CAPÍTULO QUATRO

4940 Palavras
"O amor é querer estar perto, se longe; e mais perto, se perto." – Vinicius de Moraes Acordamos com mamãe preparando nosso café da manhã. Pegamos no sono no meio da sala, como já fizemos muitas outras vezes... Minha mãe fica mais animada quando temos companhia para as refeições. Em geral, é sempre Álvaro que está conosco, talvez uma figura masculina diminua a falta que papai nos faz. Nossa cozinha é americana, quando mamãe decidiu se dedicar a cozinhar para fora, fizemos essa modificação e assim ela ganhou mais espaço para fazer suas delícias. Do outro lado do balcão que usamos como mesa quando estamos sozinhas, avistei a cabeleira loira em corte Chanel da minha Lourdes. Ela está linda nesta manhã. Deve ter se divertido muito com suas amigas ontem, ela cantarolava uma música romântica em alemão. Cheguei por trás dela e a abracei forte. Enchi seus ombros de beijos e ela sorriu com ternura. — Ah minha pequena, vocês dormiram na sala outra vez? — Desculpe Sra. Reimann – respondeu Álvaro lá da sala, enquanto dobrava os edredons — Ficamos conversando e acabamos pegando no sono. — Como sempre! Vocês já são crescidinhos para serem carregados até o quarto. – Fingiu estar brava. Abri a geladeira e peguei o jarro de suco virando no gargalo mesmo. Álvaro chega à cozinha e eu entreguei a ele, que repetiu o mesmo. — Vocês são mesmo nojentos! – Reclama enquanto coloca a mesa. — Mãe! – Repreendo. — Quê? Esquecem que há outras pessoas nesta casa, que por um acaso também poderiam querer tomar um copo de suco, sem serem contaminados com seus germes? — Dona Lourdes, nesta casa só existe a senhora e eu! Com exceção deste aqui... – aponto Álvaro e ele me devolve o jarro — E até onde eu sei, há muito tempo a senhora não compartilha da mesma garrafa de suco que eu! – Digo virando o líquido na boca, tomando todo o restante do suco. — Você é mesmo um moleque! – Ela balança a cabeça. — É o que eu sempre disse, Sra. Reimann! – Completou Álvaro. Depois de tomarmos um café reforçado, Álvaro e eu fomos para o seu apartamento novo. Ele comprou ano passado quando começou a sair com uma modelete da Capital, a mulher é tão magra que pode ser usada como arco, ou melhor, como a própria flecha. Ele não gostava que ela ficasse hospedada em hotéis quando vinha nos visitar, e a Sra. Gutierrez nunca permitiu que levasse garotas para dormir em casa, bom, eu sempre tive passe livre, mas acho que ela nunca me viu como uma garota... Ok! Não uma garota que dorme na cama do filho dela, enfim... Ele resolveu comprar esse apartamento para terem mais privacidade, e eu sempre achei que no fundo ele também tinha esperanças de que um dia ela viesse morar com ele e quem sabe até se casassem. Nunca coloquei fé que isso fosse acontecer, embora soubesse que Álvaro estava apaixonado, a tal modelo da Capital não tinha jeito de quem se casa, cuida da casa, tem planos de ter filhos e ela nunca demonstrou o mesmo interesse por ele. Sem contar que ela realmente não me descia. Sempre com cara de poucos amigos, desfilava em seu BMW pela cidade com o nariz empinado, era tão antipática que nunca me deu vontade de sequer perguntar seu nome. Há uns seis meses, aconteceu o previsível, a modelo magricela recebeu um convite de uma agência norte-americana, para trabalhar por lá uns três anos; não pensou duas vezes em aceitar, sem ao menos perguntar o que Álvaro achava da proposta. Depois de pisar nas terras do Tio Sam, o namoro não demorou um mês para chegar ao fim, através de uma mensagem por celular. Cheia de consideração, a moça! Só agora o Álvaro teve ânimo de pintar e mobiliar o apartamento. Ainda não sabemos quando ele se mudará definitivamente para lá, ele também não tem pressa, já que o motivo que o fez adquirir aquele imóvel está agora desfilando suas pernas de alicate em outro país. E eu faço