No dia seguinte, acordei cedo. Isso já havia se tornado uma rotina. Tomei um banho morno em um dos dois banheiros, sempre muito disputados. Vesti uma saia social e uma camisa branca, combinando com sapatos de salto alto. Hoje, teria uma entrevista como recepcionista em uma construtora.
— Bom dia. — Cumprimentei Margot, a dona da pensão.
Ela, como de costume, havia preparado um café da manhã reforçado, mesmo que isso não fizesse parte do contrato. Acredito que seja pela minha magreza.
— Bom dia. Mais uma entrevista de emprego?
— Sim, espero que tudo dê certo. É a primeira entrevista na minha área. Só tem surgido empregos para os quais não tenho experiência.
— Claro que dará, e você está muito bonita. Aliás, você é linda.
— Ah, obrigada. Quero causar boa impressão.
— Olha o que preparei para você.
Ela colocou um prato com ovos mexidos com queijo, café com leite e torradas à minha frente. Sorri, emocionada.
— Nossa! Você me fez um banquete. Obrigada.
Uma garota se aproximou de nós, e eu me calei, pois todas as moradoras da pensão pensam que pago por esse café da manhã especial.
— Coma, antes que esfrie. — Ela disse e se afastou.
Assenti e comecei a comer devagar, saboreando cada pedaço. Seria minha única refeição reforçada do dia, já que depois só haveria o jantar. Meus pensamentos, entretanto, começaram a me levar para longe. Eles sempre voavam para Murat. Ficava me perguntando se ele se deixaria dominar pelo pai ou acabaria cedendo e se casando com Hazal. Raquel não me ligou mais. Melhor assim! Já era difícil esquecer aquele deus turco; imaginar-me acompanhando sua rotina seria ainda mais torturante.
Lavei minha louça e, depois de dar um beijo em Margot, saí para a rua com o endereço que a agência havia me dado em mãos. Comecei a caminhar em direção ao ponto de ônibus que me levaria à área comercial da cidade, quando meu celular tocou. No visor, apareceu o nome da tia Elizabeth.
— Oi, tia.
— Como estão as coisas? Já está trabalhando, meu bem?
Soltei o ar lentamente.
— Sim e não. Eu estava numa casa de família, mas não deu certo. Agora estou indo fazer uma entrevista.
Ouvi seu suspiro do outro lado da linha.
— Você sabe que minha casa está de portas abertas para você.
— Sim, eu sei, tia. Mas voltar para York? Tenho medo de encontrar aqueles homens novamente.
— E se eu falasse com sua mãe? Explicasse a situação, que você foi ameaçada?
Minha mãe? Ela sempre foi distante. Apesar de ser minha mãe biológica, fui criada por empregadas. Além disso, ela sempre teve preferência pelo meu irmão. Muitas vezes, cheguei a acreditar que nós não compartilhávamos o mesmo pai.
— A senhora não irá conseguir nada com ela — respondi, caminhando distraídamente pela calçada.
— Eu posso tentar. Se você pagar esses traficantes, poderia morar comigo e tentar algo aqui mesmo, em York.
Soltei o ar, exausta.
— Tia, não vou pedir nada para ela. Já foi muito humilhante da outra vez. Ela me culpa pela morte do meu irmão. Ela está se lixando para mim.
— Eu irei conversar com ela.
— Está certo, beijos.
Uma maré de tristeza ameaçou me derrubar, mas afastei-a com determinação e cerrei os dentes. O farol de pedestres estava prestes a fechar. Desci da calçada para atravessar a rua, enquanto tentava guardar o celular na bolsa. Foi então que ouvi um barulho horrível de freada. Meus olhos, assustados, se voltaram para um carro preto.
Deus!
Senti o baque e a dor. Tudo voou... Eu voei... E depois, o chão. Mais dor e então a escuridão.
O mundo apagou como uma lâmpada queimada, mas aos poucos uma luz fraca começou a penetrar o negrume. Sensações confusas voltaram antes mesmo de minha visão: dor aguda no lado esquerdo, zumbido incessante nos ouvidos, algo quente escorrendo pela testa.
Aos poucos, sons começaram a tomar forma. Uma voz masculina gritava ordens.
— Ligue para a emergência! Rápido!
Pisquei, os olhos embaçados tentando focar em algo, qualquer coisa. A primeira imagem nítida foi de um homem alto, com feições angulosas, o semblante dominado por uma mistura de desespero e culpa. Ele se abaixou ao meu lado, os dedos tremendo enquanto tentava afastar meu cabelo grudado de sangue da testa.
— Moça, você me ouve? — perguntou com a voz grave, carregada de ansiedade. — Não se mova, a ambulância já está a caminho.
Meu corpo protestou ao menor movimento, e gemi de dor. A lembrança veio como um trovão: o carro preto, o farol fechando, o baque. Meu coração acelerou, e os olhos, arregalados, encontraram os dele.
— Calma, por favor, não tente se mexer. Você vai ficar bem.
Um cheiro forte de borracha queimada e óleo impregnava o ar. Pessoas se amontoavam ao redor, murmurando palavras que não consegui entender. O frio do asfalto sob minha pele contrastava com o calor do sangue escorrendo pela minha têmpora.
— Meu... celular... — consegui murmurar, a voz fraca, quase inaudível.
O homem me encarou como se não tivesse ouvido direito.
— Celular? Não se preocupe com isso agora. Só... fique calma.
Mas eu precisava do celular. Precisava avisar alguém. Não podia desaparecer assim, sem que ninguém soubesse.
Uma mulher de cabelos curtos apareceu em meu campo de visão, ajoelhando-se ao meu lado com uma garrafa de água.
— Eu sou enfermeira. Vamos manter você consciente até a ambulância chegar, está bem? Pode me dizer seu nome?
Meu nome. Deus, por que parecia tão difícil lembrar algo tão simples?
— Ester... — sussurrei, o esforço me deixando ainda mais exausta.
— Ótimo, Ester. Fique comigo, está bem? Você tem alguém que possa avisar?
Minha mente se embaralhou. Tia Elizabeth? Margot? Murat? Pensei no número da minha tia, mas a dor no lado da cabeça nublava qualquer tentativa de formar pensamentos coerentes.
De repente, o homem que parecia ser o motorista se ajoelhou mais perto, sua expressão de agonia evidente.
— Eu sinto muito. Foi tudo culpa minha. Eu não vi você atravessando... Por favor, aguente firme, eu vou assumir toda a responsabilidade.
Tentei dizer algo, mas minha garganta parecia feita de areia. A mulher ao meu lado apertou levemente minha mão.
— Não force, Ester. A ajuda está quase aqui.
Sirenes ao longe se aproximavam. O som cortou o ar, cada vez mais alto, mais próximo, até que a ambulância parou com um ranger estridente. Paramedic@s desceram rapidamente, e de repente tudo virou uma correria ao meu redor. Palavras técnicas eram trocadas, perguntas que eu não conseguia entender, mãos eficientes verificando meus sinais vitais.
Senti meu corpo sendo levantado cuidadosamente, colocado numa maca. Os rostos ao meu redor se tornaram borrões enquanto a consciência começava a me abandonar novamente.
A última coisa que vi antes de tudo apagar foi o rosto do homem, os olhos escuros carregados de culpa, me observando enquanto eu era levada para a ambulância.