CAPÍTULO TRÊS

4949 Palavras
"O amor é a única flor que brota e cresce sem a ajuda das estações." – Khalil Gibran   Cheguei em cima da hora à cafeteria, o senhor Thomas Espinoza, que é o atual dono, neto do fundador, ainda não havia aberto, então entrei e coloquei a caixa com cupcakes e churros sobre o balcão para poder arruma-los nas prateleiras. — Bom dia Esther! – Falou meu patrão. — Bom dia senhor Thomas, já estou quase terminando aqui e poderemos abrir. — Enquanto você termina ai, vou colocando as mesas lá fora. — Sim senhor. Comecei a trabalhar aqui quando era bem mais nova. Esse também foi o primeiro emprego do Álvaro, e eu o ajudava quando minha mãe me deixava aqui em algumas tardes, em troca tinha sempre um lanchinho, algum docinho e meu favorito frappuccino de creme. Às vezes íamos juntos fazer algumas entregas, e quando ele foi embora, o senhor Thomas, que já estava acostumado com minha presença, me deixava ficar por aqui; começou me pagando algumas gorjetas e no final do ano passado me contratou meio período durante a semana; aos sábados e domingos, fico na parte da manhã. Tenho direito a uma folga por semana, mas como não ando tendo muito o que fazer por essa cidade, acabo vindo parar aqui, mesmo que seja apenas para estudar. Essa cafeteria é muito antiga, o senhor Thomas a herdou de seu pai, que herdou do pai dele. Tem uma decoração bem retrô, na verdade acho que sua primeira decoração foi feita há uns cinquenta anos, quando foi inaugurada. Algumas modificações foram feitas por conta dos desgastes dos móveis, e os utensílios da cozinha obviamente precisaram ser substituídos por outros mais modernos.  Mas a vista me agrada, ainda conservam-se nos cantos do ambiente os bancos vermelhos de couro em formato de "U" com as mesas quadradas da cor marfim ao centro; as cadeiras que ficam distribuídas pelo meio do salão têm a mesma cor que os bancos e são acompanhadas de mesas menores para apenas dois lugares, tudo muito parecido com as lanchonetes americanas. No fundo da loja, há uma jukebox com todos os clássicos; em frente ao balcão há alguns bancos altos e redondos, cuja pintura é em tom pastel e com alguns quadros, em que havia fotos da cidade, em preto e branco, e de atores e atrizes famosos, inclusive de personalidade e celebridades que já visitaram o lugar. Ao lado da porta de entrada, há um vaso com um cacto que deve ter a minha idade e está naquele lugar desde sempre; o piso e a porta de entrada são de madeira, e, acima dela, há um enorme chapéu Mariachi e do lado de fora há uma placa de madeira em formato de chapéu, onde está escrito ao meio, em néon vermelho: Mexicano Café. Como hoje é sábado, eu vim na parte da manhã, o dia passou rápido e o movimento foi grande mesmo sendo final de semana. Estou quase no meu horário, então começo a recolher as bandejas e a organizar a loja, quando a porta se abre e um grupo de engravatados junto com moças de tailleurs entram falando ao mesmo tempo e alto. Eles sempre vêm aqui durante a semana, hoje é a primeira vez que os vejo fora do horário comercial. São funcionários da empresa onde mamãe e eu fizemos a entrega mais cedo, eles têm um prédio inteirinho há umas duas quadras daqui, são advogados renomados e de alto escalão, sei que a matriz fica na capital e que esse prédio pertence a uma das filiais que eles têm por todo o país. Alguns desses advogados eu já conheço pelo nome, pois estão aqui diariamente. O mais frequente é o senhor Vicenzo Sanches, homem muito bonito e educado que está sempre rodeado de lindas mulheres. Também, quem não se renderia ao charme de um homem como este? – rico, bonito, trabalha bem e em um escritório tão conceituado, ele tem muitas qualidades que agradam a uma mulher. Não faz o meu tipo, que eu ainda não sei qual é, mas é uma criatura agradável de observar. — Esther! Esther, por