Capitulo 2

2822 Palavras
Predador Acordo antes do despertador, como sempre, não porque sou disciplinado, mas porque minha cabeça não desliga nem quando o corpo apaga. O silêncio da fortaleza é pesado, denso, diferente do resto do morro onde sempre tem música, discussão ou moto subindo a ladeira. Aqui em cima só existe o vento batendo nas grades, o som distante da cidade acordando e a sensação constante de vigilância. Levanto da cama grande demais para uma pessoa só, passo a mão no rosto e caminho até a varanda, observando o Santa Marta lá embaixo, espalhado como um organismo vivo, pulsando, respirando, sobrevivendo. Tudo aquilo é meu para proteger, controlar e, se necessário, destruir. Não tenho mulher, não tenho filho, não tenho ninguém esperando café na mesa ou reclamando da minha ausência. Foi uma escolha e também uma consequência. Quem vive do jeito que eu vivo não constrói família, constrói inimigos. Pego a garrafa de água, bebo direto do gargalo e sigo para o banheiro, água gelada caindo sobre a cabeça para acordar o corpo enquanto a mente já trabalha, revisando rotas, nomes, pendências, possíveis problemas. Sempre tem algum. Poder não é descanso, é responsabilidade armada até os dentes. Desço depois de me vestir de preto, como quase sempre, a arma já encaixada na cintura, não por paranoia, mas porque descuido é coisa de gente que não chega ao topo. A descida até a boca principal é feita com olhares respeitosos, acenos discretos, gente abrindo caminho sem eu precisar pedir. Não é bajulação, é entendimento de território. Chegando lá, encontro os três já reunidos perto da mesa improvisada: F2 sentado de lado, desmontando e limpando uma pistola com a calma de quem poderia fazer aquilo de olhos fechados; GD mexendo no celular enquanto confere um caderno cheio de anotações; VK de pé, postura rígida, olhar varrendo tudo ao redor como se estivesse sempre esperando um ataque. — Bom dia, família — digo, puxando uma cadeira. — Aí sim, o homem resolveu descer da montanha — F2 solta, sem levantar os olhos da arma, um meio sorriso no canto da boca. — Se eu não desço, vocês fazem merda — respondo seco, mas sem peso real na voz. GD ri baixo, guardando o celular. — A gente só faz merda quando você não avisa antes. VK apenas faz um aceno curto com a cabeça, o jeito dele de cumprimentar sem perder a vigilância. Entre nós não tem formalidade, não tem senhor nem postura engessada. Somos irmãos antes de qualquer coisa, sobreviventes do mesmo inferno que virou império. Chefe é palavra para os vapores, montadores, gente nova que ainda precisa entender hierarquia. Aqui é família. — Situação da madrugada? — pergunto. GD abre o caderno imediatamente. — Movimento alto, sem ocorrência grande. Só uma troca de tiro rápida lá no limite com o outro lado, mas recuaram rápido quando viram reforço. Caixa da noite foi bom. — Segurança limpa — acrescenta VK, a voz grave, firme. — Patrulha rodou tudo. Nenhum estranho identificado. Assinto, absorvendo as informações, quando F2 encaixa a peça da arma no lugar e finalmente olha para mim. O olhar dele tem algo diferente, menos leve, mais carregado. — Tem uma parada pendente — ele diz. — Sempre tem fala. — disse, acendendo o beck Ele apoia os cotovelos nos joelhos, entrelaçando as mãos. — Aquela noiada lá de baixo a que pegou mercadoria fiado mês passado. Minha memória puxa o rosto quase automaticamente. Magra demais, olhar perdido, tremendo, típica dependente que promete pagar na próxima semana . — Quanto ela deve? GD responde antes que F2 abra a boca. — Dois mil . O número é alto para os padrões do morro, mas não é sobre valor, é sobre regra. Se um não paga, outros tentam também. — O prazo? — Estourado ontem — diz F2. — A gente segurou porque ela jurou que ia resolver. Não resolveu. VK cruza os braços, expressão fechada. — E já começou a se esconder. Patrulha passou e ela não apareceu. Fico em silêncio por alguns segundos, olhando o movimento da boca, gente trabalhando, dinheiro circulando, o sistema funcionando como uma máquina bem ajustada. Tudo depende de