CAPÍTULO DOIS

2852 Palavras
Desliguei o telefone sem me despedir, em algumas horas seria meu aniversário e ele não estaria aqui. Doeu muito, mas doeria mais dizer adeus, meu coração apertou tanto que deve ter ficado do tamanho de uma moeda, e me dei conta de que meus olhos estavam cheios de lágrimas. Meu Deus! Quando foi que comecei a ter essas crises de mulherzinha? Nunca fui de chorar, ainda mais de brigar com Álvaro por saudade... de repente a minha dor começou a virar raiva, fiquei com raiva de mim por sentir essas coisas estranhas que nunca senti antes e também por ser tão egoísta com meu único amigo de verdade, que sempre esteve comigo mesmo agora, a quilômetros de distância, e no momento em que ele precisava do meu apoio e paciência, me comportei feito uma criancinha birrenta. Então foi aí que as lágrimas escorreram, joguei meu telefone na cama e depois me atirei sobre ela enfiando a cara nos travesseiros e me perdi em minhas lágrimas, foi então que "Eyes of the tiger" começou a tocar e, de supetão, levantei da cama e comecei a revirar cobertores, colcha, travesseiros; do meio de todo aquele bolo consegui localizar meu celular que tocava insistentemente a música que coloquei para identificar as ligações do Álvaro. Me tremendo consegui atender à chamada.   — Feliz aniversário, moleque! - Disse uma voz animada. — Al... – As lágrimas entaladas na garganta não me deixaram terminar. — Você está... – fez uma pausa — chorando! – Completou incrédulo. Deixei-me cair no choro, nunca fui capaz de mentir para ele, e então não consegui responder, apenas me permiti chorar feito uma mocinha, afinal, é nisso que inevitavelmente eu estava me tornando! — Oh, minha irmãzinha! Meu moleque, não chora! Você está triste? Achou mesmo que eu me esqueceria do seu aniversário? Achou que eu era capaz? Claro que não! — Me desculpe! É que, é que... eu... – fungando o nariz e sem conseguir controlar o choro – achei que não era mais sua irmãzinha e que você já tivesse me esquecido! Sei que não é sua culpa... – continuei a fungar — Mas desde quando você foi embora e eu fiquei aqui, tudo ficou um enorme vazio e sem graça e eu sinto que você está se distanciando de mim, já não tem mais interesse em saber nada do que acontece comigo... Estou me sentindo uma menininha bobona, chorona, mimada e egoísta, mas eu... – respirei fundo, segurei a respiração por quase um minuto e desatei a chorar – PRECISO DE VOCÊ! — Shhhhhh... Calma, calma. Respire fundo, mocinha. Você é uma das pessoas mais importantes da minha vida e não sabe como me sinto m*l por fazer você se sentir assim! Perdoe-me... – toda aquela voz animada agora foi tomada por um tom triste — Você está certa, acabei deixando algumas coisas de lado por conta dos estudos e do trabalho, não percebi que estava fazendo você se sentir assim. E tem todo o direito de cobrar, de exigir que eu cuide e me preocupe mais com você, como sempre fizemos todos esses anos. Me perdoa, maninha? — Sim, meu irmãozão... Sim! – limpei o nariz na manga da camisa — Obrigada por cuidar de mim todos esses anos e ser o irmão que nunca tive! Perdoe-me também! Estou extremamente envergonhada. — Nunca! — Mas, mas você... — Nunca mais me peça perdão por ser essa coisinha linda da minha vida. – Sorri — E agora, enxugue essas lágrimas, lave esse rostinho lindo e vá dormir, amanhã você terá um dia muito feliz pra comemorar! — Vou? — É seu aniversário, moleque! – Como se eu não soubesse!   — Não vai ter graça sem você! – Fiz um beicinho. — Isso é verdade! E sentiria uma pontinha de ciúmes se me dissesse o contrário! Mas pelo menos tente se divertir um pouco... prometo que te mandarei um presente que vai te deixar muito feliz, mas preciso que me prometa que vai se esforçar para ter um dia divertido. — Eu prometo! – E sou sincera, porque depois de jogar limpo com ele, estou completamente aliviada. — Mesmo? – Duvida. — Ei, que surpresa vai me enviar? É algum jogo novo para o vídeo game? — Estou curiosa também. — Deixa de ser moleque e curiosa. Saberá amanhã, é surpresa! – corta meu barato — Promete? Respondi sem pensar duas vezes. — Prometo! – Reafirmo. — Boa noite, mocinha mais linda da cidade. Feliz aniversário! Ele me chamou de mocinha? Sim! E também disse que sou a mais linda da cidade! Foi a primeira vez que ele me tratou como uma menina. E eu amei! — Obrigada! — Eu te amo! – Sei que ama.   — Eu também te amo! Fiquei mais de duas horas nas mãos da Dona Lupe e sua filha Maria José, elas são as donas do salão de beleza que minha mãe frequenta desde que nos mudamos para o México, realmente são as melhores da região, sem brincadeira, elas conseguem o impossível, sou prova viva, conseguiram esconder todas as indesejadas espinhas da minha testa, me deixaram com uma pele tão lisinha que, por um momento, até acreditei que era de verdade, minhas mãos então... nem comento: deixaram os cascos feito unhas de princesa, mas não deixei que passassem mais que uma base, pra mim, é bem mais que o suficiente. — Está pronta! – Me admira, a Dona Lupe. — Um espetáculo! – Disse Maria José, guardando seus pincéis mágicos. — Eu acho melhor nem me olhar no espelho agora. – respondi desconfiada — Vamos acabar logo com isso, cadê o tal vestido? Mamãe chegou para fazer os retoques finais em mim, tudo tem que ter o toque da Dona Lourdes. — Acho que preciso de um lencinho urgente! Não vou conseguir conter as lágrimas, minha menina, enfim, já é uma mulher! Uma linda mulher! – Como ela é dramática!   Olhamos no enorme espelho e eu vi uma pessoa que nunca havia visto antes, desde que me lembro jamais entrei em um vestido, ainda mais um assim, longo, tão, tão... feminino. Mamãe e suas amigas o fizeram, como essa festa na verdade sempre foi mais dela do que minha, eu não dei palpites, apenas fiz questão de uma coisa: a cor. Não me sentiria bem dentro de nada rosinha, vermelho, essas coisas delicadas. Depois de algumas discussões e outras negociações, ela aceitou a minha escolha e no final, até que ficou lindo. Meu vestido preto era longo, uma saia volumosa com várias camadas de tule, a parte de cima era tomara-que-caia completamente cheia de paetês aplicados que desciam pela cintura e se espalhavam em degrade na saia, chegando em pequenas aplicações pela barra. Realmente algo muito ousado para mim, mas aprovei na hora em que o vi em meu corpo. Meus cabelos compridos foram envolvidos em um elegante e enorme coque no topo da minha cabeça, enfeitado com uma tiara prata em formato de flores. Maria José cuidou de deixar meus olhos cor de mel bem ressaltados, com poderosos cílios postiços, mas pegou leve na sombra, fazendo um esfumado em cor terra e delineador, um pouco de blush rosado e batom cor de boca. Enfim, era hora de vestir as minhas sandálias, a única coisa que escolhi de verdade, e já que era para participar deste circo, optei por usar "A" sandália. Resolvi ir sozinha comprar para não ser tentada a desistir e a escondi até o último momento. Confesso que quando a tirei da caixa na frente de todas aquelas mulheres e minhas 15 damas de honra, bateu certo arrependimento, todas me olharam incrédulas. Fiz-me de alheia e calcei. Precisei de força e coragem para me levantar e encará-las sem me desequilibrar e cair de cara no chão. E entendi tamanho espanto, afinal era uma sandália do modelo Gladiador até a altura dos joelhos, de couro preto, e um salto agulha de pelo menos 12 centímetros. Sim, as vezes gosto de chocar a sociedade. Era meu aniversário, poxa! Tudo foi preparado sem ao menos uma opinião minha, acho que alguma coisa deveria ter a minha cara. Devo adiantar que no final da noite estava arrependida de ter sido tão rebelde e já havia me desfeito dela sem saber onde está, até hoje.   