Episódio 2

997 Palavras
‌Com o coração acelerado enquanto me aproximava da cama, peguei o ursinho de pelúcia de que tanto gostava. Ainda gostava. Mas não queria ter nada a ver com ele, nada que me lembrasse daquele traidor. Abracei o ursinho enquanto caminhava até a cozinha e peguei uma faca de uma gaveta, a mais afiada. Com o ursinho agarrado ao meu corpo e a faca na mão, fui para a sala de estar e sentei o ursinho no sofá, em frente à televisão. Coloquei a faca de volta no sofá quando outro estalo soou na minha cabeça. Voltei para o quarto, direto para o armário do Roberto. Vasculhei embaixo dele, onde eu sabia que ficavam as ferramentas para pendurar um quadro ou qualquer outra coisa. Senti uma certa satisfação quando encontrei o martelo, peguei e voltei para perto do ursinho. A primeira coisa que fiz foi segurar o martelo com firmeza com as duas mãos e olhar para a televisão que eu havia comprado para o Roberto no seu último aniversário. Era cara, e eu a comprei apenas para fazê-lo feliz. Eu não ligava para tecnologia. Mas ele adorou, e eu planejava comprá-la quando tivesse juntado um pouco mais de dinheiro. Cheguei primeiro, e agora não me arrependo de nada. Porque aquela TV foi comprada com o meu dinheiro, e a mesma pessoa que a comprou tinha o direito de destruí-la. E foi o que eu fiz. Balancei o martelo com mais força do que imaginava ser capaz. Instintivamente, fechei os olhos e virei o rosto. Um estrondo ensurdecedor ecoou pela sala. Quando me virei, a tela estava rachada e oca de um lado, onde o martelo provavelmente havia atingido. A adrenalina já corria pelas minhas veias. Com menos força, golpeei a tela rachada mais algumas vezes até que ela se estilhaçou completamente. Com uma martelada na base, a TV se soltou da parede e caiu no chão. Só então fiquei satisfeita. Larguei o martelo e peguei a faca. Com um suspiro de arrependimento, fui até meu amado bicho de pelúcia e segurei a sua cabeça. Enterrei a faca no seu peito e, com dificuldade, a arrastei para baixo, abrindo-o. Então eu cortei a garganta dele. O enchimento de algodão se espalhou. Eu me sentia uma louca, mas também sentia a emoção da vingança. Roberto precisava aprender o quanto uma mulher podia me odiar. Afinal, ele só tinha tido duas namoradas. Uma não durou nem seis meses, e a outra era eu. Aposto que ele nunca tinha levado um choque desses. Jogando a faca no chão, ao lado do martelo, fui até as caixas para me certificar de que estavam todas fechadas e que eu não tinha esquecido nada. O meu celular começou a vibrar no bolso enquanto eu empilhava as caixas perto da porta. Pensei que fosse Roberto perguntando se eu já tinha saído do apartamento. Esse pensamento me fez ferver de raiva, mas me acalmei quando vi que era minha mãe. Eu tinha falado com ela uns quatro dias atrás. Ela não era autoritária. Me dava espaço. Sabia muito bem o quanto eu era independente. Tanto que eu nem tinha contado a ela sobre o meu término. Ontem eu não estava com vontade de ligar para ela e contar, mas hoje eu teria que fazer isso. Atendi antes da ligação terminar. — Mãe. Cumprimentei. — Oi, querida. Como vai? — Bem... Tem uma coisa que eu quero conversar com você. Pessoalmente, se possível. Houve um breve silêncio do outro lado da linha, e eu me perguntei se ela já sabia o que eu ia dizer. Mas não era possível. — Eu também. Ia te perguntar se você poderia jantar comigo hoje à noite. Dessa vez, fui eu quem hesitou. Isso não era típico dela. — O que você quer me contar é mesmo tão importante assim? — Se for bom para você, estarei te esperando no Caprice às 21h30. Enquanto tentava processar a informação, olhei para o meu relógio. Não tinha certeza se teria tempo suficiente. — Você pode trazer o Roberto, se quiser. — Talvez eu consiga, mas vai demorar um pouco. Respondi, omitindo qualquer menção ao meu agora ex. — Não precisa ter pressa. E vista-se bem. Isso me fez revirar os olhos. O Caprice era um restaurante num hotel chique onde a minha mãe trabalha. Ela era gerente de serviço lá. E tinha um desconto que podia usar uma vez por mês para jantar no restaurante. Eu não tinha escolha a não ser me vestir bem. Minha mãe lutou muito para me dar de tudo. Construi com muito suor o que é a casa dela hoje. É na comunidade, mas é dela. E me deu estudo. Isso é o que ela poderia me dar de mais importante. — Se não se importar, vou de roupa de ginástica. — Eu não ia te contar até te ver, mas... você pode ficar brava. Suspirei profundamente e encostei as minhas costas na parede. Eu não tinha muito tempo antes da chegada de Roberto, e a minha mãe estava me mantendo ocupada. Eu não queria estar no apartamento quando ele chegasse, principalmente com a bagunça que eu tinha feito na sala. Embora ver o rosto dele fosse uma ideia muito tentadora. — Desembucha, mãe. — Lembra... quando eu mencionei... que conheci um homem? — Bem... sim. Algumas vezes. ‌‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍‌​​‌​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​​‌‌​​‌​​‌​​​‌​​​‌​​‌​‌​‌‌‍
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