Até quando?

527 Palavras
Penteando a cabeleira n***a, estirada, longa, veste a blusa amarela, a calça azul e calçando os sapatos marrons, busca a bolsa de correia no guarda-roupa ao lado da cama. Prende-a ao ombro e sorri, gracejando: - Estou pronta pra batalha. Abre a porta do quarto, cruza o corredor e chega à salinha, onde a velha mãe está no sofá, à frente da TV, que exibe a novela das vinte horas. - Tchau, mãe. Esta então se volta: - Mas, vai sair de novo, Gracinha? - Ora mãe... Trabalho o dia inteiro naquela fábrica e tenho de me distrair um pouco... A seguir, abrindo a porta da sala, completa: - Sou novinha ainda! Passa. Fecha a porta por fora e, em passos resolutos vence a área entre a residência e o muro e, abrindo o portãozinho, ganha a rua. A noite a acolhe com as vozes nas residências laterais, o choro de uma criança, os latidos de um cão: sons característicos, conhecidos e, com indiferença, a jovem desce a rua. Embaixo, na rua transversal, passam veículos e pedestres às calçadas, no movimento natural do morro. Caminha. Sendo alta, esguia, graciosa, desperta a atenção, principalmente dos homens às esquinas. - Essa menina é demais! - Parece uma artista. - Pena morar numa favela... Ela distancia-se. Resoluta. O coração aos pulos, ao impulso do desejo que lateja no sangue, tornando-a escrava do que mais uma vez praticará! Dobra a esquina e ante o ônibus que se avizinha, voltando-se, ergue o braço longo e com a mão espalmada, acena-lhe. O coletivo estaciona. A porta se abre e Gracinha adentra. - Boa noite. - Boa noite. Responde o motorista, perplexo com a imagem que bem representa a beleza da mulher brasileira. A moça sorri, entendendo-o, e ocupa a cadeira com a janelinha, pela qual observa o que agora vai ficando para trás. Residências conjugadas, gente se movendo para lá e para cá. A inclinação do morro com as moradias conjugadas, as escadarias... Um mundo conhecido, visto com interesse pelo que apresenta. Aí o celular toca. Retirando-o da bolsa, atende ao chamado. - Sim, Pedro. Certo, tou a caminho, chego já. Tchau! O Pedro, recém “paquera”, com o qual marcou o segundo encontro, em Boa Viagem, para o jantar, depois o motel e... - O “patinho” cairá! Novo sorriso, antevendo a vitória que lhe aplacará o desejo da necessidade do sangue, desperto com o nascer da lua cheia, que no céu lhe segue os passos, com a luz suave, contudo, forte. Muito forte... A velha com as mãos trêmulas segurando o jornal aberto, dirige-se a filha ao lado, no sofá: - Gracinha, você leu essa matéria? - Qual matéria mãe? Então a idosa repassando-lhe o jornal: - A morte estranha do homem no leito de um motel, ali em Boa Viagem. A moça com o jornal as mãos, lembra-se. Vendo-se sugando o pescoço branco do rosto perplexo, sem ação... A imobilidade do corpo. A janela aberta, a qual se chegando, então, na metamorfose natural a sua espécie, reduziu-se num morcego grande e voou para fora, ao encontro da liberdade que lhe proporcionava a noite “madura”.
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