Minha rua foi fechada de ponta a ponta para meu aniversário, os carros dos convidados ficaram estacionados no campinho, um corredor foi feito com panos nas cores roxa, laranja, verde, pink e amarelo, todos colocados como lonas que cobriam a rua e suas caldas desciam até o chão onde eram iluminados por refletores, compondo um efeito muito bonito. Esse caminho que cobria a rua terminava na porta do salão de festas da casa da senhora Margarida Solis, uma espanhola festeira que acabou fazendo um espaço em sua casa para receber amigos e familiares em seus grandiosos festejos. Sob a lona colorida havia diversas mesas espalhadas e cobertas de guloseimas muito bem colocadas, todas as delicias mexicanas estavam ali, doces, salgadas, quentes, geladas, quatro coolers estavam distribuídos por todo o espaço, recheados de bebidas. Dentro do salão havia uma pista de dança, com direito a DJ; as luzes brincavam refletindo nos convidados que já se aqueciam por lá; um bar foi instalado no canto direito da entrada; dois barmen preparavam coquetéis coloridos e enfeitados, alguns com frutas outros com chapeuzinhos, atrás deles, três andares de bebidas destiladas e, em baixo das prateleiras, havia dois freezers cheios de cerveja, refrigerante, água e suco; um mezanino onde estavam as mesas para os convidados arrumadas com vasos de flores e uma taça com quinze pimentas vermelhas dentro, acompanhadas de pequenas porções de molhos e algumas tortilhas. Os convidados começaram a chegar e, em pouco tempo, o salão já estava abarrotado de corpos dançantes sob o jogo de luz, enquanto lá fora outras pessoas se deliciavam com uma infinidade de comida, que certamente alimentaria um país africano inteiro. Como prometido ao Álvaro, tentei me divertir e tornar meu dia feliz, mas embora eu estivesse rodeada de pessoas queridas que estavam ali por mim, me pegava pensando nele e a falta que ele estava fazendo. Tentei ser o mais agradável possível – muito embora esse não fosse um dos meus atributos mais fortes – recebi todos, como manda o figurino, ouvi diversos elogios, percebi alguns olhares de espanto outros, um tanto sedutores; senti até que tiveram uns olhares invejosos, mas eu não me importava, realmente não dava a mínima. O fato é que eu não queria estar ali, não queria estar com aquelas pessoas e daria tudo pra estar comendo uma pizza, assistindo a algum filme de ação com meu amigo em qualquer outro lugar do mundo. Isto me fazia ter um sentimento de culpa enorme, me sentia uma garota mimada e ingrata. Todos estavam unidos como costumavam ser em seus eventos do bairro, mas desta vez, o motivo de toda aquela comoção era eu, cada enfeite, cada prato, cada presente, bebida, música, tudo foi feito para me agradar, e eu só queria que isto acabasse logo e eu pudesse ir pra casa dormir. Minha rua já parecia um formigueiro, os caras do futebol estavam devorando todos os quitutes preparados pela minha mãe. — Ei, moleque! Sua mãe cozinha como ninguém. Deveriam nos convidar pra jantar um dia desses! – Gritou Jaime, um baixinho das pernas tortas que jogava muito m*l, mas sempre estava presente para, pelo menos, completar o time, depois que eu tomei seu lugar na zaga. — Claro que sim! – respondi — No dia de São Nunca, seu morto de fome! – Mostrei elegantemente meu dedo do meio. Esperei pelo telefonema de Álvaro e também pela sua bendita surpresa, mas parece que ele teve um dia muito ocupado; pensei até em ligar, mas quando disquei o número, cancelei a ligação. Sei que ele não se esqueceu de mim, ele disse que não me esqueceria, vai ver teve mais um de seus compromissos urgentes de trabalho e não deu tempo de me ligar. Às vinte e duas horas, começaram os discursos, mamãe foi a primeira, contou toda a minha infância e quase me fez entrar em baixo da mesa de tanta vergonha. Chorou tanto, que sua maquiagem teve que ser refeita para poder sair nas fotos. Meu pai, muito comedido, fez um discurso limpo, simples, mas que me emocionou muito. Senti que ele percebeu que aquele era o último momento que teríamos nós três, como uma família, neste momento, mamãe, que já se debulhava em lágrimas e soluços, foi amparada por Dona Lupe que lhe trouxe um copo de tequila; estranhei que ela virou o copo sem fazer uma careta, mas bem, minha mãe é estranha, então... Após todos fazerem seus discursos, papai pediu que todas as minhas quinze damas e seus cavalheiros – que no caso era o meu time de futebol e mais alguns do time da rua de trás – se posicionassem, pois seria a hora de dançar a valsa, o que me alegrou pois sabia que após pagar esse mico, a festa seria liberada e eu que já havia cumprido todas as formalidades, poderia fugir dali sem ser percebida. Ao som do DJ, meu pai me tirou para dançar e fomos passando de braços dados por baixo de um arco humano, formado pelos braços das damas e de seus acompanhantes, ao chegar na pista, a luz baixou e quando começou a tocar "Iris",do Go Go Dolls, papai me olhou com ternura e me estendeu a mão; o abracei com firmeza e me senti muito feliz por estar com ele naquele momento, então dançamos seguidos pelos quinze casais.   Foi um momento mágico entre nós, eu não conseguia dizer uma palavra, mas ele sabia que eu estava grata por tudo o que fez por mim, por todos os esforços para me fazer feliz, e que mesmo indo embora para outro país, nunca nos abandonaria, nunca deixaríamos de ser quem éramos, ele sabia que eu não o culpava por que o casamento deles chegou ao fim, e que eu o amava muito. Quando a música acabou, o abracei com mais força, não queria sair de seus braços, e chorei copiosamente com o rosto enterrado em seu peito. — Meu amor, minha vida. Você me faz o homem mais realizado e orgulhoso do mundo. Nunca duvide do meu amor por você! – Sua voz saia com dificuldade. — Eu sei papai, eu nunca duvidei. Eu também te amo muito. Vou sentir muitas saudades. — Eu também. Estou indo buscar algo melhor para você. Espero não decepcioná-la! – enxuga minhas lágrimas. — Sempre teremos como nos falar, e você também vai poder me visitar sempre que quiser, vamos deixar para pensar nisso depois, ok? Sua festa ainda não acabou e você tem mais uma dança... Levantei meus olhos sem entender. — Outra pai? Mas combinamos que dançaríamos uma música, sabe que eu morro de vergonha de ser o centro das atenções e já estou me sentindo m*l de ter que... — Por favor, moleque, vai mesmo me deixar plantado aqui igual a um pateta na frente de todo o bairro? – Essa voz...   Meu corpo gelou dos dedos dos pés até o último fio de cabelo, continuei encarando meu pai esperando que ele me dissesse que era apenas coisa da minha cabeça, mas por trás dele vi que todos, em silêncio, olhavam em uma só direção, quando busquei aquela voz, m*l pude crer que atrás de mim estava parado em um elegantíssimo smoking branco com gravata borboleta preta e Alls Star de couro preto, segurando um lindo buquê de cravos vermelhos, com seu cabelo agora lindo e muito bem cuidado, no corte estilo moicano do David Beckham, me olhando com aqueles olhos de safira, antes que desmaiasse achei melhor me jogar em seus braços. — Dança comigo? – Pediu, enquanto me abraçava forte, a ponto de me tirar do chão. — Não sei dançar! — Eu sei disto... eu também não, mas... — Isto só pode ser um sonho! – Continuo incrédula. — Se for um sonho, não vamos acordar agora, certo? Vem, esses cravos são para você e, por favor... – disse ele fazendo reverência — me conceda esta dança senhorita? — Com todo prazer! – coloquei minha mão na sua e ele a segurou com firmeza, dirigi a ele o maior sorriso que pude dar. Era a primeira vez que ele me tratava como uma dama e não um moleque catarrento da vila. As luzes novamente voltaram a baixar e enquanto todos se posicionavam a nossa volta, de fundo começou a tocar "Bed of roses".   — Hum, Bon Jovi! – aprovo — É uma das músicas que você tem no seu celular, não é? — Sim, toca sempre que você me liga! – Responde colando seu rosto ao meu. — Apenas quando eu ligo? – Que papo é este agora, Esther? Chuto-me por dentro.   — Sim! – Ele responde e eu sorrio. Deitei minha cabeça em seu peito e deixei me embalar naquela canção, esperando que este momento nunca mais acabasse. Não poderia estar me sentindo mais feliz, mais completa que neste dia.
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