Pré-visualização gratuita Primavera
Era primavera, e o gradual aumento das temperaturas impulsionava o florescimento dos jardins. Despertei ao som insistente do meu despertador, que já tocava pela quinta vez naquela manhã; estava, mais uma vez, atrasada para as atividades na universidade. Este era o terceiro dia consecutivo em que me atrasava.
Às sete horas da manhã, as aulas matutinas já se iniciavam pontualmente às seis. Embora ainda houvesse uma margem para chegar a tempo, as atividades principais se desenvolviam entre as sete e as sete e meia. Com o tempo escasso, vesti o sobretudo mais elegante que encontrei, consciente da necessidade de demonstrar estilo e preparo, especialmente em uma instituição de ensino voltada para a moda.
Privada do tempo para um banho, recorri ao perfume para ao menos conferir uma aparência fresca. Sem mais delongas, tomei a chave do carro e segui diretamente para a universidade. Ao chegar às sete e cinquenta, deparei-me com a professora já presente na sala de aula. Adentrei o recinto silenciosamente, na esperança vã de passar despercebida, mas logo fui notada pela docente, que não hesitou em destacar o meu atraso.
— Este é o horário em que se chega? — questionou ela, em tom severo.
— Lamento, houve um contratempo — desculpei-me, assumindo o erro.
— Poupe-me das desculpas e tome seu lugar imediatamente — ordenou-me, indicando o assento vago.
Instalada ao lado de uma jovem de aspecto agradável, dei-me conta de sua gentileza ao abordar a situação com leveza.
— Ela já lhe deu uma bronca, não é? — interpelou a jovem, num tom amigável.
— Um tanto quanto — reconheci, sentindo-me envergonhada.
— Sou Aurora, é um prazer conhecê-la — apresentou-se ela, estendendo a mão.
— Jessy, igualmente — respondi, correspondendo ao gesto com um aperto de mão.
Ao longo da aula, encontrei conforto na companhia de Aurora, que gentilmente compartilhou valiosas dicas para lidar com a professora exigente, além de oferecer sugestões de estilo para os próximos dias. Aos poucos, percebi que o atraso era apenas um obstáculo temporário diante das oportunidades de fazer novas amizades e adquirir conhecimento na faculdade de moda.
Enquanto trocávamos risos, pude admirar o estilo marcante de Aurora, com uma calça de tom neve, um suéter preto estiloso e um cachecol da mesma cor. Mesmo na estação da primavera, o frio persistente ainda demandava proteção adicional.
O sinal anunciando o término das aulas ecoou pelo corredor da universidade. Como de costume, dirigi-me em direção à saída, lembrando-me da lista de compras que minha mãe havia me encarregado de fazer. Ao chegar à porta de vidro, fui surpreendida por um esbarrão provocado por aquele que mais me desagrada: Brayn. Com um copo de refrigerante em mãos, ele acidentalmente derramou o líquido sobre mim. Em meio a um pedido de desculpas desajeitado, ele tentou em vão limpar o estrago com um guardanapo, apenas espalhando ainda mais a mancha escura em meu sobretudo.
— Desculpe, desculpe... — sua expressão era de genuíno constrangimento.
— Está tudo bem — respondi, sinalizando para que ele interrompesse seus esforços infrutíferos de remoção da mancha. A sorte, infelizmente, não estava ao meu lado; meu sobretudo era branco, e a marca se encontrava ali.
Após me conceder passagem, Brayn permitiu-me finalmente deixar a universidade, atravessando a porta de vidro.
Bryan, o tipo de rapaz que desperta a admiração de todas as mulheres, era o destaque do time de basquete, além de líder do grupo. Seu porte atlético e dedicação à namorada eram qualidades inegáveis, porém sua arrogância e constante exibicionismo despertaram em mim uma antipatia crescente. Embora pudesse ser considerado o ideal de muitas, seu comportamento prepotente me impedia de nutrir simpatia por ele, ao contrário das outras garotas.
Absorta em meus pensamentos, percebi que havia alcançado apenas agora o meu carro. Adentrei o veículo e dei a partida, dirigindo-me rumo ao Asda.