ordem. — Já tentaram cobrar direto? — pergunto. — Ontem à noite — responde GD. — Disse que ia dar um jeito hoje. F2 solta um suspiro impaciente. — Ela sempre diz isso. Passo a língua pelos dentes, pensando. Não gosto de punição desnecessária, mas também não tolero bagunça. — Ninguém encosta ainda — digo por fim. — Eu mesmo resolvo. Os três trocam um olhar rápido. Não é surpresa, mas é incomum eu descer pessoalmente por quinhentos reais. — Quer que a gente vá junto? — VK pergunta imediatamente. — Só dois comigo. O resto mantém a boca funcionando normal. Não quero alarde. F2 já se levanta. — Tô dentro. GD fecha o caderno. — Eu também vou. — Não — digo, apontando para ele. — Você fica. Se der merda em outro ponto, alguém precisa segurar a estrutura. Ele aceita sem discutir, apenas assentindo. VK também se posiciona. — Então eu vou. Assinto decisão tomada. Por fora pode parecer apenas uma cobrança pequena, mas no morro nada é simples. Às vezes uma dívida esconde outra coisa: ligação com inimigo, roubo interno, descontrole que pode virar problema maior. Prefiro olhar nos olhos e entender o que está acontecendo do que mandar recado e descobrir tarde demais que deixei algo crescer. — Se ela pagar, acabou e não vende nem uma preda se quer— digo, levantando. — Se não pagar… a gente resolve de outro jeito. F2 dá um meio sorriso sem humor. — Do jeito que sempre resolve. Não respondo. Não precisa. Todo mundo ali sabe exatamente o que significa. Enquanto subo de volta para pegar o colete e avisar o ponto de observação, sinto aquela familiar sensação de que o dia já começou pesado. Não por causa do dinheiro, mas porque gente desesperada faz coisas imprevisíveis, e imprevisibilidade é a única coisa que realmente ameaça quem está no controle. Lá embaixo, o morro continua vivendo, alheio ao fato de que, em poucas horas, a vida de alguém está prestes a mudar para sempre por causa de uma dívida que, no papel, vale apenas quinhentos reais, mas na prática pode custar muito mais do que dinheiro. Descemos sem pressa, mas também sem dar margem para curiosidade, dois carros e algumas motos abrindo caminho pelas vielas estreitas, o tipo de movimentação que faz as pessoas recolherem as crianças, abaixarem o som e fingirem que têm algo muito importante para fazer dentro de casa. Não é medo histérico, é sobrevivência aprendida. Quando paramos perto do barraco indicado, já tem cortina se mexendo, porta sendo fechada devagar, gente sumindo como se nunca tivesse estado ali. Eu desço primeiro, sentindo o sol bater direto no rosto, o calor subindo do chão de cimento, o cheiro de lixo e comida velha misturada ao ar pesado do meio do dia. F2 fica à minha esquerda, VK à direita, os dois atentos, mãos próximas das armas, olhos varrendo tudo sem parar. Não precisamos falar nada. Cada um sabe exatamente o papel que tem. Bato na porta uma vez, não forte, mas firme o suficiente para não deixar dúvida de que não é um vizinho pedindo açúcar. Nenhuma resposta. Bato de novo, dessa vez mais pesado. Depois de alguns segundos, ouço passos arrastados lá dentro, algo caindo, um xingamento baixo, e então a porta se abre apenas uma fresta. O rosto que aparece é exatamente como eu lembrava: pele pálida, olhos fundos, cabelo desgrenhado, boca ressecada, o tipo de aparência que denuncia anos de abuso sem precisar de palavra nenhuma. Quando ela me reconhece, a pouca cor que ainda tinha desaparece completamente. — Predador… — sussurra, a voz falhando. — Vim buscar o que é meu. Ela engole seco, olhando por cima do meu ombro como se procurasse uma saída invisível. Não há. — Eu… eu não tenho agora — balbucia rapidamente. — Mas hoje à noite eu resolvo, eu juro. Minha filha chega do trabalho e… e a gente acerta tudo. F2 solta um som baixo de descrédito, quase um riso sem humor. — Sempre tem uma história. VK permanece em silêncio, mas o olhar dele endurece, avaliando cada detalhe do interior do barraco através da fresta, como se procurasse um movimento suspeito. Eu não tiro os olhos dela. Mentira, medo, desespero… tudo passa pelo rosto