Penteando a cabeleira n***a, estirada, longa, veste a blusa amarela, a calça azul e calçando os sapatos marrons, busca a bolsa de correia no guarda-roupa ao lado da cama.
Prende-a ao ombro e sorri, gracejando:
- Estou pronta pra batalha.
Abre a porta do quarto, cruza o corredor e chega à salinha, onde a velha mãe está no sofá, à frente da TV, que exibe a novela das vinte horas.
- Tchau, mãe.
Esta então se volta:
- Mas, vai sair de novo, Gracinha?
- Ora mãe... Trabalho o dia inteiro naquela fábrica e tenho de me distrair um pouco...
A seguir, abrindo a porta da sala, completa:
- Sou novinha ainda!
Passa. Fecha a porta por fora e, em passos resolutos vence a área entre a residência e o muro e, abrindo o portãozinho, ganha a rua.
A noite a acolhe com as vozes nas residências laterais, o choro de uma criança, os latidos de um cão: sons característicos, conhecidos e, com indiferença, a jovem desce a rua.
Embaixo, na rua transversal, passam veículos e pedestres às calçadas, no movimento natural do morro.
Caminha.
Sendo alta, esguia, graciosa, desperta a atenção, principalmente dos homens às esquinas.
- Essa menina é demais!
- Parece uma artista.
- Pena morar numa favela...
Ela distancia-se.
Resoluta. O coração aos pulos, ao impulso do desejo que lateja no sangue, tornando-a escrava do que mais uma vez praticará!
Dobra a esquina e ante o ônibus que se avizinha, voltando-se, ergue o braço longo e com a mão espalmada, acena-lhe.
O coletivo estaciona. A porta se abre e Gracinha adentra.
- Boa noite.
- Boa noite.
Responde o motorista, perplexo com a imagem que bem representa a beleza da mulher brasileira.
A moça sorri, entendendo-o, e ocupa a cadeira com a janelinha, pela qual observa o que agora vai ficando para trás.
Residências conjugadas, gente se movendo para lá e para cá. A inclinação do morro com as moradias conjugadas, as escadarias...
Um mundo conhecido, visto com interesse pelo que apresenta.
Aí o celular toca.
Retirando-o da bolsa, atende ao chamado.
- Sim, Pedro. Certo, tou a caminho, chego já. Tchau!
O Pedro, recém “paquera”, com o qual marcou o segundo encontro, em Boa Viagem, para o jantar, depois o motel e...
- O “patinho” cairá!
Novo sorriso, antevendo a vitória que lhe aplacará o desejo da necessidade do sangue, desperto com o nascer da lua cheia, que no céu lhe segue os passos, com a luz suave, contudo, forte. Muito forte...
A velha com as mãos trêmulas segurando o jornal aberto, dirige-se a filha ao lado, no sofá:
- Gracinha, você leu essa matéria?
- Qual matéria mãe?
Então a idosa repassando-lhe o jornal:
- A morte estranha do homem no leito de um motel, ali em Boa Viagem.
A moça com o jornal as mãos, lembra-se. Vendo-se sugando o pescoço branco do rosto perplexo, sem ação... A imobilidade do corpo. A janela aberta, a qual se chegando, então, na metamorfose natural a sua espécie, reduziu-se num morcego grande e voou para fora, ao encontro da liberdade que lhe proporcionava a noite “madura”.