08

2347 Palavras
Dulce Acordei na manhã seguinte com o barulho da minha campainha. Sentei na beirada da cama e uma tontura me invadiu. Respirei fundo algumas vezes e depois de me sentir um pouco melhor, eu levantei e fui atender a porta.  Eu abri e dei de cara com Christopher, que estava com um semblante bem sério. Não falei nada e apenas dei as costas para ele, indo em direção ao sofá para me sentar antes que começasse a me sentir m*l de novo. Ele fechou a porta e ficou em pé olhando para mim.  — Perdeu a cópia da sua chave na v****a da garota de ontem? — soltei.  — Por que você está brava? — franziu a testa. — Você disse que eu podia t*****r com quem eu quisesse.  — Eu sei o que eu disse.  — E então?  — Mas ontem eu queria você.  — Você me quer todos os dias. — repeti aquela frase na minha cabeça algumas vezes.  — É... todos os dias... — indaguei mais para mim mesma, me perguntando se aquilo não tinha um significado maior. — Você poderia não ter feito tanto barulho.  — Ciúmes? — riu e sentou ao meu lado.  — Não sei... talvez... — a minha minha linha de raciocínio não estava muito legal naquele momento.  — Que? — pareceu surpreso. — Você está bem? Está pálida! — tentou tocar a minha testa, mas eu me afastei.  — Estou bem. — fiquei de pé e comecei a caminhar até a cozinha, sendo seguida por ele.  — Uou! — ele exclamou olhando em volta. — Comeu todos os doces do mundo ontem? Quanta embalagem!  — Não fique surpreso. — virei de costas para ele e comecei a encher uma xícara de café.  — Eu vim pra dizer bom dia. — suas mãos foram até a minha cintura e eu senti ele unir o seu corpo ao meu. — Vamos esquecer a discussão de ontem, ok? — colocou meu cabelo para o lado e começou a beijar o meu pescoço.  — A transa de ontem te deixou menos irritado comigo? — perguntei.  — É, você tinha razão, eu precisava sair com outras pessoas. — riu de leve. — Agora a gente pode balancear isso o que temos sem nenhum tipo de estresse ou cobranças. — ele me pressionou contra ele, de modo que eu senti a sua ereção.  — Christopher... — sussurrei apoiando minhas mãos na mesa.  — Hum? — murmurou sem parar de beijar o meu pescoço.  — Para... — sussurrei novamente, mas pareceu que ele não me ouviu. — Para! — falei com mais firmeza e ele parou.  — O que foi?  — Eu não quero. — peguei a xícara de café e sentei ao balcão.  — Sério? — arqueou a sobrancelha. — Você está irritada? É isso?  — Não, eu só...  — Caramba, Dulce! — me interrompeu. — Eu gosto de você mais do que eu deveria e sei que isso não me faz bem. Eu não quero deixar de tocar você, mas eu não quero ser dependente disso! Você não pode me mandar ficar com outras pessoas e depois agir como se isso te incomodasse!  — Christopher... — comecei a ficar tonta de novo.  — Você repete tantas vezes que não é minha, pois eu também não sou seu!  Ele se calou e ficou me olhando como se esperasse uma resposta, mas eu era incapaz de formular palavras. Tudo estava girando e uma sensação horrível subiu na minha garganta. Foi então que eu vomitei no chão da cozinha, enquanto ele me olhava assustado.  Terminei de vomitar e limpei minha boca com uma das mãos. Parece que eu não havia vomitado tudo na noite anterior.  — p**a merda... — Christopher resmungou. — Dulce, você...  — Eu... eu vou... — me desequilibrei no banco, mas ele me segurou, me pegou no colo e me levou até a sala, me deitando no sofá. — Você comeu besteiras demais ontem à noite e agora está passando m*l! — ele disse em tom de sermão. — Vou pegar um pouco de água.  Ele voltou com o copo de água e eu bebi um pouco, depois ele pediu que eu não levantasse enquanto ele limpava o chão da cozinha. Quando ele retornou, eu já estava sentada, não sentia mais vontade de vomitar e nem tontura, apenas sentia meu corpo sem nenhuma energia.  — Quer ir ao hospital? — perguntou acariciando meu cabelo.  O encarei por alguns segundos. Seu olhar era preocupado e nervoso, Christopher sempre me olhava de um jeito que ninguém mais fazia ou fez. Eu odiava estar preocupando ele por algo que eu mesma havia causado. Aquilo não era motivo para alarde, essas coisas aconteciam e sempre passavam com o tempo.  — Me desculpa. — eu disse sentindo meus olhos se encherem de lágrimas.  — Por que? — franziu a testa.  — Você sempre cuida tanto de mim e eu nunca entendi o porquê de você sentir essa necessidade.  — É porque eu te amo.  — Por que você me ama? Eu não sou o tipo de pessoa que os outros amam!  — Para mim, você é. — fechei meus olhos quando ele tocou meu rosto e uma lágrima solitária rolou por minha bochecha. — Posso fazer uma pergunta?  — Sim. — o encarei.  — O que a sua família fez com você?  Ouvir aquela pergunta me levou ao passado e foi impossível não me abalar. Ao invés de responder, eu levei minhas mãos até a cabeça e comecei a chorar compulsivamente. No primeiro momento, Christopher pareceu assustado, mas depois apenas me puxou para um abraço e me apertou contra o seu peito enquanto eu soluçava como um bebê.  — Se não quiser falar, tudo bem. — ele disse quando meu choro diminuiu.  — Não... Eu quero... — falei me afastando. Enxuguei meu rosto e respirei fundo. — Eu cresci achando que a única forma de alguém conseguir me amar era me controlando. Eu nunca fui uma criança livre ou bem cuidada. Eles não se preocupavam comigo, não do jeito que você se preocupa. Eu passei a minha infância achando que aquilo era normal... — minha voz embargou. — Que aquilo era amor. Eles me batiam muito, me deixavam com fome, com sede... — fiz uma pausa quando senti o choro travar em minha garganta. — À medida que eu fui crescendo, eles foram parando com a agressividade física, mas ainda gritavam comigo, me tratavam muito mal...  — Com quem você vivia?  — Minha mãe, minha avó e meu tio. Eu nunca me questionei o porquê de me odiarem tanto porque eu achava que eles me amavam.  — O que aconteceu depois da sua infância?  — Eu não queria mais aquilo, eu me sentia uma prisioneira e comecei a perceber que os meus colegas de escola não eram tratados assim. Eu queria que a minha mãe fosse como as outras mães. Então eu exigi respeito e... — parei de falar. — E...?  — Eu... — comecei a chorar de novo. — Foi muito pior... — ele me abraçou de novo. — Desculpa, eu não quero falar mais, não quero lembrar, não quero!  — Não precisa dizer mais nada, você está bem agora, está aqui comigo e está protegida.  — Desculpa... desculpa... desculpa...  — Pare de se desculpar. — pediu. — Eu sempre afastei todos porque eu achava que as pessoas só conseguiriam me amar daquela forma sombria! Eu nunca conheci ninguém que me tratasse tão bem e me protegesse tanto assim. — ergui meu rosto para olhá-lo. — É a primeira vez que alguém cuida de mim sem que isso pareça uma obrigação. Você... você gosta de me fazer bem.  — Porque eu te amo de verdade. — os olhos dele brilharam ao dizer aquilo. — E não é porque eles eram a sua família que eles te amassem.  — Eu sempre me neguei a admitir isso, mas é verdade. — Eu sou a sua família agora, Dulce. — falou com firmeza.  Levantei meu olhar até o dele e nós nos encaramos por muito tempo, mas não de uma forma desconfortável. Eu nunca parei para pensar de verdade na forma como Christopher me amava. Minha lista de relações abusivas era um trauma que não me deixava analisar possíveis amores. Sempre achei que qualquer homem que me amasse iria tentar me fazer de marionete.  Christopher não era assim. Ele respeitava a minha necessidade de liberdade e nunca me exigiu nada, apesar de suas pequenas pontadas de ciúmes vez ou outra. Acho que amar alguém de verdade era isso. Aceitar que a pessoa não seja sua, contanto que ela esteja bem com isso. Mesmo não tendo muita experiência em controlar os meus impulsos, agora eu tentaria por ele. — Desculpa.  — Por Deus, pare de pedir desculpas, você não fez nada errado. — sorriu com carinho.  — Eu fiz. Eu prometo não dar em cima de ninguém na sua frente e não vou mais ser fria com você. — ele arqueou as sobrancelhas em surpresa. — Mas não espere que eu corresponda ao seu romantismo, eu te amo, isso é um fato. Mas eu sou um espírito livre, ainda não estou pronta para um amor eterno. — apoiei minha mão em seu rosto. — Se isso for demais para você, pode dizer e nós paramos de t*****r.  — Desde o início você deixou claro como as coisas seriam e eu sempre aceitei isso. Não vou desistir agora.  — Que bom que decidiu sair com outras mulheres. — o fato de ele ter me trocado por outra me incomodava, mas assim como eu, Christopher era livre. — Pretende sair com a garota de ontem?  — Não, eu nem lembro o nome dela! — riu e eu ri junto. — Foi só sexo casual. — deu de ombros. Eu assenti e nós ficamos em silêncio, ainda nos encarando. — E o Thomas? — desviou o olhar.  — Saiu correndo porque a mamãezinha chamou. — revirei os olhos. — Ele já sacou a minha jogada e está se aproveitando de mim. — ele abriu a boca para dizer algo, mas eu fui mais rápida. — Eu sei, você avisou.  — Não era isso o que eu ia dizer.  — E o que era?  — Pare de tentar com o Thomas. Não digo isso por estar com ciúmes, eu só estou te dando um conselho como amigo. Você é muito talentosa e sabe disso. Não precisa ceder aos caprichos desse mauricinho pra poder subir na vida. Faça o teste para a Victoria Secrets e eu tenho certeza que eles vão adorar você.  — Você já viu aquelas modelos? Elas são bem mais altas, mais magras...  — Que besteira! Você sempre acreditou em si mesma. Cadê a Dulce Maria que se diz a mulher mais bonita que esse país já viu? — Eu digo muitas coisas. — dei de ombros e baixei o olhar.  — Ei... — ergueu meu queixo. — O que está acontecendo com você? Cadê a sua autoconfiança?  — Eu nunca a tive de verdade. — meus olhos voltaram a ficar úmidos. — Eu sempre reafirmei pra todo mundo o quanto eu me acho linda porque eu queria parecer poderosa, forte, decidida e acima de tudo, eu achei que se repetisse sempre que eu era a melhor, eu iria acabar acreditando nisso!  — Você não precisa se sentir a melhor pra se sentir bem. Essa coisa de se achar superior não é bom, mas você também não pode se rebaixar. Ninguém é pior ou melhor que você. — Ok, pastor. — ri sarcasticamente e fiquei de pé. — Droga, eu detesto falar sobre sentimentos!  — É, eu sei que você detesta. — ficou sério. — Não se sente melhor descarregando todo esse peso?  — Me sinto melhor ignorando tudo isso. Eu cuido de mim, eu faço o possível pra estar impecável e pra conseguir subir na minha carreira. — Se usar o sexo para ser uma Angel, não estará lá por mérito próprio. — falou com dureza. — Não vai ser a sua beleza ou o seu talento que te darão aquele espaço. Você vai ser só uma v***a aproveitadora. — dava para ver que ele estava bravo.  Não consegui responder nada. Ele nunca falou assim comigo. Seus sermões eram sempre regados de muita cautela e carinho. Esse sermão havia sido cravado como uma faca, por alguém que estava com raiva o suficiente para ser o mais sincero possível. Sempre gostei que ele me chamasse por nomes chulos, mas apenas na cama, me enchendo de prazer.  — Eu... vou escovar os meus dentes. — foi a única coisa que consegui dizer. — Minha boca ainda está com gosto de vômito.  Saí da sala e fui direto para o banheiro. Enquanto escovava os meus dentes, senti uma dor no estômago, como uma queimação desconfortável. Aquilo já vinha acontecendo a alguns dias e eu sabia que eram os efeitos das minhas práticas de emagrecimento. O que eu fazia para aliviar era tomar muita água.  Quando voltei para a sala, fiquei surpresa por Christopher ainda estar ali. Do jeito que pareceu bravo comigo, imaginei que levantaria e iria embora sem dizer nada. Mas não, ele não foi.  Passei por ele indo direto para a cozinha e tomei um copo de água gelada, depois retornei para a sala, liguei a televisão e sentei ao seu lado, nem tão perto, nem tão longe, em um completo silêncio.  Eu o observava de relance, parecendo atento ao desenho animado que passava todas as manhãs. Eu sabia que ele tinha ficado porque queria ter certeza que eu já estava bem. Sorri de canto pensando na sorte que eu tive de encontrar alguém tão pacífico e acolhedor no meio de todo o caos que sempre foi a minha vida.  Ele desviou o olhar na minha direção e sorriu de leve. Como que por instinto, eu me vi avançando sobre ele, sentando em seu colo e colando nossas bocas enquanto segurava seu rosto com minhas duas mãos. A atração entre nós parecia ser algo que jamais pudesse ser quebrado por nada e nem ninguém.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR