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Eu sou Fernando Torres, tenho trinta anos , todos me conhecem no morro como F2, não nasci bandido, mas também nunca tive a opção real de ser outra coisa. Cresci no Santa Marta vendo desde pequeno quem mandava, quem obedecia e quem morria cedo demais por escolher o lado errado ou por simplesmente estar no lugar errado. A minha infância não teve brinquedos caros, escola particular ou sonho de faculdade, teve pipa na laje, bola na rua de terra, sirene de polícia, tiro de madrugada e mães rezando baixinho pros filhos chegarem vivos em casa. O meu pai sumiu quando eu e minha irmã ainda éramos pequenos, e a minha mãe criou eu e a minha irmã trabalhando como diarista, saindo antes do sol nascer e voltando quando o céu já estava escuro, cansada demais para conversar, mas nunca cansada demais para lembrar que eu precisava ser homem direito e não morrer cedo igual a tantos outros.
Mas o morro ensina rápido e ensina sem pedir permissão. Eu cresci vendo os meninos que tinham tênis novo, roupa de marca e respeito andando armados e sendo chamados pelo nome com medo e admiração ao mesmo tempo. No começo eu só olhava, depois comecei a fazer pequenos favores, levar recado, avisar quando a polícia subia, coisas pequenas que pareciam inofensivas, mas que eram a porta de entrada para um caminho sem volta. Quando eu percebi, já estava dentro, primeiro como vapor, depois montador, depois correria, sempre obediente, sempre esperto, sempre sabendo a hora de falar e a hora de ficar calado. Isso foi o que fiz e eu subi rápido, porque no morro não sobrevive quem é só valente, sobrevive quem é inteligente.
Foi nessa época que eu me aproximei do Renan, que ainda não era chamado de Predador como é hoje, mas já tinha o respeito e a frieza de quem nasceu para comandar. Crescemos praticamente na mesma guerra, perdemos gente, viramos coisas demais para a idade que tínhamos, e essa convivência virou lealdade, e lealdade no morro vale mais que dinheiro. Quando Renan assumiu o controle de vez, eu já estava do lado dele, não como vapor, mas como homem de confiança, alguém que podia mandar, resolver, decidir e, se fosse preciso, atirar sem tremer a mão. Foi assim que eu virei o Sub do Santa Marta , o segundo na hierarquia, o cara que muita gente respeitava e muita gente temia, mas que mesmo assim descia o morro no fim do dia para jantar com a família como qualquer outro homem.
Porque diferente do Predador, que vivia sozinho na fortaleza no alto do morro, eu tinha casa, tinha mulher, tinha filha pequena que corria pela sala e bagunçava tudo, tinha uma vida dupla que eu fazia questão de manter separada. Dentro do morro eu era o F2, o braço direito, o homem que resolvia problema. Dentro de casa ele era só o Fernando, o marido da Samira e pai da Maria Cecília e do pequeno Enzo Gabriel que está caminho, o cara que chegava cansado, tirava o tênis na porta e deixava as armas trancadas no armário e deitava no chão para brincar com a minha filha.
Naquela noite, quando eu cheguei em casa, o cheiro de comida tomou conta da sala antes mesmo eu fechar a porta atrás de mim. A Samira estava na cozinha terminando a janta, e a filha pequena brincava sentada no tapete da sala com algumas bonecas espalhadas ao redor. Assim que me viu, a minha menina abriu um sorriso enorme e saiu correndo, os pezinhos batendo rápido no chão.
— Papai!
Eu abaixou na hora e a pegou no colo, girando devagar enquanto ela ria alto, aquele tipo de riso que limpava qualquer sujeira da alma.
— Minha princesa, o que você aprontou hoje? — perguntou, beijando o rosto dela.
— Eu desenhei! A mamãe colocou na geladeira e eu ajudei a aguardar as roupinhas do Enzo lá no quartinho dele!
— Então depois você vai me mostrar, porque desenho de artista famosa eu tenho que ver de perto.
Samira apareceu na porta da cozinha, secando as mãos no pano de prato, olhando aquela cena com aquele olhar de quem já se acostumou com a vida difícil, mas ainda valoriza os momentos simples.
— Vai lavar tomar seu banho que a comida já tá pronta — ela disse.
— Já vou, já vou.
Eu coloquei a Ceci no chão e fui até o banheiro, tirei a roupa, joguei no cesto de roupa, e entrei embaixo do chuveiro, tentando tirar o peso do dia, porque eu fazia questão de não levar a guerra do morro para dentro da minha casa. Quando voltou, sentaram os três para jantar, a Ceci falando sem parar, contando coisas da escola, da professora, das amigas, e eu apenas ouvindo, comendo, observando, como se aquilo ali fosse o que mantinha ele ainda humano.
Depois de alguns minutos, Samira olhou para mim com atenção, percebendo que eu estava mais quieto que o normal.
— Aconteceu alguma coisa?
Eu pensei um pouco antes de responder.
— Hoje a gente foi cobrar uma dívida.
— Normal, você faz isso sempre.
Eu apoiou o garfo no prato e respirou fundo. – passei a mão no rosto.
— A mulher não tinha dinheiro.
— E aí? — ela perguntou, já imaginando o pior.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos antes de continuar.
— Ela deu à filha como pagamento.
A Samira parou de mastigar na mesma hora, o olhar mudou completamente.
— Como assim deu a filha?
— Entregou a menina. Falou pra gente levar.
O silêncio que se formou foi pesado, diferente de qualquer outro silêncio daquela casa. Ceci continuava brincando no tapete, alheia a tudo, enquanto os dois adultos se olhavam tentando processar aquilo.
— E vocês levaram? — ela perguntou baixo.
Fernando passou a mão no rosto, cansado.
— O Predador levou ela pra fortaleza.
Samira balançou a cabeça devagar, incrédula.
— Tem gente que não devia ser mãe…
Eu não respondi. Apenas ficou olhando para a nossa filha brincando no chão, rindo sozinha com as bonecas, e naquele momento sentiu um aperto estranho no peito, porque por mais que eu vivesse no meio da violência, ainda existiam coisas que eram difíceis de engolir.
— Como é a menina? — Samira me perguntou depois de um tempo.
— Assustada. Quietinha. Chorou o tempo todo, ela é gordinha não e como as outras ela é novinha, acho que deve ter uns 18 há 19 anos não sei .
Eu peguei o copo de água e bebi devagar, pensativo.
— A vida muda rápido demais pra algumas pessoas — eu murmurou.
Samira olhou para nossa filha, depois olhou pra mim .
— Só promete uma coisa.
— O quê?
— Que você nunca vai deixar nossa filha crescer perto desse mundo.
Eu olhei para nossa menina no tapete, depois para a mulher à sua frente, e respondeu sem hesitar.
— Por ela, eu enfrento o mundo inteiro e pelo Enzo também.
E naquele momento, sentado à mesa da minha própria casa, com a minha filha brincando no chão e a minha mulher na minha frente grávida do nosso filho, eu Fernando Torres, o F2 do morro, entendi que a história daquela garota que tinha sido entregue como pagamento ainda ia dar muito problema, porque o Predador podia aceitar dívida, dinheiro, arma, território, mas gente… gente sempre complicava tudo.