Zander Pepper
Acabei de passar pela porta do meu apartamento e me recosto sobre a mesma, sentindo meu coração acelerar em meu peito, sei que eu não deveria me sentir assim, mas é algo que não tenho controle, muitas coisas me levam para junto de Arthur, uma vontade enorme de tirar daquele rosto aqueles olhos tristes e que parecem carregar o mundo nas costas, percebi assim que o vi que sua vida não foi fácil e, logo quis ajuda-lo, mas não sabia como, na verdade, ainda não sei, somos ainda como chefe e subordinado, apesar dele dizer que quer ser meu amigo.
Retiro meus sapatos e ando sem pressa ao meu sofá, minha casa é pequena, apenas sala, cozinha, quarto e banheiro, apenas o necessário para um homem que mora sozinho, preferi assim, apesar de que mamãe morar sozinha e iria amar me ter morando com ela, mas preferi ter minha casa, viver independente, apesar de amar demais minha mãe, temos uma ótima relação, então não seria trabalho algum morar com ela, ela me aceita, me respeita e acima de tudo sempre me apoia em tudo e me ama, ela ficou um pouco brava quando resolvi sair de casa, disse que eu a estava abandonando mas no fim, ela compreendeu e me apoiou.
Falar a verdade, ter minha mãe ao meu lado nesse mundo é todo o meu conforto, quando fui me redescobrindo como homem trans foi toda uma luta de autoaceitação, no começo eu morria de medo, me achava estranho, num corpo diferente, chorava por não me enxergar naquele corpo com s***s enormes, e ai que minha mãe teve um papel importante em minha vida, ela me levou ao psicólogo e lá conversamos com a médica, que me orientou e me fez enxergar o verdadeiro eu, o Zander, o homem que existia preso dentro de um corpo com atribuições dadas ao gênero feminino, então consegui minha cirurgia e desde meus 18 anos tomei testosterona e vivo como Zander, a pessoa real que nasci para ser.
Ser homossexual não é e, nunca foi fácil, ainda existe muito preconceito, muitas mortes e o maior medo de minha mãe hoje é perder o filho por causa da violência.
Respiro fundo, enterrando esses pensamentos sombrios e me levanto do sofá, seguindo pelo pequeno corredor entro na porta que me leva ao banheiro, retiro todas as minhas roupas e entro embaixo da água morna, deixo que meus músculos relaxem e saio quando me sinto me limpo, enrolo a toalha na minha cintura e sigo para meu quarto na porta em frente, meu pequeno espaço tem posters espalhados pelas paredes, de algumas bandas que gosto como Coldplay e até mesmo de livros que gosto, visto apenas uma cueca e me deito sobre a cama, me sinto cansado e com fome. Pego meu celular e fico ali na cama vendo meu i********:, até que me aparece um perfil recomendado, me sento na cama e olho aquela foto de perfil, Arthur tem um rosto sério de camisa social azul marinho, ele é muito gato, não posso negar, entro em seu perfil e vejo que não tem muitas fotos, apenas cinco, em nenhuma ela sorrir, todas ele está sério e de roupas sociais. Penso se começo a seguir ele ou não, depois de alguns minutos pensando, finalmente aperto o botão para seguir. Me sinto nervoso e ansioso, desligo o celular e me levanto, indo até a cozinha para preparar algo rápido para que eu possa comer.
Preparo algo e como rapidamente para poder dormir, sigo para o banheiro e escovo meus dentes, por alguns minutos fico ali me olhando no espelho, escarando o homem que me olha de volta, vendo a pequena cicatriz em meu peitoral, penso que toda minha luta vem valendo a pena, mas por alguns segundos vejo aquela criança que um dia eu fui, inseguro, que tinha medo do mundo, na verdade até hoje sinto medo, quem não sente? Num pai onde mais se mata pessoas trans, é claro que vivo com medo, medo de não consegui voltar para casa, medo da rejeição das pessoas. Volto para minha cama e me deito, tenho medo da reação de Arthur quando ele souber, será que ele ainda vai querer ser meu amigo? Será que ele gostaria de mim? Sabendo que sou um homem trans?
São tantos medos que me cercam, mas que nunca me desanimam, já fui rejeitado várias vezes por pessoas que não souberam me compreender, tantas mulheres me chamaram de incompleto, tantos outros homens me traíram com caras que tinham pênis, sinceramente, eu não merecia passar por nada disso, mas infelizmente a vida tem um jeito louco de nos fazer forte.
