Leilani:
Terminando de comer meu amendoim, olho para o lado e o Abasi está pensando longe. Ofereço água e ele n**a.
- Tá pensando em quê?
-Abasi: Em como tu saiu do orfanato,
ele fala.e eu fico olhando para o nada. As memórias começam a surgir. Era domingo, as crianças com mães ou algum parente recebia visitas As meninas se arrumavam todas com as melhores roupas, animadas. Os meninos também, mas eles eram mais calmos ou calados. Talvez já para quem não tinha ninguém, era um dia de inveja.
E não, não era inveja da boa, era inveja amarga, da que te faz pensar: "Ela sim, e eu por que não?" A mesma inveja que nos dava quando, uma criança era adotada. Sempre eram os bebês, até dois anos, os escolhidos, e nós, as sobras, éramos os resilientes, lutando contra o sistema c***l.
O Abasi fazia um mes que não vinha,
nem mandava notícias. Eu pensei que ele tinha me abandonado. Estava sentada numa árvore grande e frondosa, era a melhor árvore para se escalar, mas eu já tinha caído uma ou duas vezes e não queria me machucar. Estava sentada com as costas e a cabeça sobre o tronco da árvore, imaginando uma história de super-heróis. Podia ver a cena na minha mente: os raios da mão da super-h*****a e a super força do homem, quando uma voz conhecida ecoou no pátio.
-Abasi: Leilani, cadê você?
Eu dei um pulo, me levantando, passando as mãos na b***a para tirar qualquer sujeira da calça.Olhei e ele vinha com uma sacola na mão, uns sanduíches e uma Coca-Cola. Eu sorri, pulando e abraçando-o.
- Abasi: Calma, calma, não vou fugir.
Eu soltei ele, cruzei os braços .
-e pensei que não vinha mais.
Ele negou com a cabeça e fomos nos sentar na sombra da árvore.
- Abasi: Eu consegui alugar nossa casa, ele falou, me entregando o sanduíche. Eu umedeci os olhos; era o mais perto de um novo lar que eu tinha.
- Abasi: Essa noite tu tem que estar no pátio de trás, vou te tirar uma corda com nós. Lembra que tu fazia isso em ginástica?
Eu olhei incrédula para ele. Cara, eu fazia isso, mas olha meu tamanho, sou magra, mas sou desastrada. Cara, vou cair.
Ele me olhou sério.
- Abasi: Leilani, na vida tu tem que lutar. Não aprendeu ainda que é um muro pra quem já passou pelo inferno aqui?
E o muro tinha dois metros, né? Fiquei analisando e resolvi lutar. Ele falou umas coisas e se foi; ele tinha que deixar tudo arrumado.A noite caiu e eu só saí com a roupa do corpo. Anos aqui me insinaram a abrir portas com facilidade, pisar certo para não fazer barulho e pular uma janela, mas especificamente a janela da cozinha, já que agora não passava pela do banheiro. Passei me pendurando e tentando cair bem para não fazer barulho. Uns minutos depois, uma corda surgiu do alto. A corda era grossa e tinha nós que facilitavam o calce dos pés. Lá fui eu, na luta, escalei a parede, cagada de medo, me esfolei toda, machuquei a cabeça..
do outro lado. O Abasi estava com uma escada dessas de alumínio resistentes que se dobram para facilitar o manuseio ou o guardado. Olhei para ele, indignada.
- Não era mais fácil tu me dar essa escada lá?
-Abasi: ia fazer barulho demais, ele fala,
e eu termino de descer o último degrau, negando. Pego a escada, dobro e saímos correndo. A sensação de adrenalina e liberdade corria pelas veias, as gargalhadas na rua, a cumplicidade de dois irmãos fazendo travessuras.Chegando no morro, depois de duas horas, era quase três da madrugada.
Os caras estavam fortemente armados e eu só olhei. Tinha uns feios e uns gostosos, mas aí fudeu. O Abasi falou que eu ia pousar na casa dele porque eu era a mina dele. Eu olhei para ele e só abracei meu pr.eto e vida que segue. Eles falaram que só por essa noite, se eu ficasse no morro, tinha que puxar a ficha. E aí a cagada começou, mas era tarde demais para eu me preocupar com isso. Fomos indo e chegamos a um sobrado. Era pequeno, mas era nosso. Eu sorri e entrei com o pé direito. E nessa época ainda eu tinha boas energias e alegria, não tinha toda a maldade de hoje, com trinta anos.
bem na memória, Finalmente dormi uma noite inteira, sem medo. Tinha uma cama de casal e a gente dormiu nela, o Abasi segurando a minha orelha e eu quase fazendo ele cair da cama. E isso não mudou. Se a gente compartilha a cama hoje, ele fica no mínimo espaço e eu atravessada. Por isso, ele evita dormir comigo, já eu nem ligo.
Os dias passaram e conseguimos enrolar legal os caras, mas eu não saía para fora. O Abasi saía para fazer o trampo dele e eu ficava sozinha, sem nada para fazer, e isso estava me deixando louca. Foi aí que o aluguel já estava para vencer e, juntando as poucas roupas, saímos rumo a outra favela que ficava a oito quilômetros.
Chegamos na barreira com a cara e a coragem. Era fim de tarde e lá começou a saga. Falamos que tínhamos 800 reais para alugar um quarto por dois meses. Só falamos com o dono do morro que falou da p**a da fixa e aí eu já estava p**a e falei a metade da verdade. Ele não queria votar fé, mas aí eu inventei que tinha engravidado e um monte de histórias mas o Abasi ficou me olhando incrédulo com a facilidade que eu tinha em mentir.
Mas conseguimos um puxado, um quarto, banho e nem cozinha tinha a 300 reais.
Pagamos dois meses e aqui que eu já podia sair, comecei meu corre. O coitado do Abasi passou por corno em todos os idiomas. Confesso que eu não negava, não. E eram caras do movimento, eles me davam joias, ouro, que o Abasi.Penhorava e assim nossa empresa foi crescendo. Sim, cada um faz a empresa que quiser. Eu não queria luxos, queria dinheiro para sobreviver e poder abrir um comércio. Era rara a vez que eu ia ao salão ou comprava roupa; eu usava a mesma de sempre. ia aos bailes, sim, mas era roupa de brechó, a mais barata. Não gastava em essas coisas; a meta era conseguir um lugar de trabalho. O Abasi seguia na rua fazendo os trampos ilícitos dele.Em um ano, moramos em cinco morros diferentes.
-Depois de dois anos ele começou a frequentar academias e a treinar duro na academia, ele consegiu sua primeira sugar mami.
A velha era enxuta, silicone, bun.da, lipo e os caralh.os. E ele, bom, se sacrificava pela empresa. Nosso primeiro carro veio dela, um vermelhão. O neg.o era um nojo na favela e eu, bom, seguia com meus vapores. Nunca almejei os grandes porque peixe grande te prende e não solta, e eu sou pipa sem fio, nunca sei aonde vou cair.
-Lembra do meu primeiro dia na academia?
Falo, prendendo o riso, e ele nem olha, passando a mão na cara, já assegurando a gargalhada.
-Abasi: Como não, né?