PREFÁCIO
Não sou de escrever cartas, e aqui estou eu, escrevendo uma que jamais verá a luz do dia. Porque pretendo destruí-la assim que despejar toda a minha dor neste papel. Veja o que você fez comigo.
Para ser sincera, você me tentou desde o primeiro momento em que te vi. Mas você já sabia disso, não é? Você está acostumado a ser desejado, e eu não era exceção. Não que eu possa te culpar.
Neste momento, enquanto escrevo isto, estou ouvindo a música que dançamos na sua casa. Não vou mencionar o título porque sei que você se lembra.
Você não vai ler isto porque não quero me abrir para você mais do que já me abri. Porque da última vez que fiz isso, você me despedaçou. E é por isso que estou escrevendo isto na solidão do meu quarto.
Sei que agora você está com ela, como deveria ser. Me odeio por querer estar no lugar dela. Ela merece essa felicidade, não eu. Mas você também não.
CAPITULO 1
O fim. É isso. Era algo que eu tinha que aceitar. Eu não era a primeira pessoa a passar por isso, nem seria a última. Todos os dias, milhares de relacionamentos terminavam. Era a coisa mais normal do mundo. Então, qual era o problema? Eu tinha desperdiçado três anos da minha vida com um cara completamente imprevisível que não sabia o que queria. Era de se esperar, então, que isso terminasse assim, certo? Bem, não. Eu não tinha pensado nisso, porque antes, esse cara sabia o que queria: eu. Mas isso tinha mudado apenas 24 horas antes, quando ele entrou no apartamento que dividíamos para me dizer que precisava de um tempo, que estava se sentindo sobrecarregado depois de sete meses morando juntos. Naquele momento, eu não sabia o que fazer. Eu queria chorar ou talvez pedir para ele parar de brincar. Mas quanto mais ele falava, mais a minha raiva crescia, porque eu entendia agora que não era brincadeira, de jeito nenhum. Então o interrompi, dizendo para não se dar ao trabalho de dizer mais nada, que tínhamos terminado e que eu arrumaria as minhas coisas amanhã e iria embora.
Aquele amanhã se tornou hoje, porque foi o que aconteceu ontem. E embora tenha sido um momento doloroso, eu queria que acontecesse de novo para poder dizer as palavras que não me vieram à mente ontem. Mas não importava mais, suponho. Tudo tinha acabado e, depois de um longo dia de trabalho, eu estava indo para o meu apartamento, não para tomar banho ou me aconchegar, mas para arrumar as minhas coisas e ir embora. Ir embora, porém? Esse era outro problema que eu teria que resolver hoje. Talvez eu pudesse passar a noite num hotel, mas só esta noite. E eu também precisava de tempo para encontrar um apartamento acessível, tarefa nada fácil.
Suspirei, sobrecarregada por tudo o que tinha que enfrentar, e fui a passos largos até a entrada do prédio. Abri a porta impacientemente e subi as escadas correndo. Precisava extravasar a minha enorme raiva de alguma forma, e subir as escadas correndo ajudou.
Roberto, meu ex recente, não estava no apartamento, e eu não fiquei surpresa. Ele saiu do trabalho mais tarde do que eu e foi direto para a academia. Eu não entendia a utilidade da academia para ele, já que o seu corpo não havia mudado nada desde que começou a frequentá-la.
— M*aldito desgraçado. Murmurei, me surpreendendo com o tom sombrio da minha voz.
No chão da cozinha, encontrei algumas caixas de papelão grandes, exatamente como Roberto havia prometido. Ele até disse que sairia para que eu pudesse ficar, mas eu recusei. Eu não conseguia morar ali depois de todas as lembranças que tinha de nós dois. Precisava de algo novo, algo que não me lembrasse do passado, de nós.
Peguei as caixas vazias e as levei para o quarto. Joguei-as no chão com um suspiro. A onda de raiva já estava diminuindo. Abri o armário e tirei os cabides com as minhas roupas, depois os joguei na cama. Dobrei-as o suficiente para caberem em uma das caixas, e assim por diante até que todas as minhas roupas estivessem embaladas. Não demorou muito. Eu não tinha muitas roupas, para dizer o mínimo. Apenas o essencial.
Então fui pegar os meus sapatos, que estavam no fundo do armário. Eu também não tinha muitos. Depois de arrumar e guardar as minhas coisas do quarto, fui ao banheiro pegar a minha maquiagem, meu pente e tudo o mais que era meu.
Quando terminei de guardar tudo, verifiquei com alívio que não faltariam caixas, porque as coisas mais importantes já estavam dentro.
Na cozinha, havia uma gaveta que dedicávamos exclusivamente a bolsas. Peguei uma preta numa loja de roupas e coloquei os meus filmes, CDs de música e livros nela. Era minha coleção mais preciosa.
Passando pelo quarto novamente, vi o grande urso de pelúcia na cama. Roberto achava infantil para um quarto de casal, mas eu não ligava. Eu queria aquele urso ali porque Roberto tinha me dado no nosso primeiro encontro.
Algo fez sentido para mim. Algo incomum me ocorreu. Dizem que o amor faz aflorar o pior das pessoas.