Murat
Meu pai construiu seu império sozinho, vindo do nada. Por isso, sempre é dele a última palavra em tudo. m*l sabe ele o que estou armando bem debaixo do nariz dele. Não me orgulho disso, mas se eu não o fizer, ele me devora vivo.
Agora ele está aqui no meu quarto, exibindo um sorriso satisfeito no rosto: — Então irá à casa de Hazal hoje? — Irei. — Digo, sem sorrir, enquanto coloco o meu blazer marrom.
Meu pai aperta meu ombro direito. — Ela é uma ótima garota. Você escolheu bem, meu filho. Ainda bem que não evoluiu nada com as outras que apresentei. Hazal realmente é a melhor.
Eu lhe dou um sorriso frio. — Eu sei.
— Sua mãe não me amava quando nos casamos. Eu m*l a conhecia. O amor foi construído ao longo dos anos, pedra sobre pedra. Claro que não é empolgante como uma paixão, mas o que tenho é forte e durável. A paixão é algo fugaz, ela vem rápido e passa.
Solto o ar, ainda tentando me convencer disso. — Bem, vou indo. Já estou atrasado. — Digo, sentindo-me como se fosse a um jantar de negócios.
Desde que Ester se foi, continuo naquele empenho de conversar normalmente, comer, dormir e fazer o que deve ser feito. Como uma máquina sem sentimentos. Nenhuma mulher agitou as coisas aqui dentro. Não sei o que vi naquela ruivinha. Penso nisso enquanto checo se minha carteira está no bolso, minha expressão carrancuda refletindo meus pensamentos.
— No começo será assim, nada excitante, mas aos poucos você a conhecerá e verá que tudo mudará. — Ele solta o ar. — Bem, vou me recolher cedo.
Ergo meus olhos e só então reparo na expressão cansada dele. — O senhor não me parece bem. — Estou com a artrite atacada, isso tem me roubado noites de sono. — Vai ver isso, pai. Não fica tomando remédio por conta. Quer que eu peça para Rose marcar o reumatologista para você? — Eu já marquei para sexta-feira.
Eu aceno e toco o ombro dele. — Ótimo, se cuida. — Vou me cuidar. E lembre-se que quero o teu bem.
Estico os lábios, forçando um sorriso, e saio do quarto. Quando estou passando pela sala, vejo Rose ao telefone. Assim que me avista, ela faz sinal para eu esperar. Eu aceno um não, indicando que estou realmente atrasado.
— Murat. — Ela insiste, tampando o bocal do telefone. — Estou atrasado, Rose. Isso não pode esperar?
Segue então um estranho silêncio, e isso envia um sinal de alerta para minha cabeça.
— Estão me ligando do Hospital São Lucas. Ester sofreu um acidente. Eles entraram em contato conosco através do nosso endereço e telefone que ainda estavam guardados na bolsa dela.
Cerro os punhos, nervoso. Ao mesmo tempo, uma agitação se espalha dentro de mim. Meu coração se aperta em angústia.
— Acidente? Hospital? No São Lucas?
— Sim. — Ela diz, angustiada. — Eles tentaram...
Eu a interrompo:
— Eu irei vê-la! Ligue para Hazal agora e desmarque o jantar, diga que tive um imprevisto. Não fale nada disso para o meu pai. Tudo bem?
Ela acena um sim. — Está certo. Vou dizer para a atendente que você irá vê-la.
Assinto e ela volta a falar ao telefone. Saio de casa agitado, como se uma nuvem n***a me perseguisse. Deus! Sinto um gosto amargo na boca pensando no que pode ter acontecido com ela.
Ester
Quando desperto, a luz que vem de uma janela fere meus olhos. Reparo, de repente, que estou em um quarto completamente estranho. A consciência do meu corpo dolorido me faz rever toda a cena do meu atropelamento.
— Allah'a şükür! — Ouço aquela voz profunda. Eu a reconheceria em qualquer lugar. Não! Por favor, diga que estou imaginando essa voz.
