Fernanda Narrando
_ Mesmo a Viviane e a Larissa tentando me distrair, não vai ser tão fácil assim. Não vou conseguir esquecer tudo que passei. Uma menina não esquece que foi abusada pelo próprio pai desde os dez anos, enquanto a própria mãe ainda protegia ele. Não mesmo. Isso não se apaga, não dá para simplesmente apagar.
Queria saber como a Lívia está se sentindo, porque depois do que o Roberto fez, tenho certeza de que o MB não deixou ele vivo. Tenho certeza de que ele teve o prazer de matar o Roberto.
Eu queria sentir algo bom quando penso que o Roberto está morto, mas, ao contrário, só sinto alívio. Alívio por aquele desgraçado estar morto, alívio por não precisar mais sentir as mãos dele em mim, alívio por finalmente ter me livrado daquela maldita casa. Atualmente, eu só tenho a agradecer ao MB e à Viviane. Eles me libertaram.
Quem sabe um dia eu possa ser feliz, esquecendo um pouco esse episódio da minha vida. Apagar, não. Só conseguir lembrar sem sentir que estou vivendo tudo outra vez.
Mas só de pensar em outro homem tocando em mim, eu sinto nojo. Nojo de verdade.
Não penso em namorar tão cedo. Outras garotas da minha idade estão conhecendo namorados, algumas tendo filhos, outras ficando com alguém e algumas focadas em estudar. Mas eu não tenho vontade de fazer nada disso. Minha única vontade é ficar em paz.
Meu peito aperta, uma angústia inesperada toma conta de mim e começo a chorar. Choro pra c*****o. Eu não merecia passar por nada disso. Será que o erro está em mim?
Me levanto em um ato de desespero e vou até o banheiro. Vejo uma tesoura e me sento no chão. Sem pensar direito no que estou fazendo, começo a cortar meu cabelo enquanto as lágrimas descem sem parar.
Viviane: Nanda, não! — escuto ela gritar enquanto toma a tesoura da minha mão.
_ Ela joga a tesoura para longe, depois me abraça e começa a chorar junto comigo. Eu cortei meu cabelo. Parece que a ficha de tudo que passei está caindo agora. Durante todos esses anos presa, eu estava anestesiada, apenas sobrevivendo, até tive crise de ansiedade.
Viviane: Não faz isso com você. Nós vamos passar por isso juntas — fala, me abraçando.
Nanda: Parece que só agora eu estou enxergando tudo o que aconteceu comigo. Passei tantos anos fingindo que estava tudo bem que, agora que estou livre, parece que toda aquela dor resolveu aparecer de uma vez_ falo soluçando
Viviane: Mas passou. Tudo que você viveu ficou para trás. Agora eu vou cuidar de você — fala, chorando junto comigo.
_ Ela fica conversando comigo, tenta me acalmar e consegue, mas a dor ainda está presente. Não pergunto da Lívia, mesmo querendo saber. Também não pergunto do Roberto.
Depois de um tempo, escuto passos se aproximando e me encolho. Antes era sempre assim. Quando eu ouvia passos se aproximando, o inferno começava.
MB: Aconteceu alguma coisa? — pergunta. A voz grossa e firme me faz sentir um frio na espinha.
Viviane: Precisamos procurar um médico para a Nanda — responde, olhando para ele.
MB: No postinho tem. Se ela não se sentir confortável em ir até lá, manda subir os doutor até aqui — fala sério.
Nanda: Eu não quero dar trabalho. Já estou causando preocupação demais desde que cheguei. Não quero que vocês precisem parar a vida de vocês por minha causa_ falo sincera
Viviane: Você não dá trabalho nenhum — fala carinhosa.
_ Meus olhos lacrimejam. Passei tanto tempo sem saber o que era carinho que até isso parece estranho para mim.
O MB fica na porta por um bom tempo, observando a mim e à Viviane. Depois que ele sai, Viviane começa a recolher o meu cabelo. Ela coloca tudo dentro de um saco e joga no lixo.
Viviane: Toma banho, lava o cabelo que eu vou acertar o corte. Depois, quando você se sentir confortável, eu te levo ao salão — fala tranquila.
Nanda: Não precisa. Ele cresce rápido. E, sinceramente, cabelo é a menor das coisas que eu preciso consertar agora. O que está bagunçado de verdade sou eu_ falo respirando fundo
Viviane: Tudo no seu tempo. Só não faz mais isso, por favor. Se estiver sentindo alguma coisa, pode me chamar. Ou chama a Larissa. Nós sempre vamos estar aqui para te ouvir — fala, me olhando com os olhos cheios de lágrimas.
