UM MÊS...

1130 Palavras
LÍVIA NARRANDO Um mês se passou. Um mês inteiro presa dentro dessa casa. Um mês olhando para as mesmas paredes, dormindo no mesmo quarto, sentindo o mesmo vazio e convivendo com lembranças que eu daria tudo para conseguir apagar. A lata com as cinzas do Roberto ainda continua aqui dentro de casa. Eu limpo tudo, arrumo tudo, tento manter a casa em ordem, mas aquela lata continua no mesmo lugar. Todos os dias eu olho para ela e penso em jogar fora, mas não consigo. Não tive coragem. Parece que, se eu me desfizer daquelas cinzas, vou estar me desfazendo da última coisa que ainda tenho dele. Eu choro tanto que às vezes sinto meu peito doer. Choro até minha cabeça latejar, até meus olhos arderem. E mesmo depois de passar horas chorando, a dor continua ali, como se tivesse criado raízes dentro de mim. Dói saber que eu não tenho mais o Roberto. Dói saber que o homem que eu amei durante tantos anos morreu na minha frente. E o pior de tudo é saber que eu poderia ter feito alguma coisa. Talvez eu pudesse ter falado. Talvez pudesse ter protegido minha filha. Talvez pudesse ter impedido tudo. Mas eu tive medo. Eu sei que errei como mãe. Sei que errei quando escolhi ficar calada, quando fechei os olhos para o sofrimento da Fernanda e preferi acreditar nas mentiras que contava para mim mesma. Mas eu tive medo de perder o Roberto. E foi exatamente isso que aconteceu. Eu perdi ele. Filhos crescem e voam. Marido fica. Foi nisso que eu acreditei durante anos. Acreditei que, mesmo quando minhas filhas fossem embora, eu ainda teria o homem que amava ao meu lado. Só não imaginava que um dia estaria completamente sozinha, presa dentro da minha própria casa, pagando pelo silêncio que escolhi manter. Eu poderia ter protegido a Fernanda. Mas não protegi. E agora ela não quer nem olhar na minha cara. A Fernanda resolveu abrir a boca e contar tudo. Contou o que eu passei anos tentando esconder. E agora estou aqui, sofrendo. Sofrendo pra c*****o e sozinha nessa casa. Longe das minhas filhas. Longe de tudo. E perto apenas das lembranças. Lívia: Eu sinto tanta falta do seu sorriso... falta do seu carinho, da sua voz, do jeito que você olhava para mim. Eu sinto falta de tudo, Roberto. Até das coisas que eu reclamava. Se eu pudesse voltar no tempo, talvez eu reclamasse menos... talvez eu aproveitasse mais cada momento ao seu lado_ falo olhando para a lata com as cinzas. Todos os dias eu converso com ele. Sei que parece loucura, mas é a única maneira que encontrei de não me sentir completamente sozinha. Lívia: Você sabe que eu te amei, não sabe? Mesmo depois de tudo... eu ainda sinto sua falta. E isso é o que mais me machuca. Eu deveria sentir raiva de você, mas só consigo sentir saudade_ sussurro, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. Tomo um susto quando a porta da frente é aberta. Como sempre, o MB entra. Ele vem com aquela cara fechada de poucos amigos, como se carregasse o mundo inteiro nas costas. Desgraçado. Parece que se acha dono do mundo. E talvez seja mesmo, porque ninguém aqui tem coragem de enfrentá-lo. MB: Tá maluca mesmo, né? Só presta para conversar sozinha. Aqui está sua comida_ fala, colocando algumas sacolas no chão da sala. Limpo as lágrimas rapidamente e olho para ele. Lívia: Até quando eu vou viver isso?_ pergunto, sentindo minha voz falhar. Eu não aguento mais ficar presa dentro dessa casa. Não aguento mais olhar para essas paredes todos os dias. Parece que minha vida parou aqui. Parece que eu vou passar o resto dos meus dias presa nesse lugar. Sinto meu peito apertar. Preciso respirar. Preciso sentir o vento no rosto. Preciso sair daqui nem que seja por alguns minutos. MB: Vai ficar aqui a vida toda mesmo. Aliás, você nem tem vida. Você só está vegetando. Só está andando, comendo e respirando. Você nem era para estar viva, só está aqui por acaso_ fala com raiva. Olho para ele e sinto um arrepio percorrer meu corpo. Por um instante, tenho a sensação de que ele está prestes a voar no meu pescoço. Lívia: Então me mata logo! Minhas filhas não vêm me ver, você tirou o homem da minha vida e agora eu estou completamente sozinha no mundo! O que mais você quer de mim? Já tirou tudo que eu tinha! _ grito com raiva Sinto um aperto forte no peito e começo a chorar novamente. MB: Por uma escolha sua, você está nessa. Que a solidão te deixe agonizando, para eu vir e terminar de matar. Esse é o preço de quem esconde que a própria filha foi abusada durante anos_ fala friamente. Ele se vira e sai, batendo a porta com força. Fico olhando para a porta fechada. E, como todos os outros dias, sinto vontade de chorar. Minha vida já não faz mais sentido. Já pensei em acabar com tudo. Já pensei em simplesmente fechar os olhos e não acordar mais. Às vezes penso que seria muito mais fácil se a minha vida terminasse de uma vez. Mas eu tenho medo. Eu sei que é pecado. Tenho medo de morrer e descobrir que realmente existe um inferno esperando por mim. Talvez minha vida já esteja condenada de qualquer maneira. Um mês. Um mês sofrendo dentro de uma casa onde, há apenas um mês, eu vivi os piores momentos da minha vida. Eu vi a Fernanda apanhar. Vi minha filha sendo abusada. Vi a Viviane atirar no Roberto. E, para completar, vi o MB matar o homem que eu amava bem diante dos meus olhos. Ele não pensou em mim. Não pensou que eu estava ali. Ele simplesmente matou. Depois foi embora. Desde então, minha vida virou isso. O MB aparece todos os dias com comida. Às vezes manda algum vapor entregar. Outras vezes ele mesmo vem. Quando vem, ou fala alguma coisa que machuca ainda mais ou simplesmente fica me olhando com nojo antes de sair. Às vezes nem fala nada. Só me olha. Eu consigo sentir o julgamento naquele olhar. A casa inteira tem grades. As janelas têm cadeados. A porta também. Não existe para onde fugir. Não existe liberdade. Não existe ninguém para me salvar. A única coisa que faço é assistir televisão, dormir, chorar e esperar. Esperar o quê? Eu nem sei mais. Talvez eu espere o dia em que a morte venha me buscar. Talvez espere o dia em que o MB decida finalmente acabar comigo. E talvez seja exatamente isso que eu mereça. Porque eu tive uma escolha quando minha filha mais precisava de mim. Eu escolhi o silêncio. E agora estou vivendo dentro dele.
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