votos de que continue por lá. Hoje vamos pintar meu quarto. Sim, eu tenho um quarto no apê dele! Ele me disse que sempre foi meu, mas que não teve coragem de dizer antes, por que saberia que por causa da minha implicância com aquela vassoura que ele chamava de namorada, eu não o aceitaria, mas mesmo assim, seria um canto para que eu pudesse usar sempre que quisesse ou precisasse. Eu acredito nele. Álvaro e eu não temos segredos ou mentiras, com exceção da gravata que ganhei e não tive coragem de mostrar a ele. Vou deixar que ele se esqueça da minha mancada de ontem e depois eu conto pra ele, afinal, não é nada que tenha importância mesmo. — Sabe, o pincel não vai até a parede com a força do pensamento... Isso é ficção! Exceto pela outra cabeça que nasceu ai atrás, você não é um mutante com superpoderes! – Zombou o meu velho amigo. — Ha-Há! E você, como comediante, morreria de fome! – Devolvo, começando a pincelar a parede. Escolhemos as cores neutras para a casa, Álvaro é muito básico e pretende manter tudo bem "clean". No meu quarto as paredes serão brancas e apenas uma – onde pretendo pendurar algumas coisas, como um mural de fotos nossas – pintaremos de preto. — Acho que por hoje chega! Vamos comer alguma coisa! — Ahhhhh... Falta apenas um toque final e este quarto ficará maravilhoso! – Falo e passo o pincel em seu nariz. — Ei sua pirralha, pare com isso! Vai dar um trabalhão tirar toda essa tinta depois. — É? – Perguntei com um sorrisinho malicioso e passei novamente o pincel nele, mas agora em seu peito nu! — Chega, moleque! Eu vou ter que tomar banho com removedor de tintas... – Insistiu, sem sucesso, pois antes de terminar sua frase, eu já estava correndo atrás dele pelo apartamento com meu poderoso pincel cheio de tinta branca. — Volte aqui, seu covarde! Seja homem e encare seu inimigo! – Grito empunhando o pincel como se fosse uma espada. Ele continuou desviando de mim e de alguns dos poucos móveis espalhados pelo apartamento, até que no caminho para a cozinha tropeçou em uma caixa e acabou caindo, antes que conseguisse se levantar, acabei caindo em cima dele. Ele me olhou assustado e depois observou meu corpo ainda sobre o seu. — Se machucou? – Quis saber. — Não! E você? — Acho que quebrei uma costela com esse peso todo desmoronando sobre mim. — Sério? Te machuquei!? Onde? — Aqui! Apontou para a costela e quando me afasto, ele toma rapidamente o pincel da minha mão e em questão de segundos está sobre mim. — Agora vamos ver quem fica melhor com a cara toda pintada! – Touché! Tentei lutar contra ele, mas foi inútil, sua força é zilhões de vezes maior que a minha, mesmo assim não me dei por vencida e mordi seu ombro. Ele gritou de dor e se jogou do meu lado. Ficamos deitados por alguns minutos no chão, recobrando o fôlego e rindo feito idiotas. Enquanto ele foi tomar banho para tentar tirar toda aquela tinta do corpo, aproveitei para fazer alguns sanduíches e abrir um vinho que encontrei abandonado na geladeira, de certo deve ter sido comprado para outra ocasião com alguém que sabemos que nunca mais vai voltar. Improvisei uma mesa com as caixas que estavam pela sala e cobri com um pano que encontrei no armário da cozinha. Aproveitei para inaugurar a ducha do meu quarto e também fui limpar aquelas manchas de tinta que estavam na minha cara, nos braços e no cabelo. Depois de ficar completamente limpa, me dei conta que levei tudo que precisava para o banheiro, menos uma toalha. Sai do box e encontrei uma toalha de rosto pendurada. Não era lá aquelas coisas, mas naquele momento iria servir a causa. Enxuguei meu rosto, tirei o excesso de água do meu cabelo, peguei minha correntinha de ouro branco que estava sobre a pia, e, ainda nua, parei em frente ao espelho e a levantei na altura dos olhos. Como é linda! Sorri, contemplando cada detalhe dela. Ganhei do Álvaro