Ao chegar ao Asda, adquiri todos os itens constantes na lista elaborada por minha mãe. Efetuei o pagamento e dirigi-me diretamente ao meu carro, imbuída da ansiedade de reencontrá-la. Com a certeza de alegrá-la, adquiri um sorvete e algumas guloseimas adicionais, almejando arrancar-lhe um sorriso. Embora minha mãe tenha me fornecido o dinheiro para as compras, dada a minha condição de trabalho, optei por utilizar meus próprios recursos financeiros. Tal decisão reflete minha vontade de contribuir para o sustento do lar, buscando proporcionar-lhe um ambiente confortável e acolhedor.
Dirigi-me então à residência materna, ciente de que, embora vivamos em cidades distintas, nosso vínculo familiar transcende a distância física. Infelizmente, minha mãe enfrenta um diagnóstico de câncer, uma realidade que impõe desafios adicionais à nossa relação. Estou ciente da necessidade de oferecer-lhe apoio e conforto neste momento delicado, e empenho-me ao máximo para proporcionar-lhe uma vida digna e repleta de felicidade.
O fato de não residirmos sob o mesmo teto é uma circunstância temporária, motivada por minha mudança para um apartamento visando prosseguir meus estudos em Oxford. A conquista da bolsa de estudos para esta prestigiada instituição foi fruto de esforço e dedicação, e contou com o integral apoio de minha mãe. A notícia de sua doença foi recebida com profundo pesar, abalando minhas expectativas e planos futuros.
No entanto, mesmo diante deste revés inesperado, mantenho-me determinada a proporcionar à minha mãe uma vida repleta de realizações e conforto, honrando o apoio e a dedicação que sempre demonstrou para comigo. Nosso amor e vínculo familiar permanecem inabaláveis, transcendendo qualquer adversidade.
Levei aproximadamente uma hora e doze minutos para chegar até sua casa. Estava preocupada com o sorvete; ele começa a derreter após dois minutos, imagine depois de uma hora. Toquei a campainha, ansiosa para vê-la e para lhe dar a notícia de que voltaria a morar com ela. Provavelmente, ela não ficará tão contente; seu pensamento é que eu deva viver minha vida sem preocupações. Segundo ela, eu deveria aproveitar minha juventude, o que considero injusto, pois tenho uma mãe que merece meu carinho e amor. Meu objetivo é proporcionar-lhe uma vida melhor.
Não tenho namorado e quase não tenho amigos. Não quero que nada me distraia do meu foco. E não permitirei que nada me abale.
Minha mãe abriu a porta com um sorriso no rosto. Meu coração acelerou com uma mistura de tristeza e felicidade. Estava feliz por vê-la, mas ao mesmo tempo, ver sua condição, sem os lindos cabelos e precisando de apoio com máquinas, abalou-me profundamente. Sem querer, deixei uma lágrima rolar.
Estive ausente por um ano e três dias. Completei o colegial e iniciei a universidade. Passei um ano sem ver minha mãe.
Ver seu estado atual deixou-me profundamente triste. Fiquei tanto tempo sem vê-la e soube de sua doença apenas há uma semana.
Hoje é sexta-feira e eu precisava vê-la.
Não deveria ter saído daqui, afinal. Meu pai faleceu há pouco tempo, aproximadamente dois anos e meio; meu irmão desapareceu após receber a notícia do falecimento de nosso pai. Eu deveria ter ficado com minha mãe. Fui muito injusta. Minha dor pela perda de meu pai e meu irmão foi grande, mas a dela, certamente, foi ainda mais profunda, e, mesmo assim, não pensei nisso completamente.
— Filha, finalmente — ela me abraça com dificuldade, prejudicada pela máquina hospitalar. Eu a abraço com força, mas ao mesmo tempo, com cuidado.
— Desculpe, mãe — ela interrompe o momento caloroso e me olha.
— Desculpar pelo quê, minha filha? — pergunta, com preocupação no olhar.
— Por deixá-la nessa condição — não consigo conter as lágrimas, que rolam pelo meu rosto. Sinto-me incapaz de protegê-la, de conseguir ajudá-la...
— Minha filha, eu te apoiei. Por isso não queria que te informassem sobre a doença — disse ela, inclinando a cabeça para baixo.
— Eu sei, mãe, mas eu queria tanto poder te ajudar... Vamos passar por isso juntas! — falei com um tom de superação.
— Eu sei, minha filha.