favor, pode nos ajudar aqui? Estamos com um pouco de pressa! – Chamou-me o bonitão senhor Vicenzo. Saio do meu devaneio e corro em direção a sua mesa. — Sim, claro senhor. Pode dizer! — Queremos o de sempre, mas o meu café pode ser duplo e eu gostaria de uma rosquinha daquelas que só a sua mãe sabe fazer! – Diz, me dando uma piscadela. Corro e saio em disparado para a cozinha, quando passo para o lado de dentro do balcão vejo de relance um homem entrar e se dirigir à mesa onde está senhor Vicenzo e companhia. Penso em voltar e perguntar o que deseja, mas não sei se vai ficar, portanto continuo que estou fazendo. Quando retorno para entregar as bebidas, o homem que entrou por último está sentado com o grupo, de costas para mim, dou a volta e paro em frente a ele, não consigo ver seu rosto, pois está de cabeça baixa anotando algo em um pedaço de papel enquanto fala ao telefone. Sirvo todos que estão à mesa. Ainda de cabeça baixa, ele me faz um sinal para ir até ele, pede um minuto a pessoa do outro lado da linha e sem levantar o rosto me pede um Cappuccino com creme, pergunto se deseja algo mais e ele apenas acena negativamente. Retiro-me para buscar o que ele deseja e com um estalo paro no meio do caminho... Eu já ouvi essa voz, mas onde? Acho que devo estar imaginado coisas.  Volto até eles e, quando estou me aproximando da mesa, o tal homem sem face levanta de sobressalto, gesticulando, aos berros no telefone, não houve tempo de desviar e ele acabou esbarrando na minha bandeja, fazendo a xícara entornar sobre mim, com o susto e o calor do líquido, encharcando meu peito. Acabei dando um berro e caindo feito uma torta no chão, batendo com força a cabeça. Se alguém ainda não tivesse visto aquela cena, agora todos estavam com seus olhares voltados para nós.  Desesperado ao olhar para trás e me perceber toda molhada e espatifada no piso o homem de terno preto veio feito um raio em minha direção e se ajoelhou ao meu lado. — Moça! Moça! Você está bem? Moça... Você MORREU? – Exalta-se. Tentando recobrar a consciência, fui abrindo lentamente os olhos, o borrão que estava sobre meu corpo foi tomando forma e consegui ver claramente a gravata. Eu reconheci aquela gravata azul-marinho com risquinhos transversais prateados. Que gravata linda, estendi meus dedos para poder tocá-las quando o dono daquele corpo que agora estava jogado sobre o meu insistiu: — Moça você ainda está ai? Esta me enxergando? — Que linda gravata! – Foi só o que consegui dizer antes de elevar meu olhar ao dele. Nossos olhares finalmente se encontraram, e eu não conseguia parar de observar aqueles olhos grandes, castanhos, moldados em cílios escuros e sobrancelhas grossas, firmes, mas bem desenhadas, seus olhos são tão marcantes, que mesmo que eu quisesse, não poderia desviar. Não sei dizer quanto tempo ficamos nos encarando pode ter sido frações de segundos, mas para mim, parecia uma eternidade. — Linda mesmo, sim realmente eu tenho um excelente gosto! – Respondeu ele orgulhoso, quebrando nosso contato visual. — Me desculpe, não queria... – Recobrei totalmente meus sentidos e comecei a tentar me levantar. — Calma, calma, eu sou mesmo um cara desastrado. Olha se você gostou da gravata, pode ficar com ela. Eu tenho muitas outras, acredite! Toma. – Começou a tirá-la do pescoço e foi interrompido pelo senhor Vicenzo. — Cara, eu acho que ela deseja muito mais que você saia de cima dela e a deixe respirar do que a sua linda gravata. – Sinto um tom sarcástico no senhor Vicenzo, pegando em minhas mãos e me ajudando a ficar em pé.  — Está tudo bem? Você bateu a cabeça com força! Será que não teve nenhum traumatismo? Eu acho que devemos chamar uma ambulância... não, não, não, melhor irmos agora mesmo ao hospital. Não, acho que não podemos movimentá-la, deite-a no chão de novo e vamos chamar um médico. Dizia ele andando de um lado para o outro passando os dedos pelo seu cabelo muito bem penteado para trás embebecidos em gel. — Senhor, eu estou bem. Juro! Só preciso me sentar! – Digo enquanto Vicenzo e seus amigos me apoiavam até que fiquei completamente em pé. — Tem certeza? Como você sabe? Se você tiver algo interno? Não... Se está me dizendo que está bem é por que não está! Disse em tom exasperado e parando em minha frente, se curvando e me encarando no fundo dos meus olhos. Examina-me, coça o queixo e torna a andar. — Eu vou ficar bem, apenas me deixe ir ao banheiro, preciso me limpar e trocar esta camisa. Conforme fui dizendo e me afastando senti uma pontada na parte de trás da cabeça e minhas pernas fraquejaram, percebi que estava perdendo as forças e quase cai quando mãos firmes ampararam-me. — Eu não falei? Eu não falei?! Ela precisa de um médico! Alguém aqui é médico? – Gritou ele enquanto apertava minhas costas junto ao peito. — Ok, ok, ok, Athos! Vamos levá-la ao médico. Pessoal, voltem para o escritório, vamos resolver isto aqui e voltamos correndo para terminar nosso trabalho. – Ordenou senhor Vicenzo. — Vicenzo vá com eles, não se preocupe eu a levo até o hospital. Não podemos atrasar esse serviço. Sabe que estamos com nossos prazos em cima. – Decidiu o homem que me segurava. — Tem certeza que consegue chegar ao hospital sem causar outro acidente? – Perguntou o amigo. — Sim, sim, sim! Eu sei onde fica o hospital, vou e volto rápido. Disse enquanto me apertava mais forte, parecendo que estava com medo de que eu voltasse a cair. O senhor Thomas veio lá de dentro da cozinha sem entender o que estava acontecendo enquanto as pessoas voltavam para os seus lugares e os advogados iam até o caixa pagar a conta. Mas o homem da linda gravata lhe explicou o que havia ocorrido, assegurou que me levaria ao hospital e depois para a minha casa. Meu patrão lhe entregou minha mochila e meu boné junto com o endereço da minha casa e seguimos para o estacionamento. O homem dos olhos ferozes e cabelo lambido de gel me apoiava no caminho até seu carro, não que fosse realmente necessário, mas se ele fazia questão, eu não iria dizer para ele parar. Identifiquei seu carro quando ele acionou o alarme, não fiquei surpresa com o tamanho da máquina que ele dirige, afinal um homem que se veste com ternos tão finos e certamente caros, não deve andar por ai com um automóvel de segunda mão, não! O carro que piscou os faróis destravando as portas era uma Land Rover modelo Discovery 5 do ano, preta, mesmo que ainda estivesse um pouco grogue, jamais me engano quando se diz respeito a carros. Meu melhor amigo coleciona miniaturas desde criança e com ele aprendi tudo sobre marcas, modelos, motores... Acabei ficando um pouco viciada nessas coisas também. Chegamos até a Land Rover, e cavalheiro, o senhor de terno preto abriu a porta e me ajudou a subir, encostou cuidadosamente minha cabeça no banco e afivelou meu cinto, abriu a porta traseira e colocou minha mochila e meu boné no banco traseiro. Deu a volta no carro e subiu pelo lado do motorista, ligou o carro e senti seus olhos me fitando. Devolvi o olhar e, mesmo me congelando a espinha, não desviei, pelo contrário, o encarei e me deixei saborear cada traço de seu lindo e desenhado rosto bronzeado. Agora sim pude conhecer o dono daquela gravata que tanto me encantou, tinha nariz reto, lábios sedutores e carnudos, seu rosto é quadrado e o cabelo n***o mesmo que cheio de gel pude perceber que é volumoso e cacheado, com alguns fios brancos em sua charmosa costeleta. Ele não me pareceu nada velho, aparentemente deve ter por volta de uns vinte e cinco ou no máximo trinta anos, acho que será como George Clooney, que começou a ficar grisalho ainda novo. Mas isso é o que o deixa muito mais sexy, e óbvio que não é para o meu bico. — Moça? Você está bem? – Passa a mão em frente ao meu rosto. Acredito que para verificar se realmente estou o enxergando! Ahhh, e como estou!  — Sim, estou muito bem! E eu acho que nem precisamos ir a um hospital. O senhor pode me deixar no ponto de ônibus e eu me viro, em vinte minutos estou em casa. — Bateu a cabeça com força mesmo, né? – Sorriu me mostrando todos aqueles dentes brancos e retos. — Bati sim, mas acho que, fora o g**o que ganhei, está tudo bem. De verdade! – Insisti, porque, embora pudesse passar o resto do dia o admirando, não havia necessidade de ir ao médico! Examinou-me sério, olhou bem de cima a baixo, arqueando uma de suas sobrancelhas. — Ok! Parece que você não vai morrer, acho que realmente está bem! Mas mesmo assim... – mudou seu tom de complacente para autoritário — Nem você ou eu somos médicos então... Hospital! Saiu com cuidado do estacionamento e se dirigiu até a avenida em direção ao hospital, durante todo o trajeto não pronunciou uma palavra, mas de canto de olhos pude notar seu semblante duro, penso que ficou realmente preocupado. Quinze minutos depois ele estacionou o carro em frente ao pronto-socorro, desceu do veículo em disparada até a entrada e parou derrapando na porta, como se estivesse se lembrado de alguma coisa, no caso, de mim. Voltou todo sem graça com um sorriso amarelo, abriu a porta do passageiro, me ajudou a desafivelar o cinto, estendeu-me a mão, desci do carro e me lembrei da minha mochila. — Devagar, encoste aqui no carro que já pego a sua mochila. – Disse ele com cuidado, abrindo a porta traseira. — Obrigada senhor! — Cadê as pessoas desse hospital que não aparecem com uma maca? – Perguntou irritado, olhando para os lados. — Acho que eles estão lá dentro! – Sorri. — Como lá dentro? Mas que descaso! Uma paciente aqui, m*l conseguindo se equilibrar nas pernas e eles lá dentro? Vou fazer uma reclamação agora! — Sério isso gente? Que cara estranho!  — Olha, eu acho que eles não sabem que estou aqui e também não acredito que seja tão grave assim, que eu não possa caminhar até a recepção! – olhei para ele — Isso é mesmo necessário? Eu já estou recuperada. Tirando o g**o que está latejando, não sinto mais nada! Eu juro! — Olha garota, eu não sei! Você levou um tremendo tombo – passa a mão na minha nuca e eu me encolho com o toque — Tem uma bola de beisebol nascendo aqui atrás. Já vi muitos casos parecidos que as pessoas achavam que estava tudo bem e horas depois tiveram convulsões e até morreram. Então, sim! É necessário! Por precaução. Sou advogado e sei o tamanho de uma indenização por omissão de socorro. – Reclamou com cara de bravo. — Ah, entendi! Entendi tudo, o senhor está com medo de que eu morra e depois te processe! Do além? – cruzo os braços — Sério? — Sim! Digo... Não! Quero dizer, sim, estou com medo de que morra! Mas também sei que sua família pode me pedir uma fortuna se eu não te levar lá para dentro e evitar que isso aconteça. — Tudo bem! Vamos logo acabar com o seu medo de ser processado! – Reviro os olhos e torço a boca. Na recepção ele já chegou pedindo que me dessem uma cadeira de rodas e fizessem uma tomografia na cabeça. Eu morri de vergonha, não via a hora de ser atendida e correr para bem longe dali. — Ok senhor! Por favor, o documento de identificação da paciente? – Solicita a recepcionista. — Esta moça está à beira da morte e em vez de colocá-la em uma maca e levá-la para fazer exames, você me pede os documentos dela? – Esbraveja. — Aqui está! – Interrompo o escândalo e entrego meu documento. — Ela já entregou o DO CU MEN TO! Agora cadê o médico? – Bradou o meu herói barraqueiro. — Senhor, precisamos fazer a ficha dela para que seja atendida, agora será enviada ao médico que já vai chamá-la na primeira porta à esquerda, ao final do corredor. Aqui estão os seus crachás... – entregou um para cada – E a guia que deve ser paga na tesouraria no primeiro andar. — Ainda temos que pagar por esse mau atendimento! – resmungou murmurando – Mas em que mundo estamos? Tira sem nenhuma delicadeza a guia da mão da atendente e sai me arrastando pelas mãos, como se fosse meu pai, até a sala de espera indicada na recepção. Sentou-me cuidadosamente na cadeira. — Fique aqui e não saia por nada! Se o médico te chamar, mande ele me esperar! Eu volto em dois minutos, vou lá pagar por essa palhaçada! – Ordenou. Agora estou sem entender. O paciente é ele ou sou eu?  