Sentia na sua pele a suave carícia da brisa à beira do mar na noite augusta de 890. A dama deitara nas águas seus pensamentos como qual pescador que trabalha as redes desde o esquife. O concerto de ondas os envolve e mistura. Seu cabelo preto, liso e longo. Sua face branca como o luar. Seus olhos azuis. Sua figura ligeira e feminina. Seu diário uma declaração de amor perdida numa garrafa à deriva, guindada desde o alto da falésia. O lençol como papel, as lágrimas como tina, o coração como sintaxe. Nunca vi dama igual em formosura nem fadista tão triste, ferida, danada pela flecha preta de Eros. Aquela donzela galega suplicava a Poseidon lhe liberasse seu amigo.
Lastimada pelo seu pranto, Selene compadecia a moça, iluminava intensamente seu rosto como um intento por secar as suas lágrimas, como uma mão materna que repousa no peito a cabeça da sua filha.
Aquela mesma noite a galega cumpriu núpcias com o oceano. Enterrou os pés nas águas, aguardou mais uns suspiros, mais uns pensamentos, mais uns lamentos. Deu mais algum outro passo adentro. Onda trás onda o corpo da rapariga desaparecia nas águas como sereia ou ninfa. A Lua parecia com o seu reflexo procurar à menina sem êxito. Tinha sido engolida pelas profundidades, rendida pelo veneno da saudade.
Ontem achei sua carta náufraga aboiando entre as ondas que pareciam entrega-la à areia da praia. Retirei a coriza e li o pranto daquela menina assassinada pela faca do amor:
Ó, meu amigo! Por preto a bandeira,
por lágrima o duelo,
por ferida a pátria
por pranto o alimento.
Estou soa sem ti, meu amigo.
Sou como seria fora do mar,
sou como estrela soa no firmamento,
sou como anel sem dedo,
sou como veleiro sem ar.
Estou soa sem ti, meu amigo.
Oh! Eu continuo aqui à tua espera certa de que não há retorno do Hades, de que a viagem polo Estígia é apenas de ida. Certa de que não voltarei tender a tua mão em vida, de que não voltarei encontrar teus lábios com os meus, de que não voltarei ouvir a lira de poeta na tua voz, de que não voltarei achar o abrigo dos teus braços, de que não voltarei a acordar sentindo os teus dedos penteando o meu cabelo. E passar disso eu sigo aqui, esperando-te, meu amigo. A coita do meu coração escreve estas palavras não sei se para ti ou para qualquer estranho, não sei se como Epitácio ou como reclamo teu a Poseidon. Mas elas são minha última palavra dantes de me enterrar no Atlântico como derradeiro leito, antes de te procurar na escuridão da noite defunta, dantes de que as tesouras das parcas cortem meu fio, dantes de pagar a Caronte as moedas da derradeira viagem.
Estou soa sem ti, meu amigo.