente, apenas continua me olhando, e há algo naquele olhar que me deixa inquieta, um misto de medo e… outra coisa que não consigo identificar. — Eu precisava — murmura por fim, quase inaudível. — Eu precisava, Eleonor. Meu peito aperta, uma mistura de raiva e desespero subindo rápido demais. — Você fez dívida de novo, não fez? O silêncio dela é resposta suficiente. Eu fecho os olhos, sentindo a cabeça latejar, a vontade de gritar presa na garganta. — Mãe, eu não aguento mais isso… eu não tenho como pagar, eu m*l consigo manter a gente comendo. — Eu achei que ia dar tempo — ela sussurra, começando a tremer. — Achei que ia conseguir o dinheiro. — Com o quê? — minha voz falha, cansada demais até para brigar. — Você não trabalha, não vende nada, não tem de onde tirar. Ela começa a chorar, um choro seco, desesperado, como se estivesse vazia por dentro. Por um instante, sinto pena, aquela velha pena que sempre volta apesar de tudo, porque no fundo eu ainda lembro da mulher que ela foi um dia, antes de se perder completamente. — Eles vão voltar — ela diz entre soluços. Um silêncio pesado cai sobre o quarto. Meu coração dispara, mas tento me convencer de que talvez seja só ameaça, só pressão, que talvez eu consiga falar com alguém, pedir prazo, qualquer coisa. — A gente dá um jeito — digo, mais para mim mesma do que para ela. — Eu trabalho, posso pegar turno extra, pedir adiantamento de novo… alguma coisa a gente faz. Ela levanta os olhos para mim, e pela primeira vez vejo pânico verdadeiro ali, cru, desesperado. — Não dá mais tempo. Antes que eu consiga perguntar o que ela quer dizer, um barulho seco ecoa lá fora, pesado, definitivo, seguido por passos firmes do lado de fora do barraco. Meu corpo inteiro fica rígido, cada músculo travado, como se o instinto gritasse para correr mesmo sem saber para onde. — Mãe… — sussurro, a voz quase inexistente. Ela não responde. Só abaixa a cabeça, os ombros sacudindo em silêncio. Então vem a batida. Uma. Duas. Não é um pedido para entrar, é um aviso. O ar parece desaparecer dos meus pulmões. Dou um passo para trás sem perceber, as mãos frias, o coração batendo tão forte que chega a doer. — Abre — uma voz masculina ordena do outro lado, baixa, controlada, perigosa. Minha mãe solta um som quebrado, meio choro, meio gemido, mas não se move. Eu fico parada, olhando para a porta como se ela fosse explodir a qualquer segundo, porque no fundo eu já sei, mesmo sem querer admitir, que nada de bom entra quando homens assim batem na sua casa no meio da noite. A segunda batida vem mais forte, fazendo a madeira vibrar nas dobradiças frágeis. — Última vez que eu mando Sinto as lágrimas encherem meus olhos sem autorização, o corpo inteiro tremendo, e naquele instante tenho a sensação absurda de que minha vida, a vida miserável e repetitiva que eu sempre odiei, estava prestes a se tornar algo muito pior. Minha respiração fica curta, presa no meio do peito, como se o ar tivesse engrossado de repente, e por um segundo eu penso em fingir que não tem ninguém em casa, em ficar completamente imóvel até que eles desistam e vão embora, mas no fundo eu sei que homens assim não desistem, não vão embora, não aceitam silêncio como resposta. A terceira batida não vem. Em vez disso, um estrondo violento explode contra a porta, madeira rachando, metal cedendo, o barulho ensurdecedor preenchendo o barraco inteiro, e eu solto um grito que nem percebo que estava guardando enquanto a porta é arremessada para dentro, batendo contra a parede com força suficiente para derrubar o pouco que ainda estava pendurado nela. Quatro homens entram sem pedir permissão, sem olhar ao redor como visitantes fariam, mas como donos, ocupando o espaço com armas nas mãos e expressões duras, treinadas para não demonstrar nada além de ameaça. O primeiro deles é o que prende toda a minha atenção, não porque esteja apontando uma arma diretamente para mim, mas porque não precisa disso. Ele é mais alto, mais largo, veste preto como se fosse uma extensão da