Gente, mas que cara louco e mandão! Além de autoritário é muito grosso com as pessoas, quem ele pensa que é para me fazer passar essa vergonha? E ainda me dar ordens? Ele pode ser o homem mais lindo e elegante do mundo, mas não me conhece e não tem direito de dizer o que eu devo ou não fazer! Senti uma vontade tremenda de xingá-lo, chutar suas bolas e correr pra bem longe deste lugar. Criando coragem de ir embora, entro no corredor em direção à porta de saída, mas foi em vão, a mão enorme do Senhor Estressadinho me puxa! — A sala de exames é para o outro lado! – Indicou o final do corredor com o dedo. — Eu sinto muito, mas estou cansada, irritada e sem nenhuma vontade de ficar neste hospital. Por favor, me deixe ir embora! — NÃO! – Grita fazendo todos voltarem suas atenções para nós. Puxo meu braço com força e fecho a cara pra ele. Aponto meu dedo indicador e esbravejo. — Só por que está me socorrendo – sendo que na verdade o que tem é medo de que minha família o processe se algo me acontecer – não lhe dá o direito de gritar comigo, ainda mais em um lugar que exige silêncio! — Desculpe, desculpe, desculpe! – segura meus dois braços — Hoje não está sendo um bom dia, tudo tem dado errado desde a hora em que sai da cama e eu só quero fazer com que algo termine bem! – Sua voz agora é mansa. — Tudo bem! Eu também madruguei hoje e até agora não tive um minuto de descanso, estou estressada. – Deixo meus ombros penderem de lado. Ele me solta e vai em direção à máquina de café. Eu volto para a sala de espera. — Senhorita Esther! – chamou a enfermeira na porta da sala – Senhorita Esther Reimann Guimarães! Sala um, por favor! Duas horas depois e vários exames incômodos, o médico me liberou com uma receita para dor de cabeça como brinde. Não sofri nenhuma lesão além do lindo e majestoso g**o na cabeça. Saio da sala, o homem bravo está deitado em posição fetal no sofá da sala ao lado, com o celular na mão, acho que pegou no sono de tanto esperar. Ele dormindo é ainda mais lindo, deve ser porque esse é o único jeito dele ficar quieto, acredito. Ainda irritada com ele, não dá pra negar que me causa uma sensação que nunca senti por alguém, me dou ao luxo de observar aquele Deus Grego roncar na minha frente, sabe lá se um dia voltaremos a nos ver. O toque do meu celular me assusta e dou um pulo para trás, puxo o telefone do bolso do meu moletom.   É Álvaro, minha nossa esqueci completamente da hora!   Tinha combinado com ele de assistirmos uns filmes hoje e jogar baralho. — Moleque, onde você está? – Seu ar é de preocupação. Afasto-me um pouco do lindo moreno que ainda estava desmaiado e sussurro. — Eu estou indo pra casa. Mais uns trinta minutos estou chegando! — Por que está sussurrando? – Desconfia. — Eu não estou sussurrando! – Digo em voz baixa. — Agora não está! Mas continua falando baixo. Vem cá, o que está acontecendo? – Está investigativo. — Olha Al, estou indo pra casa, me espere lá. Assim que chegar, te conto tudo! – Peço. — Já estou na sua casa, lindinha! Sua mãe saiu com a Dona Lupe há mais de uma hora e eu continuo aqui te esperando. Quero saber onde você se enfiou! — Olha... érrr... – titubeio – Aconteceu uma coisa e eu já estou bem! Foi só um susto... — O QUE ACONTECEU ESTHER? ONDE VOCÊ ESTÁ? DEIXA DE RODEIOS E ME DIGA AGORA! Tiro o telefone do ouvido e mesmo assim ainda consigo ouvir os berros do outro lado. Fiz uma careta para o visor da tela e mostrei a língua. O que está havendo com todos esses homens hoje?  — Se continuar gritando eu não conto! Eu já estou chegando em casa, então me espere! E por favorzinho, não fala nada pra Dona Lourdes, tá? Ela é um turbilhão de emoções e não quero voltar para o hospital hoje! — HOSPITAL! – Ai meu Deus, que foi que eu falei? – Ok, eu te espero, seu moleque! Mas torço que volte com todas as partes deste corpo, ou vou dar um jeito de sumir com o restante! – Rosnou ele.  — Tudo bem! Estou indo! – Respondi resignada. — Ei, espere! – pediu ele – Eu te amo... Seu moleque! – Sua voz já estava mais suave, para meu alívio. — Eu também te amo. Seu f**o! – Sorrio e desligo. — Seu namorado deve estar uma fera! – assustei ao ouvir o adormecido – Vamos, vou te devolver antes que a polícia venha atrás de mim e eu seja processado por tentativa de homicídio e sequestro! Viro-me e ele está sentado atrás de mim, com os braços sobre as pernas, me olhando com ar de cansaço. — Senhor, obrigada por tudo! Eu estou bem e agora com direito a laudo médico. – balanço o envelope com os exames dentro – Raio-x, tomografia e tudo mais, para afastar qualquer sombra de dúvida ou risco de morte. Então, não se preocupe, eu estou vendo que está muito cansado... Posso ir embora sozinha, já estou perto de casa. — Não posso deixá-la sozinha por Acapulco depois de tudo que aconteceu. Eu sei que não sou a melhor das companhias, mas ainda assim, insisto em te devolver sã e salva em casa. Até por que, seu namorado deve estar muito preocupado. – Levanta-se e veste o terno, depois ajeita a linda gravata. — Não tenho namorado! – Continuo observando seus movimentos. — Bom, seu pai, irmão ou sei lá quem se chame "f**o" está muito bravo contigo. Então não quero que briguem com você. Já teve um dia muito desagradável por minha causa. – Disse abrindo a porta e me dando passagem. Chegamos à porta de casa e eu olhei o visor do celular, p**a m***a, falta vinte minutos para a sete da noite, lá se foi minha tarde de descanso.  — Está preocupada né? Se quiser eu posso explicar pra ele o que aconteceu. – Me pega de surpresa. — Não! Claro que não. O senhor já fez muito mais do que precisava. Eu me viro daqui. Seus olhos grudaram nos meus novamente e uma corrente invisível parecia ligá-lo a mim. — Desculpe-me pelo dia tão desastroso que te causei! Olha só essa camisa, toda manchada de café! – Aponta-me. — Pois é, já tinha esquecido. Sem problemas! Eu também não te causei a melhor tarde da sua vida. — Estamos quites! – Ele sorriu e afrouxou a gravata hipnotizadora. — Muito obrigada por tudo! – Disse em tom de despedida. Ele ri timidamente e eu também, mas meus olhos não conseguiam desgrudar daquela peça que o deixava com ar tão poderoso. Quando na minha vida, eu iria me pegar afetada por um pedaço de tecido? Uma peça que eu nem sequer teria como usar!  Em um gesto que me surpreendeu, ele tira a gravata e estende. — Toma! É sua! – Oferece-me. — O que? O que é isso? Não, não posso ficar com ela! – Recuso. — Não consigo entender o motivo de tanta atração por essa gravata! Claro, ela realmente é muito bonita, inclusive eu trouxe do exterior, olha esses detalhes em prata... – passa a mão sobre os risquinhos, todo vaidoso, e para de falar por um instante – Mesmo assim ainda não consegui entender, mas eu percebi que você gostou muito dela, então aceite-a como uma lembrança de um dia que você teve o desprazer de encontrar com um cara muito desastrado e graças a ele ganhou uma enorme bola na cabeça. Não será uma das melhores lembranças de sua vida, mas fica de recompensa e, quem sabe um dia, encontre alguém que mereça usá-la! Empurrou novamente para mim, e eu segurei aquele tecido delicioso, liso que exalava um cheiro que lembra o vinho. — Eu não sei também, como explicar o porquê e como, mas não posso negar... Ela é linda e eu adorei esses detalhes. Vou guardá-la como uma boa lembrança. Obrigada. – Corei! Tenho certeza que corei. m***a!  — É melhor você ir! E cuide bem da minha, ou melhor, da nossa gravata, hein? Vê se não vai usar com esse moletom... Não tenho nada contra moletom, mas esse tecido realmente não combina com roupa esportiva. – Aconselhou o agora personal stylist! — Pode deixar, vou evitar usar com moletom ou qualquer outra coisa. – percebo o portão de casa abrindo e já sei quem vai sair ali. Enfio meu presente no bolso da calça – Vou cuidar bem dela! Obrigada mais uma vez! Boa noite. – Despeço-me apressada! — Boa noite! – Ele sorri. Quantos dentes cabem nesta boca? Antes de saltar do carro, dou um beijo rápido e tímido no rosto dele e desço sem olhar para trás. Paro de cara com Álvaro, plantado feito um poste na minha frente me olhando sério e desconfiado, eu o encaro e ele olha para o carro. — Quem é? – Pergunta sem desviar o olhar da Land Rover. Viro de volta e o homem que me deu aquela gravata linda, acena com a cabeça e sai com o carro, eu o sigo até que entra na rua à frente e desaparece, acho que não voltaremos a nos ver. Suspiro. — Vamos entrar, segurança. Eu te explico tudo! – Puxo Álvaro pela manga da jaqueta. No chão da sala, sobre o tapete felpudo da minha mãe, devoramos alguns sanduíches e tomamos uma garrafa de refrigerante enquanto ouvíamos Aerosmith e eu contava como foi meu dia "divertido". Ele achou graça de algumas coisas, mas não gostou quando eu disse que o Engravatado Sexy gritou comigo no meio do hospital, ficou bravo por eu não ter ligado para avisar o que aconteceu. Por fim, nos entendemos como sempre fazemos. — E no final, você ficou com o cérebro exposto! – Disse tocando meu g**o. — Ei, tire a mão! Isto dói, cara. – Faço uma careta. — Você precisa tomar mais cuidado e nunca mais entre no carro de um desconhecido. Pior ainda se for um cara agressivo e histérico como este! – Seu cenho franziu, e ele está sério. — Ele não era agressivo. Só um pouco descontrolado. – Defendi. — Não me interessa, você nunca o viu antes, deveria ter me ligado pra te buscar. Isso foi muito irresponsável da sua parte. – Me dá bronca! — Al, eu não tive escolha, também não tive tempo de pensar nisto! E lembrando agora, eu já o tinha visto antes... – Forço a memória. — Como? Quando, onde você o viu? – Surpreso ele pergunta. Eu baixo os olhos e fito meus dedos. — Hoje de manhã, no elevador, um pouco antes de nos encontrarmos no prédio dos Advogados Gonzalez! — Como assim? – Fica curioso. — Bom, eu estava saindo do elevador e trombei com ele na porta. Na hora que caí, me dei conta de que o tinha visto mais cedo, por que reconheci... – acariciei a gravata no bolso da minha calça – Reconheci ele. Não deixo que ele veja o que tenho guardado, já está sendo constrangedor demais para mim. Dispenso ter que dividir minha nova tara por gravatas com meu amigo. — Devo concluir que ele trabalha lá, e pelo carrão que dirigia, não é qualquer funcionário. – Alguém aqui está bem especulativo hoje. — Me disse que é advogado. — Advogado? – me encarou — Como se chama? Ai meu pai do céu, não pode ser! Como é que eu deixo uma pessoa a quem eu sequer fui apresentada me colocar em seu carro e sair por ai, gritando e dando ordens?   Álvaro tem mesmo razão! Sou uma irresponsável de mão cheia.  — Esther! – chamou minha atenção — Como ele se chama? — Você tem razão... Não sei o nome dele! – Confesso envergonhada. — Moleque! Você é a razão de todas as minhas úlceras! – Brinca. — Você não tem úlceras! – Fiz beicinho. — Mas graças a você, terei. E serão muitas! – Beija-me o topo da cabeça.
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