Um dia ao amanhecer, ainda nas laudes, saindo de uma caverna, sua habitação austera e costumeira durante dez anos, Zaratustra, afastando-se do antro, sentou-se numa pedra e lá, prostrou-se.
Alguns dias depois, com seu jejum e cansaço, notou uma sombra pairando ao redor e sobre ele. Um magnífico ser voante pousou à sua frente e ao fitá-lo durante algumas horas, eis que perguntou:
- O que vossa majestosa ave faz diante de mim?
A águia respondeu:
- Vim lhe dar um pouco de sombra.
- Por quê? Esperando o meu fim?
- Poderia dar-lhe um fim, mas ele não está para mim, seu sofrimento e dúvidas vão se
encarregar disso...
- Mas você no chão, está vulnerável! - replicou.
A grande ave, abrindo suas asas, com quase 2 metros de envergadura, respondeu:
- Poderia, se não o tivesse observado durante esses dias; está tão fraco que eu poderia com um único golpe arrancar-lhe os olhos.
- E por que assim não o faz?
- Porque você não está vivo, não é digno do meu esforço.
Depois de um breve colóquio, a nobre ave então, alçou voo, levantando uma poeira de fechar os olhos.
Dias depois, já exausto, o eremita viu uma serpente passando perto dele e antes que se fosse completamente, perguntou:
- Não vai me atacar, excelência rastejante?
A serpente parou, levantou seu longo corpo e respondeu:
- Atacar quem já é morto não é digno de honra!
Então, ele retrucou:
Por que diz isso?
- Você pensa como um morto, age como tal, logo, está morto!
- Como faço então, para viver?
- A nobre águia não lhe disse? Só passei por aqui porque observo sua fraqueza e dúvidas há anos.
Continuando, a serpente falou com aquela voz estridente e profundamente rouca:
- Levante-se e viva sua vida espalhando o que você tem de melhor, ajude seus pares a respeitar a natureza e serem dignos dela. O perdão incita a repetição do erro, errar a primeira vez já é motivo de correção.
Então Zaratustra perguntou:
- Não devemos perdoar?
Neste instante, uma sombra pairou novamente e a águia eminente pousou ao lado da serpente num mudo armistício de soberanos. Após um momento de reflexão, responderam juntas:
- O perdão é um vício; ensine a razão e como antecipar os desejos mundanos, analisando o resultado dos seus atos, se serão positivos e assim realizá-los. Procure e ensine meios para a prosperidade, de um pouco se fazer muito, através do bom trabalho, e mostre que a colheita é o resultado e não um meio. A simplicidade, o desejo do bem comum, a astúcia mental e o orgulho da conquista interior são caminhos para fins positivos.
A águia voou para os picos mais altos do Cáucaso, a serpente seguiu para as margens distantes dos rios e Zaratustra moveu-se. Sentiu aquela rigorosa tensão no corpo, que mais parecia rigor mortis... Naquele instante entendeu porque foi dado como morto, sair da inércia é voltar a nascer. Desceu para o mundo, espalhando o bem com astúcia e o orgulho de ser mais do que parecia, procurando o bem e evitando os erros.
Adotou a Águia e a Serpente como seus símbolos, afastou-se das montanhas e cavernas para disseminar suas teorias filosóficas àqueles que não as conhecia.
Conviveu com os humanos tentando mostrar que a humildade e a subserviência eram disfarces traiçoeiros e corruptos de Arimã, entidade perversa e malévola, por isso não seria o melhor caminho. Mas a dignidade e o orgulho são elementos de superação, prosperidade e consequentemente uma das estradas para o alto, atingindo o tênue êxtase do encontro com o venerável deus Mazda, supremo ente do bem.