Não sei nada de Arthur, nem mesmo sei se ele sente algo em relação a mim que não seja profissional ou amizade, querer alguém e não poder ter é um sofrimento que não quero carregar.
Me assusto com a campainha tocando, estava naqueles momentos de quase dormindo, mas ainda sentindo tudo ao meu redor, que me assustei para valer. A campainha volta a tocar, a pessoa do outro lado parece nervosa, levanto as pressas e pego meu roupão o amarrando na cintura em quanto ando em direção a minha porta, destranco e quando abro, um corpo pequeno se choca contra o meu, cabelos loiros que vão até o ombro entram em contato com minhas narinas, ouço o choro sofrido e logo aperto o corpo de Carlinhos contra o meu, esse menino é como se fosse meu irmão mais novo, o tenho debaixo de minhas asas, com vinte e dois anos é inteligente pra caramba, conseguiu entrar com honras na faculdade de engenharia, seus olhos castanhos quase mel me deixa em seus dedos mindinhos e faço tudo o que ele me pede num piscar de olhos.
O trago para dentro enquanto faço um carinho em suas costas tentando o acalentar, fecho a porta de casa e sigo para o sofá sentando-me com ele em meu colo. Deixo que coloque tudo para fora. Quando seu choro se acalma, o faço sentar ao meu lado e seus olhos brilhantes e vermelhos estão nos meus.
- Vai me contar o que aconteceu? – Ele suspira, noto agora como sua roupa está amassada, ele teve pressa em vesti-la e saiu correndo seja lá de onde foi.
- Briguei com Diogo. – Ele diz simples. Eu deixo um longo suspiro sair.
- Qual o motivo dessa vez?
- Aquele i****a estragou nossa noite. Fui ao apartamento dele, preparei um jantar maravilhoso, fiquei cheiroso e gostoso, estava pronto para dá para ele, queria seguir para o próximo passo, poxa, namoramos desde meus dezoito anos, ele nunca tocou em mim com segundas intenções, claro que eu nunca reclamai até porque não me sentia preparado, você sabe disso. – Balanço a cabeça em concordância. – Namoramos a mais de quatro anos, nunca passamos de mão bobas e alguns boquetes, eu pensei que ele me queria, mas ele apenas me parou, ele disse que não queria isso quando eu estava pelado na frente dele. Ele não me ama, então por que está comigo por todos esses anos? O que ele quer de mim? – Seu choro volta intenso. O abraço de lado. Tentando passar conforto.
- E você só vestiu suas roupas e saiu correndo? Não conversou com ele? – Nesse momento um toque alto soa na sala, ele pega o aparelho do bolso de trás da calça e apenas desliga o jogando no sofá.
- Não quero falar com ele.
- Mas você tem que escutar o que ele tem a dizer.
- Não quero.
- Paulo!
- Não! Ele me rejeitou, não me quis, então por que eu tenho que escutar ele? – Pergunta alterado se levantando do sofá e andando em círculos pela sala.
- Porque em um relacionamento, precisa se ter conversa.
- Já conversamos demais durante quatro anos! - Fala com deboche. Reviro meus olhos, me levanto e o seguro pelos braços, o fazendo parar.
- Você o ama! – Seus olhos se enchem de lágrimas.
- Nem tudo tem que ser como você deseja, tente levar os sentimentos dele em consideração também. Ele deve estar preocupado. E ele deve ter uma explicação. – Assim que acabo de falar, meu celular toca em meu quarto, deixo um beijo em sua testa e sigo atrás do aparelho que toca alto, chegando em meu quarto eu atendo, vendo o nome de Diogo na tela.
- Diogo.
- Oi, Zander, desculpe te ligar a essa hora, mas Paulo foi para sua casa? – Noto sua voz cansada e cheia de preocupação.
- Sim, ele está aqui, chegou chorando. – Ele suspira ruidosamente.
- O que faço com ele? – Escuto sua voz embargada.
- Só tenha paciência, ele vai voltar. – O silencio pesa por alguns segundos. – Quer falar o que houve?