quando fiz quinze anos, é uma corrente lisa com um pingente em formato de um menino e tem um pequenino diamante cravado no local onde seria o coração. Ele também tem uma igualzinha, mas com pingente de uma menininha. É o símbolo da nossa amizade. Um barulho me desviou a atenção para o espelho à minha frente e vi o reflexo espantado de boca aberta do Álvaro atrás de mim feito estátua na porta do banheiro. — Eu não sabia que estava aqui! – desesperou-se envergonhado — Eu, eu, eu... Olha me desculpe! – tampando os olhos com as mãos — Eu não fazia ideia... A porta estava aberta! – virou de costas e saiu se batendo pelas paredes em direção ao corredor — Poxa, Esther! Por que não fechou a porta! – Resmungou lá de fora. Continuei petrificada sem conseguir reagir àquele momento tão embaraçoso. Óbvio que já o vi nu e ele também me viu, mas isso foi há anos e em situações bem diferentes. Desde que menstruei, comecei a ter vergonha de algumas partes do meu corpo, e por isso evitei deixá-las à mostra. Pode parecer idiotice da minha parte, mas não me sinto à vontade em andar com minhas pernas gordas de fora, ou com decotes... Barriga à mostra? Nem pensar. Na verdade assim que "fiquei mocinha" – como diz mamãe – meu corpo começou a crescer descompassadamente e eu não consegui evitar. Tenho um metro e setenta, cabelos compridos, preto e ondulado, às vezes quando durmo com ele molhado, acordo igualzinho ao Rei Leão. Meus olhos são castanhos bem claros e o que gosto mesmo é das minhas sobrancelhas naturalmente arqueadas, traços que herdei do meu pai. Minhas pernas são grossas e musculosas – dizem! – mas em minha opinião são gordas mesmo. De tanto jogar bola, acabaram ficando um pouco masculinizadas, não que eu as odeie, mas acho que não são compatíveis com alguém que tem noventa e cinco de quadril e a famosa b***a brasileira... Também herança da família do papai! Minha cintura é mais fina e por isso tenho um pouco de dificuldade em comprar jeans, então prefiro moletom ou legging, que entram mais facilmente e disfarçam bem. Meus s***s são o grande problema, e esses herdei da Dona Lourdes, com doze anos já usava sutiã, e hoje meu número é quarenta e dois. Não sou uma magrela igual à ex do Álvaro, mas também não sou uma obesa... Graças ao futebol. Não sei dizer em qual categoria de corpo feminino me encaixo, então prefiro não pensar sobre isso, mantendo meu corpo o mais longe possível de olhares e comentários. Parece que o plano de esconder o meu corpo até decidir como encará-lo não deu muito certo. Estou atônita e sem palavras, não sei como encarar Álvaro e desfazer essa cena constrangedora entre nós. Mas preciso ir até ele deixar claro que está tudo bem. Não quero que nossa relação mude por causa de um descuido meu. Termino de me secar com a pequena toalha de rosto e coloco um macacão largo, uma baby look preta e minhas meias com desenhos de caveirinhas. Prendo meu cabelo num r**o de cavalo e faço um coque. Pego minha correntinha e caminho até a porta do quarto. Respiro fundo, conto até dez e tento abrir a porta, mas algo me impede. Não, não e não! Não posso deixar que isso se torne um bicho de sete cabeças, até mesmo os irmãos têm certo tipo de liberdade entre si, e nós já nos conhecemos há mais de dez anos. Mas que p***a! Por que estou me sentindo tão tímida? Nunca fomos tímidos um com o outro! Deveríamos estar rindo de tudo isto agora. Sim, é isso que devemos fazer! Conto até dez novamente, fecho os olhos e saio sem pensar de dentro do quarto. Ando até a sala e não o vejo, senti um golpe de vento e olho para a direção da varanda, as portas de vidro estão abertas, deduzo que ele possa estar lá fora e caminho naquela direção. Encontro-o de costas, olhando para o horizonte, paro atrás dele do lado de dentro e encosto no batente da porta, ele está tão sereno, tão quieto, olho