Prazer, Zaratustra

606 Palavras
Um dia ao amanhecer, ainda nas laudes, saindo de uma caverna, sua habitação austera e costumeira durante dez anos, Zaratustra, afastando-se do antro, sentou-se numa pedra e lá, prostrou-se. Alguns dias depois, com seu jejum e cansaço, notou uma sombra pairando ao redor e sobre ele. Um magnífico ser voante pousou à sua frente e ao fitá-lo durante algumas horas, eis que perguntou: - O que vossa majestosa ave faz diante de mim? A águia respondeu: - Vim lhe dar um pouco de sombra. - Por quê? Esperando o meu fim? - Poderia dar-lhe um fim, mas ele não está para mim, seu sofrimento e dúvidas vão se encarregar disso... - Mas você no chão, está vulnerável! - replicou. A grande ave, abrindo suas asas, com quase 2 metros de envergadura, respondeu: - Poderia, se não o tivesse observado durante esses dias; está tão fraco que eu poderia com um único golpe arrancar-lhe os olhos. - E por que assim não o faz? - Porque você não está vivo, não é digno do meu esforço. Depois de um breve colóquio, a nobre ave então, alçou voo, levantando uma poeira de fechar os olhos. Dias depois, já exausto, o eremita viu uma serpente passando perto dele e antes que se fosse completamente, perguntou: - Não vai me atacar, excelência rastejante? A serpente parou, levantou seu longo corpo e respondeu: - Atacar quem já é morto não é digno de honra! Então, ele retrucou: Por que diz isso? - Você pensa como um morto, age como tal, logo, está morto! - Como faço então, para viver? - A nobre águia não lhe disse? Só passei por aqui porque observo sua fraqueza e dúvidas há anos. Continuando, a serpente falou com aquela voz estridente e profundamente rouca: - Levante-se e viva sua vida espalhando o que você tem de melhor, ajude seus pares a respeitar a natureza e serem dignos dela. O perdão incita a repetição do erro, errar a primeira vez já é motivo de correção. Então Zaratustra perguntou: - Não devemos perdoar? Neste instante, uma sombra pairou novamente e a águia eminente pousou ao lado da serpente num mudo armistício de soberanos. Após um momento de reflexão, responderam juntas: - O perdão é um vício; ensine a razão e como antecipar os desejos mundanos, analisando o resultado dos seus atos, se serão positivos e assim realizá-los. Procure e ensine meios para a prosperidade, de um pouco se fazer muito, através do bom trabalho, e mostre que a colheita é o resultado e não um meio. A simplicidade, o desejo do bem comum, a astúcia mental e o orgulho da conquista interior são caminhos para fins positivos. A águia voou para os picos mais altos do Cáucaso, a serpente seguiu para as margens distantes dos rios e Zaratustra moveu-se. Sentiu aquela rigorosa tensão no corpo, que mais parecia rigor mortis... Naquele instante entendeu porque foi dado como morto, sair da inércia é voltar a nascer. Desceu para o mundo, espalhando o bem com astúcia e o orgulho de ser mais do que parecia, procurando o bem e evitando os erros. Adotou a Águia e a Serpente como seus símbolos, afastou-se das montanhas e cavernas para disseminar suas teorias filosóficas àqueles que não as conhecia. Conviveu com os humanos tentando mostrar que a humildade e a subserviência eram disfarces traiçoeiros e corruptos de Arimã, entidade perversa e malévola, por isso não seria o melhor caminho. Mas a dignidade e o orgulho são elementos de superação, prosperidade e consequentemente uma das estradas para o alto, atingindo o tênue êxtase do encontro com o venerável deus Mazda, supremo ente do bem.
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