Episódio 3

1053 Palavras
Mais do que eu gostaria, na verdade. Meus pais se separaram quando eu tinha apenas quatorze anos. Minha mãe não queria mais nenhum homem na sua vida, até eu ir para a faculdade e sair de casa. A partir daí, aos poucos, ela começou a me falar de um novo homem que ela achava ser o ideal. Mas, no fim, nenhum deles era. Esse homem de quem ela estava falando não seria diferente. Eu não queria ser uma filha r*uim, mas era fato que minha mãe não tinha tido muita sorte no amor desde a separação. O relacionamento mais longo que ela teve — sem contar meu pai — durou dois anos. No fim, ele traiu ela com a secretária. Que original, não é? O segundo relacionamento mais longo durou um ano e meio, e ele acabou sendo bissexual, mas com uma inclinação maior para o lado gay. Sim, esse é o tipo de sorte que minha mãe tem com homens. Minha mãe sabia exatamente o que eu queria dizer, é claro! — Não estou falando das outras vezes, estou falando desta. Ela me repreendeu calmamente. — Eu gosto dele, e acho que ele gosta de mim. Já falei muito sobre você para ele, e ele quer te conhecer. Demorei para dizer sim. Sei que você não quer conhecer mais nenhum homem. Mas este é diferente. — Mãe... Suspirei, frustrada. Eu não sabia o que mais dizer para fazê-la entender. Todos os homens eram tão bons com ela no começo, como santos. E comigo também, até eu me cansar de conhecer um diferente a cada poucos meses. Eu disse especificamente a ela que não queria conhecer mais ninguém até ganhar um anel de noivado. — Karen, não tenho mais nada a perder. Vale a pena tentar... Só quero sua opinião sobre ele. E ele é do Vidigal. Isso faz com que as coisas fiquem mais fáceis. Ela era minha mãe e, como tal, me conhecia muito bem. Essa última frase me convenceu. Eu conseguia perceber quais eram as intenções dela com a minha mãe e se ele estava sendo falso ou sincero. Eu daria a ela minha opinião honesta sobre ele. — Já estou indo, mas vai demorar um pouco. Olhei para o meu relógio novamente. Eu não tinha muito tempo para sair dali. — Sem pressa, querida. Assim que desliguei o telefone, corri para abrir a porta da frente e arrastei as caixas até perto do elevador. Encarei a chave, sem saber o que fazer com ela. Eu não ia mais entrar naquele apartamento, então por que guardá-la? Girei a maçaneta e joguei a chave no patamar, sem me importar se alguém a visse. Eu não estava mais preocupada com arrombamentos nem nada do tipo. Chamei o elevador e, quando as portas se abriram, usei as pernas para empurrar as caixas para dentro. Já no andar principal, o porteiro se ofereceu para me ajudar com as caixas, e eu o agradeci. — A senhora vai se mudar? Ele perguntou enquanto levantava duas caixas. Não me dei ao trabalho de corrigi-lo — eu não gostava de ser tratada formalmente nem nada do tipo, e insisti nisso desde o início da minha estadia ali —, mas o porteiro nunca me chamava pelo nome nem usava o tratamento informal “Senhora”. Educado demais, imaginei. Ou teimoso, dependendo do ponto de vista. — Hum… sim. Hesitei. — Algo assim. Ele não mencionou Robert, o que foi um grande alívio. Ele me acompanhou até a saída, onde sempre havia um ponto de táxi. Escolhi o mais próximo, e o concierge me ajudou a colocar as caixas no porta-malas. Ele me desejou boa sorte quando me despedi, e quando entrei no táxi, pedi ao motorista que me levasse ao Hotel Victoria. Eu ficaria lá naquela noite, senão não teria tempo de encontrar minha mãe naquele restaurante. Em outra época, eu não teria me hospedado lá por nada; os preços eram exorbitantes, mas eu não tinha outra escolha. Além disso, convenci-me novamente: seria apenas por uma noite. Assim que paguei pela estadia, um mensageiro trouxe as caixas para o meu quarto. Quando ele saiu, finalmente pude respirar aliviada. Era o quarto mais luxuoso em que eu já havia estado. Observei o quarto com o olhar enquanto me aventurava mais para dentro para dar uma olhada melhor. Quando a empolgação inicial passou, desabei na cama macia e confortável e lamentei: de que adiantava desfrutar de um quarto como este se eu não podia compartilhá-lo com ninguém? Olhando para o relógio, levantei-me num pulo. Menos de nove horas. Em quarenta e cinco minutos, eu tinha que encontrar minha mãe. Tirei os sapatos correndo para o banheiro e tirei minhas roupas o mais rápido que pude. Peguei duas barras de sabonete na pia e estendi uma toalha no chão para não escorregar depois. Liguei o chuveiro e esperei a água ficar morna. Entrei e ensaboei todo o corpo com uma barra de sabonete. Usei a outra na cabeça. Isso demorou mais, já que meu cabelo estava muito comprido. Eu teria que ir ao cabeleireiro em breve. Enxaguei tudo rápida e completamente. Sequei-me com uma toalha branca grande e caminhei com cuidado até as caixas, tomando cuidado para não cair; eu ainda estava úmida. Verifiquei-as uma a uma até encontrar a que continha as roupas. Com cuidado, peguei um dos vestidos longos. Estendi-o na cama para examiná-lo de perto. Depois de pensar bastante e observar atentamente, decidi que estava aceitável. Não estava tão amassado quanto eu temia. Peguei meu secador de cabelo em uma das caixas e voltei para o banheiro. Quinze minutos depois, meu cabelo estava quase seco. Pensei em alisá-lo com a chapinha, mas ainda precisava me maquiar e não teria tempo. Suspirei. Meu cabelo estava liso, exceto pelas pontas. As pontas estavam onduladas. Eu teria preferido que estivesse todo liso, mas estava ficando sem tempo. Peguei a maquiagem necessária nas caixas para aperfeiçoar meus traços. Depois de aplicar rímel, voltei para pegar o vestido rosa que havia escolhido. Nem a maquiagem nem o vestido que escolhi para a ocasião combinavam com meu estilo, mas eu tinha que ir assim porque estava em um lugar chique e, para piorar a situação, ia encontrar o namorado da minha mãe. Eu não queria ofuscá-la usando uma cor chamativa. ‍​
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