mais adiante e vejo o pôr do sol caindo sobre o mar, é lindo de ver. Ficamos assim, quietos, imóveis, até que o sol se pôs por completo e então ele suspira. — Linda paisagem! Ainda hipnotizada pelo maravilhoso espetáculo que acabo de apreciar, respondo confusa. — Como? O quê? Ah sim, é realmente muito linda! — Eu me referi à paisagem que vi lá dentro! – E me olha. Porra! Engulo seco e levanto minha correntinha. — Pode me ajudar com isso? – Peço, ignorando o que acabo de ouvir. Caminho em sua direção e entrego a corrente em suas mãos, me encosto ao seu lado, no parapeito da varanda, sem encará-lo, olho em direção à praia. Ele vem por trás de mim e a coloca em meu pescoço, seus dedos tocam levemente meu pescoço e eu arrepio. Como sou ótima atriz, ele deve ter percebido, mas finjo não reagir ao seu toque. Ele então encosta ao meu lado e dessa vez, eu quebro o silêncio. — Sabe de uma coisa? – Pergunto. — Hum! — Esse colar foi o primeiro presente de menininha que você me deu! Na verdade... – passo a mão pela corrente e seguro o pingente – O único! — Bom você sempre foi um moleque... Você sabe disso! – e sorri — Mas naquela ocasião, era seu aniversário de menininha, com roupa e festa de menininha. Era necessário um presente de menininha – E me olha. — Você tem uma corrente igual, não se esqueça! Também é coisa de menininha! — Sim eu sei. – Responde sério, segurando o seu pingente. — E você não liga? — Não! Representa muito os melhores momentos da minha vida, na melhor companhia que alguém poderia ter. — Ahhhhh... Não me diga que vai chorar agora? Mimimimi... – Zombo. Ele me abraça forte e rimos juntos, olhando para o nada. Depois de quebrarmos aquele ocorrido catastrófico, jantamos, ouvimos um pouco de Metallica ao vivo e resolvemos jogar uma partida de futebol no Xbox que faz parte da pequena mobília que ele tem em seu quarto, junto com uma TV enorme pendurada na parede e um colchão de casal inflável. Meu celular começou a tocar, nos interrompendo bem no momento decisivo de nossa disputa. — Mãe! – Atendi. — Esther, onde está? — Aqui na casa do Al, mãe! – Respondi e ele gritou o nome dela ao fundo. — Já terminaram ai? — Bom, conseguimos pintar metade de um quarto, mas ficou muito lindo! – Estou orgulhosa do nosso trabalho. — O dia todo para pintar metade de um quarto? É, deve ter ficado uma beleza mesmo! – Bufou. — E que horas esse menino vem te trazer? — Eu não sei, ainda estou dando uma surra nele no futebol, e sabe que ele odeia se dar por vencido, né? Espere... Vou perguntar para ele. Me viro para Álvaro e pergunto que horas me levaria. Ele me devolveu um olhar mais indagador ainda — Bem, mãe... – voltei ao telefone — Não sabemos, ainda não terminamos aqui. — Diga a ela que eu te levo amanhã cedo! – Me interrompeu, ele. Fiquei sem fala segurando o telefone ao ouvido e mantendo meus olhos nos dele. — Esther? Filha, não tenho a vida inteira para aguardar sua resposta. Que horas você vem? — Mãe... – respirei fundo — Ainda não acabamos aqui! O Al vai me deixar em casa de manhã. – Nunca senti tanta insegurança em dizer isto à minha mãe. — Deixa-me falar com este menino folgado! – Ordenou ela. Passei o celular para ele sem dizer uma palavra. Já imaginando o que ela diria, ele pegou o telefone se justificando. — Sra. Guima... Reimann! Estamos terminando uma importante partida, mas não vamos varar a noite com isso, eu prometo! Amanhã deixarei esse moleque cedo na sua casa – e me olha — Sim! Sim senhora. Tudo bem. Não, ela não vai perder a hora. Pode confiar. Ok, ok. Obrigada Sra. Reimann. Boa noite para a senhora também. A senhora quer falar com... Sim. Entendido. Eu darei o recado. Boa noite novamente. – E após ouvir todo o sermão da montanha, ele desliga. — Deve ter rezado um pai nosso inteirinho, né? – Perguntei. — Bom, não preciso repetir toda a novena de sempre, não é