de alguém que sabe que está sem saída. — O prazo já acabou — digo, a voz calma, sem elevar o tom. — Você teve tempo. — Eu sei, eu sei, pelo amor de Deus — ela começa a falar mais rápido, as mãos tremendo visivelmente. — Só mais hoje. Quando minha filha chegar, a gente resolve. Ela trabalha, ela recebe… eu dou um jeito. O jeito que ela enfatiza “filha” não passa despercebido. Algo na forma como diz soa menos como promessa e mais como… recurso. — Que horas ela chega? — pergunto. Ela hesita por um segundo, pequeno demais para qualquer um notar, mas não para mim. — De noite… tarde. F2 cruza os braços, impaciente. — Isso tá com cara de enrolação. Eu continuo olhando para ela, deixando o silêncio crescer até ficar desconfortável, até ela começar a se mexer nervosamente, incapaz de sustentar meu olhar por muito tempo. Pessoas desesperadas falam demais ou se calam demais. Ela está no primeiro grupo. — Última chance — digo por fim. — Hoje à noite eu volto. Ela solta um suspiro tão forte que parece desmoronar ali mesmo, quase um choro. — Obrigada… obrigada, eu vou resolver, eu prometo. Não agradece porque confia, agradece porque ganhou tempo. Tempo para quê, ainda não sei. Dou um passo para trás, sinalizando que estamos saindo, mas antes de virar, falo sem olhar diretamente para ela. — Se eu voltar e não tiver solução, não vai ter outro prazo. A mensagem é clara o suficiente para não precisar de explicação. VK já está se movendo, F2 me acompanha, e voltamos para os carros sob o mesmo silêncio respeitoso das janelas fechando e das pessoas fingindo normalidade. Dentro do veículo, F2 balança a cabeça. — Não gostei. — Nem eu — VK concorda, olhando pelo retrovisor. Fico alguns segundos em silêncio, observando o morro passando pela janela, cada casa colada na outra, cada história invisível por trás das paredes finas. — Ela tá escondendo alguma coisa — digo finalmente. — Vai fugir — F2 afirma. — Ou aprontar — completa VK. Apoio o cotovelo na porta, os dedos pressionando levemente o queixo enquanto penso. Dívida pequena, reação grande demais. Não bate. — Avisem a patrulha pra ficar de olho — ordeno. — Se ela tentar sair do morro, eu quero saber. — Fechado — diz VK imediatamente. O resto do caminho segue em silêncio, mas não é um silêncio tranquilo, é aquele tipo que vem antes de algo dar errado. No fundo, já sei que aquela noite não vai terminar com um simples pagamento em dinheiro, porque quando alguém sem nada promete resolver tudo de repente, geralmente significa que está disposto a entregar qualquer coisa que ainda tenha valor. E no morro, quase sempre, o que resta de valor não é objeto, é gente. A noite já tinha engolido o morro quando voltamos, luzes amarelas acesas nas casas, som distante de funk misturado com televisão alta, cheiro de comida simples escapando pelas janelas, a rotina normal de quem tenta viver apesar de tudo. Para nós, era só mais uma cobrança, mas algo no ar continuava errado, pesado, como se o próprio morro estivesse prendendo a respiração. Desço do carro sem pressa, F2 e VK logo atrás, os três atentos, porque noite é território de imprevisto. Paro diante do barraco e bato na porta com os nós dos dedos, firme, duas vezes. Nada. Nem passos, nem voz, nem movimento. — Abre — digo, sem elevar o tom. Silêncio absoluto. F2 me olha de lado, já irritado. VK inclina levemente a cabeça, ouvindo, avaliando. — Tá estranho — ele murmura. Bato novamente, mais forte, a madeira vibrando sob o impacto. Nada. Nenhuma reação. Minha paciência acaba ali. Dou um passo para trás e, sem aviso, lanço o pé contra a porta. A madeira velha não resiste, estoura para dentro com um estrondo seco, batendo contra a parede e levantando poeira. Entramos imediatamente, varrendo o ambiente com o olhar. E então eu a vejo. Sentada no sofá velho, rasgado, afundado no meio como se estivesse prestes a desmanchar, está uma garota. Jovem. Paralisada. As mãos apertadas uma contra a outra no colo, os olhos inchados de tanto chorar, o rosto pálido demais sob a luz fraca da lâmpada pendurada no teto. Ela parece