Capítulo 20 – Quando tudo começa a se mover

1108 Palavras
**Gabbie** Passaram-se algumas semanas desde que voltamos à escola. O enjoo ainda aparecia de vez em quando, mas agora era mais tolerável. A barriga começava a se desenhar com mais nitidez, principalmente nas manhãs em que eu acordava de bruços e sentia o incômodo imediato. Estava com quase quatro meses agora, e as roupas precisaram mudar — algo que minha mãe adorou fazer parte, me levando pra comprar vestidos soltos e confortáveis. Mas, mais do que o corpo, era o tempo que parecia correr em uma velocidade diferente. Eu estava sentada na cama, com uma das mãos sobre a barriga, passando os dedos de leve, distraída com a leitura de um artigo da escola no celular. Foi então que aconteceu. Uma leve pressão. Um toque suave. Como se algo tivesse empurrado de dentro, pedindo atenção. Meu coração parou por um segundo. Soltei o celular, coloquei as duas mãos ali, tentando ter certeza de que não era só coisa da minha cabeça. Mas aconteceu de novo. Um movimento pequeno, quase imperceptível, mas absolutamente mágico. — Meu Deus… — sussurrei, sorrindo sozinha, as lágrimas começando a escorrer. Na mesma hora, liguei pro Eiden. — Amor… ele se mexeu. Ou ela, né? Mas… o bebê se mexeu! — minha voz tremia de emoção. Do outro lado, ele ficou em silêncio por alguns segundos. Eu quase pude vê-lo sorrindo. — Sério? Você tem certeza? — Tenho. Foi... incrível. Como se ele estivesse tentando dizer: “Oi, eu tô aqui.” — Eu queria estar aí agora. — Vem depois da aula. Por favor. — Já tava no caminho. --- **Eiden** Ver Gabbie tão emocionada, os olhos brilhando de um jeito que eu nunca tinha visto, foi como ver o amor tomando forma física. A barriga agora era real, visível, e a forma como ela a acariciava, instintivamente, me fazia perceber o quanto tudo estava mudando de verdade. Ficamos um tempo deitados, minha mão sobre a barriga dela, tentando sentir também. Não aconteceu de novo naquele momento, mas só o fato de saber que estava ali... já era suficiente. Na escola, a maioria dos colegas já havia se acostumado com a ideia de nós dois esperando um filho. Alguns até perguntavam como ela estava, outros ofereciam ajuda com anotações ou trabalhos. Mas, como sempre, a calmaria nunca durava muito. Naquele dia, chegou um aluno novo na sala: **Miguel**. Alto, cabelo castanho claro, sorriso confiante. O tipo que parece saber que chama atenção, e que não liga de usá-la a favor próprio. Ele foi simpático com todos, mas ao ver Gabbie, pareceu que algo brilhou diferente nos olhos dele. Se sentou exatamente na carteira atrás dela e puxou assunto logo no primeiro intervalo. — Você é Gabbie, né? — perguntou, com um sorriso exageradamente simpático. — Ouvi dizer que você escreve bem. Vai me dar umas dicas? Gabbie, sempre educada, apenas sorriu e respondeu com um aceno tímido. Mas aquilo já foi o suficiente pra que ele criasse um motivo pra se aproximar. Nos dias seguintes, Miguel começou a exagerar. Pegava o mesmo horário de saída que a gente. Tentava sentar do lado dela nas aulas em que eu não podia. E mesmo quando ela era fria, ele insistia. — Você devia sorrir mais. Gravidez fica melhor quando é leve, sabia? — ele chegou a dizer um dia. Fiquei furioso. Mas Gabbie me pediu calma. — Ele só é inconveniente. Não me assusta. Só... irrita. Mas pra mim, era mais que irritante. Era desrespeito. --- **Gabbie** Miguel começou a passar dos limites. Começou com comentários bobos. Depois, passou a me seguir nos corredores. Uma vez, me encurralou na biblioteca, perguntando se o bebê era mesmo do Eiden. — Você parece tão madura… não combina com um cara impulsivo como ele. Aquilo me fez estremecer. Mas eu me mantive firme. — O bebê é nosso. Meu e do Eiden. E você não tem o direito de falar dele assim. — Calma, só estou observando. Às vezes a gente precisa de alguém mais... estável por perto. Naquele dia, fui embora da escola com o estômago revirando. Não de enjoo, mas de raiva. E de medo. Contei tudo pro Eiden. Ele não reagiu com gritos, nem com violência. Mas eu vi nos olhos dele a raiva contida, o fogo calado. — Se ele encostar em você de novo, Gabbie, eu não respondo por mim. — Não quero briga. Não quero confusão. — Eu também não. Mas ele não vai te desrespeitar. --- **Eiden** Decidi procurar a direção da escola. Levei provas: mensagens que ele mandou, prints que Gabbie havia feito de tentativas dele de marcar encontros fora da escola, mesmo ela ignorando. A coordenadora prometeu resolver, chamar os pais, aplicar advertência. Mas eu sabia que isso podia não bastar. Miguel, no entanto, percebeu que algo havia mudado. Passou a me provocar diretamente. — Relaxa, Eiden. Só tô sendo gentil. Não precisa ficar com medo de perder a garota. — Você não faz ideia do que significa estar ao lado dela. Nem tenta entender. — Ah, deve ser difícil mesmo ser pai antes dos vinte. Me afastei antes que algo pior acontecesse. Mas Gabbie... ela começou a se fechar. Passou a andar menos pelos corredores. Evitava ficar sozinha. E foi nesse momento, no meio de tudo isso, que o bebê mexeu de novo. E dessa vez, eu senti. Ela estava deitada no meu colo, na varanda da casa dela, olhando pro céu, quando os olhos dela se arregalaram. — Aí! Você sentiu? — ela pegou minha mão e colocou rápido na barriga. Uma pressão suave. Quase como um toque. E eu senti. — Eu senti. Meu Deus, Gabbie… — minha voz saiu embargada. — Ele… ou ela… respondeu. Ela riu e chorou ao mesmo tempo. E eu entendi naquele instante que nenhuma dificuldade, nenhuma ameaça, nenhum Miguel no mundo conseguiria tirar o que era nosso. O que nos unia era mais forte do que qualquer provocação. --- **Gabbie** Na próxima semana, as coisas se acalmaram um pouco. Miguel foi transferido de sala, depois de mais reclamações. Eiden permaneceu firme, ao meu lado, com uma força que só me fazia amar mais ele. Mas eu sabia que novos desafios viriam. A barriga crescia. A atenção aumentava. As pessoas olhavam com olhos diferentes. Uns com carinho. Outros com julgamento. Mas eu estava aprendendo a não me esconder. Estava aprendendo a ser mãe, e também a ser forte. E naquele fim de tarde, quando Eiden desenhava na minha barriga com os dedos — como se escrevesse poesias invisíveis — eu soube que, apesar de tudo, eu não estava sozinha. E que esse amor, nosso amor, era maior que qualquer medo. ---
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