– O que é isso no seu sobretudo branco? — perguntou ela, erguendo uma sobrancelha, como se já soubesse que fora uma provocação de um rapaz.
— Apenas um jovem esnobe da universidade que esbarrou em mim — respondi, com raiva na voz.
Nossos olhares se cruzaram e, de repente, começamos a rir.
Sentamos e assistimos a um filme engraçado. Comemos sorvete e, como esperado, minha mãe sorriu com as guloseimas. Fiquei tão contente em vê-la feliz; fazia tanto tempo que eu não via aquele sorriso lindo...
Esses momentos me trouxeram lembranças do meu pai. Quando ele estava conosco, víamos filmes engraçados e de terror juntos. Meu irmão não gostava muito de filmes de terror; ele não era fã das histórias. Sinto tanta saudade de abraçar ambos agora, vendo minha mãe nesse estado, sinto que estou perdendo ela aos poucos. Tenho tanto medo de ficar sem o carinho dos três...
— Filha, vou dormir — disse ela, beijando minha testa antes de ir para o quarto.
Ela parecia tão cansada que esqueceu de me dizer onde eu dormiria. Peguei uma coberta, deitei no sofá, coloquei os fones de ouvido e conectei ao celular. Comecei a ouvir música. Fui transportada pela melodia, sentindo-me em uma leveza quase espacial, uma calma profunda. Meus pensamentos começaram a vagar, como se eu estivesse em um estado de sonho.
E assim, adormeci envolta em minhas memórias e preocupações.
Acordei mais cedo do que esperava, despertada pelo meu próprio sono. O sol já estava raiando, e percebi que minha mãe ainda dormia. Decidi então preparar um café da manhã: ovos mexidos, bacon e salsichas, acompanhados de um suco de laranja, uma combinação típica do Reino Unido.
Fui até o quarto da minha mãe e, com cuidado, acordei-a de maneira afetuosa, dando-lhe um abraço caloroso e um beijo na bochecha. Coloquei a bandeja com o café da manhã na cama.
Ela parecia feliz com minha presença, e eu me esforcei para não desmoronar na frente dela, para mostrar que tudo estava bem, que eu estava bem. No entanto, essa tarefa era extremamente difícil para mim, pois eu estava profundamente abalada.
Enquanto ela saboreava o café da manhã, sentei-me ao seu lado, segurando sua mão frágil.
— Mamãe, eu estava pensando... talvez eu deva voltar a morar com você — disse, hesitante, observando sua reação.
Ela pousou o suco de laranja e olhou para mim com um olhar misto de amor e firmeza.
— Minha filha, eu te apoiei para que seguisse seus sonhos em Oxford. Não quero que abandone isso por minha causa.
— Mas, mãe, eu posso estudar daqui. Há outras universidades boas em Londres — insisti, sentindo a urgência de cuidar dela.
— Jessy, eu sei que quer me ajudar, mas preciso que viva sua vida. Sua juventude é preciosa e, apesar da minha condição, não quero ser um obstáculo para você.
As palavras dela atingiram-me profundamente. Eu sabia que ela estava certa, mas o desejo de estar ao seu lado era incontrolável.
— Eu te amo, mãe. Não quero perder mais tempo longe de você.
Ela sorriu, seus olhos brilhando com lágrimas não derramadas.
— Eu também te amo, minha filha. Vamos encontrar uma maneira de conciliar as duas coisas, está bem?
Assenti, sentindo um alívio misturado com uma tristeza persistente. Ela sempre foi forte, e agora eu precisava ser forte por nós duas.
Passamos o resto do dia juntas, conversando, relembrando momentos felizes e planejando como poderíamos enfrentar essa nova fase. Decidimos que eu voltaria para Oxford para concluir o semestre, mas visitaria Londres sempre que possível.
No final do dia, enquanto a noite caía, minha mãe me olhou com uma expressão de tranquilidade.
— Filha, você é minha maior alegria. Não importa o que aconteça, estou orgulhosa de você.
— E eu de você, mãe. Vamos superar isso juntas.
Abracei-a com força, sentindo seu calor e a fragilidade de seu corpo, prometendo a mim mesma que faria tudo para vê-la sorrir novamente.
Naquela noite, deitei no sofá, mas o sono foi diferente. A preocupação ainda estava lá, mas havia também uma determinação renovada. E assim, deixei-me levar pelo sono.