mesmo? – Ele riu. — Nem pensar! – Peguei meu celular e programei o despertador para as seis da manhã. — Então... — Então? — Vamos terminar nossa partida e continuar fingindo que nada aconteceu como sempre fizemos? Ou seremos adultos e encararemos que há algo acontecendo desde a sua festa de quinze anos e isto te incomoda assim como a mim também? – Nossa essa foi direto no estômago! — Mas eu estava a ponto de te dar outra surra! – Sim, vamos continuar fingindo! — Até quando Esther? – Tomou o controle remoto da minha mão. — O quê? O que você quer falar que não pode esperar terminarmos o que estamos fazendo? – Me encolhi. — Deixe de se comportar feito adolescente, você não é mais uma há muito tempo e sabe bem disto! Todas as vezes que algo acontece, assim como hoje, nós acabamos passando por cima e enterrando o assunto para baixo do tapete... – Senta-se ao meu lado e segura meu queixo em sua direção. — Não foi pra isso que você pediu pra minha mãe me deixar ficar! – Murmuro por que continuo a insistir em deixar isso pra depois. — Sim! Foi por isso e você sabe! – Sua voz é firme, e dessa vez eu sinto que não tenho como correr. — Tudo bem eu me rendo! – Jogo minhas mãos ao alto. — Vamos, eu preciso tomar alguma coisa antes que minha coragem vá pro espaço! – Estende sua mão para que eu me levante e vamos para a cozinha. Ele serve duas taças de vinho e me entrega uma. Sabe que eu não tenho hábito de beber, pelo menos quando não estou com ele. Na cozinha há um balcão que a divide entre a sala, e duas banquetas uma de cada lado. Sento-me do lado em que está na sala e ele, de frente para mim, do lado de dentro da cozinha. Eu tomo um belo gole e me preparo para o que esta por vir. — Ouça, Esther, você sabe que não somos mais crianças! Sabe que agora eu sou um homem e você está rapidamente se tornando uma linda mulher. — Sou uma adolescente em fase de transição! – minimizo — Você é o adulto aqui! – Aponto para ele. — Sem brincadeiras. Você já passou da fase de transição há muito tempo. Aceite! Não há mais nada de adolescente em você, a não ser pela idade, mas em dois meses você já será completamente adulta. — Você está querendo discutir minha idade? – Desconverso. — Não. Estou querendo que você pare de se esconder atrás dessa fachada de menina, que pare de se esconder de você mesma, do mundo... – e altera sua voz — Pare de se esconder de mim! Assusto e definitivamente me perco no assunto. Não sei o que pensar, o que dizer. Aonde raios ele quer chegar? Ele toma mais um gole de vinho e enche nossos copos. — Quando você entrou na adolescência, nós estávamos um pouco distantes, ficávamos vários meses sem nos ver, e cada vez que nos encontrávamos você estava maior, diferente, mudando rápido... – ele me olha e passa os dedos pelos nós dos meus – Mas eu sempre a via como minha pequena. Como aquele moleque que eu conheci no campinho... – suspira e fecha os olhos rapidamente — Tantos anos juntos, vivendo como melhores amigos, nunca me permitiram sonhar em te ver diferente do que sempre fomos um para o outro: irmãos! Mas quando ficamos todo aquele tempo sem nos ver... — Se você está querendo dizer que eu cresci, que não sou mais aquele moleque de dez anos atrás, tudo bem! Já entendi... – Mas ele levanta e dá a volta no balcão, vindo até a sala trazendo a banqueta consigo. — Estou querendo dizer que, quando saí daqui para estudar, deixei uma criança que sempre vi como um menino, um irmão que nunca tive. Mas isso é uma mentira. Uma ilusão que criamos pra diminuir a tristeza e a falta que nos fazia ter alguém para compartilhar as coisas. Por um tempo isso deu certo. Mas quando nos falamos aquele dia antes do seu aniversário, senti algo diferente, sua voz, seu jeito de falar, aquilo mexeu comigo, me deixou confuso! — Olha... — Não! Não me interrompa. Vamos quebrar essa barreira que está