pequena naquele espaço, pequena demais para a realidade que claramente não entende ou não aceita. Não há dinheiro sobre a mesa, não há sinal de fuga, não há nada além dela. F2 solta um xingamento baixo, confuso. — Que p***a é essa? Antes que eu responda, a mulher surge do quarto, tropeçando, o olhar vidrado, o corpo tremendo, mas com uma urgência estranha, quase ansiosa. — Eu não consegui o dinheiro — diz de imediato, as palavras saindo atropeladas — mas pode levar ela como pagamento. O silêncio que cai é diferente de todos os outros. Pesado. Incômodo. Errado. Ela aponta para a garota no sofá como se estivesse indicando um móvel velho. — Leva ela. Ainda é virgem e bonita… só é gorda… mas serve. Algo dentro de mim endurece de um jeito que não tem nada a ver com a dívida. Já vi gente vender coisa roubada, entregar comparsa, mentir, implorar, mas aquilo… aquilo ultrapassa um limite que nem o morro costuma cruzar tão facilmente. F2 fica imóvel, incrédulo. VK aperta o maxilar, os olhos escurecendo. A garota não fala nada. Só chora em silêncio, lágrimas caindo sem pausa, o olhar perdido como se tivesse sido arrancada de si mesma. Quando finalmente levanta os olhos para mim, há ali uma mistura devastadora de medo, dor e incredulidade, como se ainda esperasse que alguém dissesse que tudo não passa de um engano. — Você é uma desgraçada — digo, encarando a mulher, a voz baixa, carregada de desprezo. — Dar a própria filha desse jeito… Ela não reage como alguém ofendido. Só encolhe os ombros, desesperada, vazia. — Eu precisava… eu não tenho mais nada. Nada. A palavra ecoa no ar como uma sentença. A garota limpa o rosto com as mãos trêmulas, respira fundo várias vezes tentando se controlar e finalmente consegue falar, a voz baixa, quebrada. — Posso… pelo menos pegar minhas coisas? Não tenho muitas. O pedido é tão simples, tão humano, que por um segundo parece deslocado dentro daquela cena grotesca. Olho para ela, avaliando, e faço um gesto curto com a cabeça. — Vai lá. Anda rápido. Não tenho a noite toda, garota. Ela se levanta com cuidado, como se as pernas não fossem sustentá-la, e passa por nós sem olhar diretamente para ninguém, indo até o quarto. O silêncio que fica é sufocante. F2 esfrega o rosto, claramente incomodado. — Isso é errado pra c*****o — ele murmura. VK não diz nada, mas o olhar dele continua fixo na mulher, duro, julgador. Eu observo o interior do barraco, as paredes descascadas, a sujeira, o abandono, tentando entender em que momento alguém se perde a ponto de considerar aquilo uma solução aceitável. Não é sobre moralidade é sobre limite. E aquela mulher não tem mais nenhum. Quando a garota volta, carrega apenas uma bolsa pequena, velha, segurada contra o peito como se fosse a única coisa que ainda lhe pertence. Ela para perto da porta, sem saber exatamente onde ficar, o olhar baixo, o corpo inteiro tenso. A mãe não se aproxima, não abraça, não pede desculpa, não diz nada. Só observa, com uma expressão vazia que dói mais do que qualquer choro. — Vamos — digo, virando para sair. A garota hesita um segundo, olhando ao redor da casa como se estivesse gravando cada detalhe na memória, talvez porque saiba que nunca mais vai voltar, talvez porque ainda espere acordar daquele pesadelo. Depois dá o primeiro passo, lento, incerto, atravessando a porta destruída e deixando para trás não apenas o barraco, mas tudo o que restava da vida que conhecia. Lá fora, o ar da noite é fresco demais depois do ambiente sufocante lá dentro, mas não traz alívio nenhum. F2 abre a porta do carro traseiro, VK observa os arredores, e eu apenas espero enquanto ela entra, os movimentos mecânicos, os olhos fixos no nada. Quando a porta se fecha, o som parece definitivo, como o bater de um cadeado invisível. Não é dinheiro. Não é mercadoria. Não é justiça. É algo muito mais complicado, muito mais pesado, e pela primeira vez naquela noite tenho a sensação de que aquela dívida acabou de se transformar em um problema muito maior do que quinhentos reais.
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