Nanda: Eu prometo que não vou fazer isso de novo. Desculpa por estar assustando vocês e por estar dando tanto trabalho. Eu só... não sei ainda como lidar com tudo isso. Passei anos guardando tudo sozinha_ Falo isso e vou para o banheiro.
Viviane: Você não precisa agradecer. Só me desculpa por não ter te tirado de lá antes. Me desculpa por ter sido ausente durante tanto tempo. Se eu tivesse sido mais presente, nada disso teria acontecido — fala triste.
Nanda: Você não tem culpa de nada, Vivi. Você não tinha como saber tudo o que acontecia naquela casa. A culpa era de quem deveria me proteger e escolheu fechar os olhos. Nossa mãe falhou comigo quando eu mais precisava dela._ Falo, me lembrando de todas as vezes que ela não me protegeu.
Viviane: Eu não tenho mais mãe. A partir de hoje, ela morreu para mim. Se ela fez isso com você, faria comigo também. Então ela não merece mais o meu respeito — fala com nojo.
_ Eu confirmo. Sei que a Viviane tem razão. A Lívia falhou como mãe. Nessa missão, ela não foi guerreira. Simplesmente preferiu o lado e a pessoa errada. Ninguém merece uma mãe covarde. Mãe deveria defender os filhos, e isso a Lívia não fez.
Vou até o banheiro e tomo banho. Lavo o cabelo e percebo que cortei ele abaixo dos ombros. Choro um pouco, com o coração apertado.
Preciso me cuidar. Não posso esperar pela próxima crise. Talvez ela seja pior que essa. Apesar de já ter tido crises de ansiedade antes, nunca foi como essa. Essa foi a pior.
Agora preciso focar que estou em uma vida nova. Vou estudar, fazer exames, passar por uma psicóloga e procurar um emprego. Sei que o MB não deixa faltar nada para a Viviane, mas ele é marido dela e eu não quero ser mais um encosto na vida deles. Quero trabalhar, quero ter o meu dinheiro e ser independente.
Óbvio que serei eternamente grata ao MB e à Viviane, mas jamais quero ser um peso.
Assim que começar a terapia, pretendo falar sobre isso. Sobre criar minha independência, construir minha própria vida e não depender de ninguém para seguir em frente.
...
Eu amo a Viviane. Ela é minha irmã mais velha, mas jamais quero ser um peso como ela. Ela simplesmente se encostou no MB, não abriu uma loja, não faz uma faculdade, não faz um curso. Só quer saber de festa e dinheiro.
A vida não se resume a isso. A vida não se resume a festa, ostentação e morar em uma mansão. A vida também é trabalhar, conquistar as próprias coisas, ser livre e sair por aí sabendo que nada te prende a um único lugar.
Eu sempre tive esse sonho de ser livre. Só não tive oportunidade. Já a Viviane tem oportunidade e não aproveita.
Nanda: Viviane, eu preciso conseguir um emprego — falo depois do banho. — Eu sei que o MB pode sustentar nós duas, mas eu não quero passar o resto da minha vida dependendo do dinheiro dele. Eu preciso construir alguma coisa que seja minha.
Viviane: Não precisa. O MB sustenta nós duas — fala tranquila.
Nanda: Eu sei, mas não quero isso. O MB é seu marido, Vivi. Ele tem responsabilidade com você, não comigo. Eu quero conseguir olhar para o que eu tenho e saber que fui eu quem conquistei. Quero ter meu próprio dinheiro, pagar minhas próprias coisas e sentir que estou reconstruindo minha vida com as minhas próprias mãos_ falo decidida
Viviane: Você não é um peso para ninguém, Nanda_ fala acertando o meu cabelo
Nanda: Eu sei que vocês não pensam assim, mas eu penso. Passei a vida inteira presa e dependendo de alguém. Agora que estou livre, não quero trocar uma prisão por outra. Quero ser independente_ falo sincera
Viviane: Então tá. Quando você descobrir no que quer trabalhar, me avisa que eu consigo para você — fala, fazendo uma cara de deboche.
_ Eu acabo soltando um sorriso. Eu vou trabalhar, estudar e tentar ser feliz. Nada e nem ninguém vai conseguir me prender.
Eu nunca mais vou me permitir ficar calada como fiquei durante tantos anos.