nos afastando! – Pediu com voz doce. — Tudo bem! – Aceito. — Quando eu voltei, no dia da sua festa e entrei naquele salão... Não encontrei o irmão, a irmã, ou sei lá o que inventamos, não encontrei a criança maloqueira e encrenqueira que deixei aqui com os joelhos todos esfolados de tanto brincar com os meninos na rua. Quando eu te vi naquela festa, eu encontrei uma mulher! Acho que o mundo poderia se abrir ao meio agora e simplesmente fazer a gentileza de me engolir! Meu corpo está quente, pulsando, tenho certeza que minhas pupilas estão mais dilatadas que quando fiz exame de vista. Tomei um gole maior ainda de vinho, mas nem senti o gosto. Quero sair daqui, quero me enfiar em qualquer buraco. Mas não posso. Ele está certo. Precisamos terminar com isso! Há algo acontecendo e precisamos descobrir o que é. Juntos. Esther! — Simplesmente não sei o que dizer! Estou me sentindo... Estranha! — Você estava linda. Eu nunca a tinha visto tão linda e radiante como naquele dia. Sempre trocávamos fotos, mas nenhum era capaz de entregar a mulher por trás dessas roupas que você usa, que mais parecem um saco. E eu consigo descrever cada detalhe seu no dia da sua festa. O vestido, o cabelo, a maquiagem e aquela sandália que me deixou de queixo caído... – E então sorri tão saudoso. — Mandei bem com aquela sandália hein? Fala sério? – Brinco. — Sim. Mandou! – Tocamos as mão em comprimento de comemoração. — Mas depois eu nunca mais a encontrei... – Lamento. — Nunca olhou no porta malas do meu carro. Deve ser por isso! — O que? Nãooooo! – Faço cara de horrorizada. — Ahhhh sim! Está no exato lugar em que deixou. — Mas isso tem mais de dois anos! – levo a mão à boca e arregalo os olhos – Faz muito tempo! — E você não imagina as dores de cabeça que isso me causou! Sabe? Ter que explicar o que uma sandália feminina faz no porta malas do meu carro... Ainda mais quando tentava explicar que eram suas! – Aquela magrela nunca engoliria esta! — Poxa, mas mesmo dizendo que eram minhas não adiantava? – Questiono como se eu mesma acreditasse. — Principalmente! – rimos — Quando uma namorada minha te viu usando saltos? Quando você usa saltos? Você nem mesmo se veste como uma mulher. E este é o ponto aqui. Então não adianta querer mudar o foco. Ainda estamos tendo nossa conversa... – c*****o, é difícil enrolar este homem! Ponto pra ele. Fui pega novamente! Pelo jeito não conseguirei sair desta casa sem terminar nossa conversa de "adultos". O melhor é encarar que chegou a hora e deixar rolar. — Desculpe! – olho para a taça. — Tudo bem! – e continua — Tudo em você havia mudado, se transformado, você estava maravilhosa, exalando sensualidade, e eu sei, mesmo que tentasse me mostrar que ainda era a minha pirralha, seus olhos denunciavam a linda mulher que havia brigado comigo na noite anterior, e isso clareou muito as coisas, mas também me confundiu mais ainda... – toma mais um gole de vinho, me observa e seu rosto está tão cheio de mistérios – Desde aquele dia, já não sei se nossa discussão foi de uma irmã que sente falta do irmão que está longe, ou se... Ele pausa, me olha novamente, pende sua cabeça de lado e coloca uma mecha da minha franja atrás da orelha. — Até hoje não sei se aquela cobrança, se a falta que eu fazia a você e você a mim era muito mais que fraternal, que ia além de amigos saudosos. Essa dúvida está começando a me bagunçar por dentro. E eu sei que isso também mexe com você. UAU! E como mexe! Damos um longo gole de vinho e eu desvio meu rosto. Ele levanta e pega a garrafa, serve meu copo, depois o dele, senta ao meu lado e permanecemos em silêncio. Preciso fazer alguma coisa, e preciso fazer urgente. Levanto e vou até a porta de vidro da varanda. — Está uma noite muito agradável hoje. Poderíamos dar uma volta na praia. O que você acha? — Não sei! Será que esse passeio vai nos ajudar