Quanto mais ele entrava na floresta mais difícil era o seu movimento. A armadura manchada
com o sangue que pingava de sua barba - lhe dava a impressão que a cada gota ficava mais
pesada. A sua perna atravessada por uma flecha. Que ele não teve tempo de quebrar. A
floresta escura, coberta de cipós e caules grossos. Pássaros pulavam entre árvores. O grito
dos pequenos saguis assustados. Deixara Portugal ainda jovem. Promessa de riquezas. Ouro
e prata - um dia voltar pra casa.
Estamos no ano de 1602. E o bandeirante ferido e coberto com a lama da terra que veio
desbravar escuta pela primeira vez o som das flechas passando perto de sua orelha -
cruzando a temperatura imaculada. Matara os jesuítas, e os índios, estes não teve tempo de
escravizar. Quando deu por si as estrelas do firmamento tornaram-se mecânica quântica, olhos
de tigre, brilhando entre as folhagens em todos os lugares e ao mesmo tempo. Está cercado.
Escuta-lhes o som rutilante. “Bichos!” Sem fôlego e com a última força que lhe resta vê junto à
luz que desaparece em cada passo que à sua frente há uma caverna. Escura. Uma gruta.
Muito escura - uma boca aberta lhe oferecendo abrigo ou seria uma passagem para o inferno
de sofrimentos infinitos? O inferno é aqui - ele pensa. Para diante dela, da bocarra escura, o
convidando ao abrigo. Percebe ao redor da pedra inscrições e hieróglifos de deuses antigos.
Respira. E a cada inspirada, sem fôlego, o peito parece que vai arrebentar. A dor dos últimos
átomos confundidos em partículas que dançam até se quebrar.
Os índios o alcançam. Ele se vira. Da caverna escura um vento morno sopra-lhe a nuca. E o
sangue encharcando-lhe as botas parece congelar. Os índios param. Não dão mais um passo
sequer. Tremem segurando os arcos. Um mais afoito tenta avançar-lhe, mas é seguro por
outro que lhe diz “loroque! loroque!” Os índios se afastam devagar e um deles retesa o seu
arco antes de ser empurrado para trás - e dispara uma flecha que passa pelo bandeirante e
some no interior da caverna. Não bate em nada. E penetra a escuridão. Fazendo um som de
nada. Como se nunca existisse.
Ele entra na caverna. E a cada passo o bandeirante cambaleia sentindo o silêncio de mãos
dadas com as trevas. Desce uma escada de pedras e debaixo das estalactites dentadas
encontra uma piscina coberta de folhas que flutuam no espelho d'água esverdeada. Mergulha a
cabeça, aliviado. Bebe feito um gato de barba. Recosta-se e tateando a perna flechada,
abocanha a faca, quebrando um das arestas pressionando-a contra o chão. A dor lancinante
dos nervos que se partem. As estrelas que não estavam lá cirandam em volta da cabeça. Da
coxa aberta, bolhas de matéria escura. Sente a força lhe deixar o corpo e se apaga.
Língua estranha. O seguram pelos cabelos. Quando desperta - descoberto - percebe-se todo
nu. Olha para cima e um cone luminoso reflete o que é sinistro em meia penumbra: morcegos
atiram as suas sombras passando pela lua.
- Quem são vocês? - ele pergunta rastejando para trás.
Não o respondem. Mas eles estavam lá. Avultavam-se mudos sobre o chão revolto e
comunicavam-se como se celebrassem o sacrifício triste de outro homem. Um povo
aprisionado no interior da terra, avessos a luz e ao dia, desde o tempo em que o seu mestre
em batalha celeste caiu rogando pela sua companhia. Sim, a sua.
O bandeirante desarmado e notando que os seus ferimentos haviam sido misteriosamente
curados não ousava quebrar aquele instante de silêncio mortal. Foi quando uma por uma das
criaturas passando da escuridão para a luz tênue à sua volta revelavam-lhe quem eram.
- índias? - ele murmura. Enfraquecido sentindo uma dor-quase vazia - dentro do peito. A
dor febril dos operados.
Elas se aproximavam lentamente. Todas pintadas de vermelho. E ao sorrirem, lhes mostrando
os dentes, sente o cheiro de seus corpos, podia quase sentir que tinham a pele macia e os
estranhos pés virados, e quando as olhou (olhos nos olhos) eram verdes cegos olhos
banhados de um enxofre ardente. Eram muitas. Não disse mais nada. Deixou apenas que lhe
tocassem como estava acostumado. Uma delas então depois de alisar-lhe a barba em um
puxão arranca um lado inteiro de seus pelos. Para depois sorrindo diante o bandeirante
aterrorizado engolir-lhe os ensanguentados chumaços de cabelo.
- Arrrrgh!
Os seus gritos ecoavam pela caverna. E dançando em volta dele as índias riscavam - quando
o tocavam - sinais misteriosos (em seu torso desmontado / onde jaz a saudade do que pulsa).
Desvencilhou-se daquelas bruxas. Cuja aparência demoníaca se revelava pouco a pouco.
Correu. E escondido detrás de uma coluna de pedra tentou começar a rezar; do Pai Nosso, à
Virgem Maria, nervosismo ou luta pela escolha de um guia, pouco saía pela sua boca.
Escutava-lhes, entretanto, a respiração animalesca.
- Obrigado Senhor, meu Deus! Obrigado! - Vedanta puríssimo - a não dualidade permeada na
roupagem da existência. Mas esta ideia ainda não passava pela sua cabeça porque um milagre
não se mede pelo seu tamanho e sim pela sua necessidade; e contrapondo a teoria falha de
nossos dias, dois corpos poderiam certamente (diante o seu espanto) ocupar o mesmo lugar.
Encontra a flecha lançada de quando o perseguiam. Intacta. De ponta afiada, não mais
perdida, o esperando no chão da gruta. Encurralado vê um ser que se levanta de um trono de
pedra. Horrendo, monstruoso - gigantesco. Um cocar na cabeça feito de dedos humanos. E a
marca na fronte era o sigilo indecifrável de um encantamento feito às pressas. Segurava algo
em uma das mãos - enquanto as outras bestas se curvavam agora apaziguadas arfando como
os cães famintos. Sabiam que o ritual estava prestes a se consumar.
Quando a sombra da asa do demônio grande encosta de um lado ao outro da caverna o
bandeirante se prepara para a luta. Segurando firme a flecha os ameaça: “Para trás! Para trás!”
- e as criaturas param de avançar. Uma por uma lhes viu a face; cabeças de bodes com
dentes finíssimos.
É então que o líder de corpo muito forte atira-lhe o que tem nas mãos.
- Morre, desgraçado! Deus seja louvado! - o bandeirante cerra os dentes e em um movimento
certeiro crava com a flecha, o seu milagre achado em trevas, aquilo que lhe foi lançado.
O ritual estava completo. Os demônios se aproximaram feito hienas do corpo tombado e quase
morto do bandeirante que em espasmos artificiais convulsionava em cada mordida enquanto
era devorado. Não sobrou nada; lamberam-lhe o sangue, o sêmen, e sequer brigaram pelos
ossos dentro da caverna escura.
Esperem;eu me engano. Algo eles haviam deixado sim; a flecha com o coração fincado do
próprio homem cuja alma agora pertenceria ao d***o.