própria sombra, e carrega no olhar uma frieza tão profunda que parece não haver nada humano ali dentro. Eu reconheço antes mesmo de alguém dizer seu nome, porque todo mundo no morro sabe quem ele é. Predador. O dono disso tudo. O homem que transforma boatos em silêncio e dívidas em tragédia. Minhas pernas ficam moles na mesma hora, um tremor incontrolável subindo do chão até a cabeça, e preciso segurar na parede para não cair. O coração dispara de um jeito desordenado, batendo tão forte que chega a doer nas costelas, enquanto minha boca fica seca demais para formar qualquer palavra. Ele não olha para mim primeiro. Olha para minha mãe, caída no chão do quarto, encolhida como se pudesse desaparecer. — Cadê meu dinheiro, sua noiada? O prazo acabou. Você foi boa pra comprar as minhas mercadorias. A voz dele não é alta, não é agressiva no tom, e isso só torna tudo mais assustador, porque soa como alguém falando de algo comum, rotineiro, como se cobrar vidas fosse apenas parte do trabalho. Minha mãe começa a tremer violentamente, as mãos arranhando o próprio braço, os olhos arregalados de pânico. — Eu não tenho… eu não tenho, Predador — ela balbucia, a voz quebrada, quase inaudível. O silêncio que se segue é pesado, esmagador, e eu sinto o ar vibrar de tensão, como se algo estivesse prestes a estourar. Então ela levanta a cabeça de repente, os olhos vidrados, e aponta diretamente para mim. — Mas pode levar ela como pagamento da dívida. Por um segundo, o mundo simplesmente para. O som desaparece, o ar desaparece, tudo desaparece, como se alguém tivesse arrancado a realidade do lugar. Eu fico olhando para ela, esperando que ela ria, que diga que é brincadeira, que peça desculpa, qualquer coisa que prove que eu não ouvi aquilo direito. — Ela é virgem — continua, a voz apressada, desesperada, c***l de um jeito que eu nunca imaginei que fosse possível. — É até bonita… só é gorda… mas deve servir pra alguma coisa. Algo dentro de mim se quebra com um estalo silencioso, uma dor tão profunda que não parece física, mas rasga mesmo assim, como se estivesse arrancando pedaços da minha alma. As lágrimas começam a cair sem que eu perceba, quentes, contínuas, enquanto minhas mãos tremem sem controle ao lado do corpo. Eu não consigo falar. Não consigo gritar. Não consigo nem respirar direito. Ele finalmente me olha. O olhar desce lentamente, avaliando, medindo, calculando, como se eu fosse um objeto exposto numa vitrine, algo a ser analisado antes da compra. Nunca me senti tão pequena, tão exposta, tão inexistente como pessoa. Depois ele volta a encarar minha mãe, a expressão endurecendo ainda mais, se é que isso era possível. — Você é uma desgraçada mesmo — diz, a voz carregada de desprezo. — Dar a própria filha como moeda de troca… sua v***a drogada. Ela não responde, não n**a, não implora por mim. Só chora, encolhida, como se já tivesse se desligado de qualquer responsabilidade sobre o que acabou de fazer. Eu me deixo cair no sofá sem sentir, as pernas simplesmente cedendo, o corpo inteiro gelado, as lágrimas escorrendo sem parar enquanto olho para aquela mulher que me carregou por nove meses, que um dia eu chamei de mãe com orgulho, e tento entender em que momento deixei de ser filha para me tornar dívida. Nenhuma resposta vem, apenas um vazio enorme, sufocante, que ocupa todo o espaço dentro do meu peito. Naquele instante, o medo do homem à minha frente é grande, esmagador, mas não chega nem perto da dor da traição que me atravessa por dentro, porque monstros eu sempre soube que existiam no mundo, mas jamais imaginei que o pior deles pudesse estar sentado dentro da minha própria casa. Eu só consigo chorar, silenciosamente, sentindo algo morrer dentro de mim a cada segundo, enquanto uma única certeza se forma no meio do caos: aconteça o que acontecer a partir dali, eu nunca vou perdoar isso, nunca vou esquecer o momento exato em que fui entregue como se minha vida não valesse absolutamente nada.
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