- Eu só tive um dia de merda no trabalho. Cheguei em casa e estava tudo maravilhoso, mas não queria que a primeira vez dele acontecesse assim, eu estava coma cabeça cheia, mas estava planejando a alguns dias tirar férias e viajar com ele para temos algo legar, mas ele saiu correndo e nem mesmo tive tempo de ter uma reação.
- Entendo, olha, vou acalmar ele, amanhã vocês conversam com calmo e se resolvem, essa noite ele vai dormir comigo, então não se preocupe, relaxe e coloque a cabeça no lugar.
- Obrigado, Zander, boa noite, cuide bem dele por mim.
- Claro.
Ele desliga a chamada e passo alguns minutos ali em pé. Passo a mão em meus cabelos e sigo de volta para a sala, onde Carlos está deitado no sofá olhando para um ponto específico no meio da parede.
- Diogo que ligou, ele perguntou por você.
- Hum. – Me sento no sofá colocando sua cabeça em meu colo e faço carinho em seus cabelos loiros.
- Vai ouvi-lo? – Pergunto baixinho.
- Amanhã, talvez.
- Ok. Tá com fome?
- Um pouco.
Me levanto e mando vestir algo mais confortável em meu guarda-roupas, para que ele pudesse dormir. Preparo um chá de camomila e alguns biscoitos, volto para a sala e ele coloca um filme qualquer na Netflix, assistimos enquanto comemos. Até que ele volta a falar.
- Como está indo seu trabalho? – Ele parece mais calmo.
- Bem, meu “chefe” é legal.
- Ele é bonito? – Sua voz parece animada, eu sorrio.
- Sim, muito bonito. – Penso nos olhos azuis de Arthur, ele com toda certeza é muito bonito. Paulinho me olha desconfiado.
- O olhar que você deu...você está gostando dele? É isso? – Ele pergunta com entusiasmo. Apenas reviro os olhos para ele e volto a prestar atenção no filme. Paulo dormiu comigo em minha cama, foi uma noite legar regada de conversas baixas e fofocas, estávamos precisando disso, depois que comecei o trabalho ficou mais difícil de ver ele por causa de sua faculdade.
Acordamos cedo e preparei um café para mim e Paulinho, já que ele ia seguir direto para a faculdade.
Nos despedimos em frente a portaria, já que ele ia de carro e eu de ônibus, ele até me ofereceu carona, mas neguei, porque ele iria dar uma volta na cidade para poder me deixar no hospital.
- Se cuida e fala com o Diogo, ok?
- Sim, mamãe. – Ele rir.
- Ótimo, obedeça a mamãe aqui e tudo dará certo. – Agora é ele que revira os olhos.
- E você, invista no médico gato, ele é lindo demais para você não o atacar. – Ele já ia entrando dentro do carro. O paro.
- Como você sabe que ele é lindo? Nem mesmo o viu. – Falo confuso.
- Eu vi no seu Search do i********:, Arthur, estava lá. – Ele dá um sorriso sapeca e entra no carro dando partida.
- Moleque malandro! – Balanço a cabeça em negação e sigo até o ponto de ônibus.
Não demora mais que uns quarenta minutos e estou dentro do hospital, troco minhas roupas e sigo até a sala de Arthur.
- Oi. – Cumprimento a moça que é a recepcionista.
- Oi, o doutor Arthur disse que hoje você o auxiliaria com as consultas, são muitas marcadas para hoje, será um dia corrido, pode entrar que ele chegou.
- Obrigado. – Falo e sigo para a porta de sua sala, deixo suas batidas e ele me manda entrar. Quando abro a porta tenho certeza de que estou no céu, Arthur está vestindo uma camisa branca, mas ainda tive tempo de ver sua linda barriga, que visão, meu bom senhor, sinto todo meu corpo esquentar e me sinto molhado, p***a, estou a muito tempo sem sexo.
- Desculpe te receber assim, cheguei a poucos minutos. – Saio dos pensamentos nada castos em minha mente e o cumprimento com um sorriso.
- Sem problemas.
- Vamos começar? Hoje será um daqueles dias.
Entendo o que ele quis dizer, não é nem mesmo hora do almoço e já me sinto no pó, são muitas consultas, e em cada, uma pessoa com um temperamento para lidar, mas lógico que a provação maior foi passar a maior parte do tempo presenciando Arthur em seu modo doutor, ele é sexy para um c*****o!
Estou perdido, rendido aos encantos desse homem.