a descobrir algo? – Me segue e para ao meu lado. — Não sei, mas precisamos cortar essa tensão que está dentro deste apartamento. Precisamos de ar... Eu preciso! – Confesso, virando minha taça de vinho e tomando todo o líquido. — Um banho de mar ajudaria bastante! – Ele também termina seu vinho. Pega a minha taça e a dele, as leva para a pia. Em segundos ele volta anunciando que colocará uma bermuda, eu peço uma emprestada já que não trouxe outra muda de roupa. Ele traz uma bermuda de tactel que usa para correr e vou até o quarto para trocar, embora depois do que aconteceu mais cedo, não precisasse, fechei a porta à chave e tirei meu macacão jeans, mantive minha baby look e coloquei a bermuda e um tênis. — Estou pronta! – Saio do quarto. — Vamos lá! Corremos uns cinco quilômetros e paramos em um quiosque que ainda estava aberto. Sentamos na areia e tomamos água de coco em silêncio, observando as ondas quebrando na beira da praia. Por alguns minutos, estar ali com ele não me incomodou, ao contrário, a sua presença sempre me reconfortou e me fez sentir protegida, acolhida, amada. AMADA! AMADA? Ai meu Deus, ai meu Deus, o que está acontecendo comigo? Eu só devo estar tendo alguma crise, algum problema mental, isso nunca poderia acontecer entre nós. Não dessa forma, imagina! Isso não é certo, somos amigos, somos irmãos... NÃO! Ele disse que criamos essa história, que inventamos... Mas eu ainda o sinto como um irmão. E não me importa o que ele diga. É assim que eu nos vejo. Agora toda a paz que eu sentia ao seu lado, que eu sentia segundos atrás, acaba de pegar sua malinha e fugir de mim, mas deixou sua meia irmã, a Dúvida, junto com o tio-avô, o Medo, tomando conta de toda a minha cabeça e meu coração. Entro em desespero. — Se pensar com mais força, toda a praia vai te ouvir! – Álvaro corta meus pensamentos. — Odeio que você invada minha i********e! — Se está se referindo a hoje à tarde, foi você quem deixou a porta do banheiro aberta, mas eu peço desculpas, agora se está falando dos pensamentos que estão rondando sua cabecinha neste minuto, não são tão íntimos, já que faço parte deles. – Bate seu ombro no meu. — Estou me sentindo uma i****a, uma adolescente perdida, não consigo orientar meus pensamentos, estou em conflito e a única coisa que sei é que você sempre foi e sempre será muito importante para mim, pode dizer o que quiser Al, mas eu o tenho como irmão. É assim que você se portou desde que nos conhecemos, sempre me protegeu, me ajudou, me ensinou e partilhou coisas comigo, me confidenciou seus maiores segredos, confiou em mim nas horas mais cruciais e eu fiz o mesmo... Levanto e o encaro. — Não é isso que os irmãos fazem, p***a? Por que você não deixa a gente ser como somos e ponto? – Sinto minha voz um tanto alterada, meus lábios estão secos e minha respiração acelerada. Mantendo seus olhos nos meus, ele se levanta. — Por que irmãos não se beijam! — Mas que p***a! – Passo as mãos entre os cabelos. Como ele é insistente! — Você está certa em tudo. Mas um único detalhe torna tudo isso que fomos por todos esses anos em uma grande dúvida. Irmãos não beijam como eu te beijei no dia do seu aniversário, não como nos beijamos quando voltei arrasado da Capital, por ter terminado de vez com a Selena, não beijam com tanta paixão, tanta língua como no dia em que te trouxe ao meu apartamento pela primeira vez, e não me venha com essa de que era por que estávamos bêbados... Corei. Ele também não precisava detalhar, nem ser tão direto. Foram apenas beijos, oras! — E irmãos, Esther, minha linda, Esther... – aproxima-se segurando minha cintura, baixa sua cabeça e me encara – Não sentem a imensa vontade de se beijar, como eu estou sentindo neste momento... Com muita língua e paixão! – Estou tendo um treco. Vou desmaiar!
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