Com o coração agitado, giro minha cabeça na direção dela e prendo a respiração. Então eu o vejo. Murat está sentado ao lado de minha cama. Nossos olhos se encontram. Há um brilho de preocupação nos olhos dele, mas ao mesmo tempo eles são áridos para mim.
— Murat? — Digo com voz débil.
Ele se levanta com a expressão séria: — Vou chamar o médico.
Deus! Quem o chamou? O que ele está fazendo aqui?
Uma senhorinha se aproxima. — Que bom que acordou. O senhor Çelik tem estado muito preocupado com seu estado. — Eu...
Murat entra com o médico, um senhor grisalho de olhos azuis. Ele se aproxima do meu leito e se inclina, examinando meus olhos com uma pequena lanterna de luz intensa. Depois, se afasta e diz:
— Você ficará bem. Com a batida, seu cérebro estava inchado. Por isso tivemos que entubá-la e sedá-la para que ele se recuperasse. Fomos retirando a medicação aos poucos e, depois, os tubos quando ele desinchou. Tudo indica que ficará bem. Faremos todos os exames para nos certificarmos disso. Confirmando sua melhora, é só cuidar de suas costelas, que estão quebradas.
— Costelas?
Por isso o subir e descer da minha respiração dói tanto. Inclusive minha cabeça, que dói horrivelmente.
— Sim, duas costelas quebradas e escoriações pelo corpo. Você ficará mais um dia conosco para fazer exames. Se tudo estiver bem, amanhã à noite terá alta.
Deus! Alta?
Eu me desespero. Para onde vou assim? Não posso voltar para a pensão. Ser um peso para Margot? Eu me apavoro, mas não digo nada. Preciso ligar para minha tia. Deus! Voltar para a casa dela nesse estado será muito penoso.
Vejo Murat se aproximando da minha cama. Posso sentir o cheiro dele daqui onde estou. Divino, maravilhoso. Estremeço. O médico fala algo para ele e sai. Ele então olha para mim. Ele está lindo como sempre, embora pareça abatido. Ficamos nos encarando em um silêncio constrangedor. Ele então dá um passo na minha direção.
— Aluguei um apartamento e contratei uma cuidadora para ficar com você lá. Ela fez enfermagem. Ela te assistirá em tudo que você precisar.
Abro a boca, sem falas diante de suas ações.
— Eu... não... sei o que dizer.
Seus olhos não são compassivos para mim. São duros.
— Não precisa dizer nada. Mesmo porque acho que não tem escolha. Andei te investigando. Está hospedada em uma pensão para mulheres. Tenho certeza de que não vai querer voltar para lá em suas condições.
Ficar sob o domínio desse homem. Deus! Melhor não!
— Eu posso ficar com minha tia. Ela mora em York.
Minhas palavras saem de mim como se fossem um erro, pois Murat ofega, como se eu o tivesse ofendido. Seus lábios se contraem e ele me olha com os olhos mais duros que já presenciei nele. Meus lábios tremem, abalada com seu olhar.
— Essa tia mora onde, posso saber?
Deus! Engulo em seco e digo com relutância: — Em... York.
Murat ri amargo e puxa o ar como se exercitasse a paciência comigo.
— York fica a quatro horas daqui? Quatro horas daqui, e você prefere ligar para sua tia do que aceitar minha ajuda? Você ficará comigo e isso não será algo a ser discutido! Entendeu? Allah! Você deve me querer pelas costas mesmo!
Passo a língua pelos meus lábios ressecados.
— Eu só não quero causar nenhum transtorno. Eu pagarei cada centavo que está gastando comigo.
Murat sorri, um sorriso frio. Então seus olhos brilham, e eu engulo em seco, pois não gostei nada do olhar predador que minhas palavras provocaram nele.
— Ótimo.
Eu continuo rápido: — Posso trabalhar para você de alguma forma. Você descontaria do meu salário.
Ele me estuda e depois sorri, meneando a cabeça, como se minhas palavras fossem absurdas. Então ele olha para mim, como se o valor que eu recebesse fosse irrisório.
Deus! OPai dele.... Não vou pensar nisso agora.
— Não pense nisso agora. Você precisa se recuperar. — Ele diz, como se lesse meus pensamentos.