07 Dez Anos

1204 Palavras
ESSE CAPÍTULO RELATA UM ABUSO. Fernanda Narrando _ Acordo pela manhã com uma zoada, e eu reconheço bem essa voz. Pelo visto, o MB falou para a Viviane o que aconteceu. Eu sabia que, uma hora ou outra, ela iria saber. Não é a primeira vez que o Roberto me bate, mas dessa vez foi pior. Estou toda roxa e meu corpo está doendo por completo. Tenho certeza de que os vizinhos escutaram os meus gritos de dor. Viviane: Fala o que aconteceu, Nanda. Fala o que você sabe. Se você ficar calada, eu não posso te ajudar_ fala irritada. As lágrimas escorrem dos meus olhos, pois eu tenho até vergonha de falar o que aconteceu aqui, o que eu passei durante esses anos. MB: Chorar não vai adiantar muito, Fernanda. Você precisa falar o que aconteceu aqui dentro_ fala rude, me olhando. Me assusto um pouco com o jeito que ele fala. Lívia: Aqui não acontece nada, né, Nanda?_ fala me olhando de cara feia, e eu respiro fundo. Nem minha mãe me protege. Fernanda: Chega, mãe! Chega de tantas mentiras! Eu não aguento mais tanto sofrimento. O Roberto abusa de mim e, além de tudo, ainda ameaça a mim e à minha mãe. E essa b***a tem tanto medo dele que fica o tempo todo me pedindo para não falar nada_ falo chorando, pois, para mim, isso é uma vergonha. Essa dor é inexplicável. MB: Vem aqui, seu desgraçado! Eu vou acabar com você, seu cuzão! E outra coisa: a senhora, dona Lívia, está proibida de sair do morro. Vocês dois merecem morrer_ fala, puxando Roberto pelo pescoço. Viviane: Mãe, eu não acredito que a senhora estava escondendo isso. A Nanda é apenas uma garota. A senhora sabe que isso vai atrapalhar a vida dela. Ela não vai conseguir esquecer isso nunca. Nanda, arruma suas coisas que eu vou te levar embora_ fala olhando para nossa mãe de cara feia. A decepção está estampada no rosto da Viviane. MB: Outra coisa: a senhora vai ser cobrada pelo medo. Uma mãe protege as filhas, e a senhora não. Você fez tudo completamente errado. Viviane, se ajudar ela a fugir, você vai ser cobrada no lugar dela. Agora tira a Nanda dessa casa_ fala olhando para Viviane de cara feia. Viviane: Eu lá vou ajudar essa aí? Só vou te dar um papo, dona Lívia: me esquece como filha. Assim como a senhora permitiu que esse daí fizesse isso com a própria filha, a senhora poderia fazer comigo também. Bora, Nanda. Vai logo arrumar as coisas_ fala completamente irritada. Roberto: Eu não fiz nada. Essa daí está mentindo_ fala, negando e se fingindo de inocente. Nanda: Eu nunca teria coragem de mentir! Você abusa de mim desde quando eu tinha dez anos. Eu me lembro do primeiro dia do abuso, lembro o quanto doeu e de como eu pedi: "Por favor, por favor, não continue". Mentiroso aqui é você!_ grito e choro ao mesmo tempo, pois a dor é insuportável. MB: Tira ela daqui, Viviane. Eu vou bater um papo com esses dois_ fala, vermelho de raiva. _ A Viviane não fala nada comigo, apenas me tira dali e me ajuda a arrumar as malas, aliás, o pouco que eu tenho. Eu não falo uma palavra sequer. Não consigo. Estou com vergonha e com medo. A dor de ter sido abusada por anos é inexplicável. É inexplicável saber que eu perdi toda a minha adolescência por causa do meu próprio pai... Chegamos à casa da Viviane. Eu vim aqui poucas vezes, mas a casa continua linda, enorme e bem cuidada. A Viviane sempre ajudou a nossa mãe, mas todo o dinheiro que ela pegava ia parar nas mãos do Roberto. Nanda: O que vai acontecer com a mamãe? Eu nem ouvi a voz dela antes de sair de casa_ pergunto, preocupada. Talvez eu esteja sendo uma b***a, mas a mamãe, mesmo não me protegendo, sempre esteve do meu lado e cuidou dos meus machucados na maioria das vezes. Viviane: Por favor, Nanda, não pense naqueles dois. Você agora vai viver uma vida diferente. Eu prometo cuidar de você e quero que você esqueça o passado. Amanhã vou ver o colégio para você e comprar roupas novas_ fala, fazendo carinho no meu rosto. Nanda: Obrigada. Eu não aguentava mais sofrer_ falo, me lembrando das vezes em que fui abusada. Se fosse só bater, estava bom, mas os abusos... Viviane: Vem, que eu vou te mostrar seu quarto. Ainda está um pouco sem cor, porque é quarto de visita, mas, aos poucos, você vai arrumando ele do seu jeito_ fala, me ajudando com as malas. Nanda: Está ótimo, Viviane. Ele é lindo, bem diferente do que eu tinha_ falo assim que chego ao quarto. Eu não menti, ele é lindo e espaçoso. Viviane: É verdade. Mas eu vou te deixar à vontade. Qualquer coisa, você me chama_ fala, me dando um beijo na testa antes de sair. _ Eu respiro fundo e me sento na cama. Olho o quarto todo e meu coração aperta, porque eu, tão nova, estou passando por isso tudo. Meus olhos se enchem de lágrimas e eu acabo chorando. Choro como se o mundo fosse acabar, mas eu vou tentar ser feliz. Vou tentar esquecer essa dor horrível. Meu único sonho, quando sofri o primeiro abuso, era ter uma infância normal, mas eu não tive uma infância normal. Isso foi arrancado de mim. Queria ter o meu primeiro namorado e viver momentos mágicos com ele, mas meu pai arrancou isso de mim. Antes do primeiro abuso, eu achava ele normal, só que muito sério. Ele nunca tinha levantado a voz para mim. Alguns meses antes de ele abusar de mim, eu vi o jeito que ele me olhava, via o jeito que ele falava comigo e peguei algumas vezes ele me observando dormir. Fiquei sem entender, mas depois ele começou a fazer carinho. Eu achava que ele estava mudando. Estava enganada. Lembro como se fosse hoje: ele invadiu o meu quarto depois de ter passado o dia fora, entrou no meu quarto, tampou a minha boca e fez o que quis. Depois saiu, e eu fiquei assustada, chorando. Depois daquele dia, parece que algo se quebrou dentro de mim. Claro que contei para minha mãe. FLASHBACK _ Estava no quarto, encolhida, com os olhos inchados de tanto chorar, até ela entrar. Eu ainda estudava, e ela me ajudava todas as manhãs a me arrumar, mas naquele dia, quando me viu, ela parou e ficou me olhando. Nanda: O papai mexeu aqui_ falei com a voz de choro. Lívia: Mexeu aonde, Nanda?_ perguntou nervosa. Nanda: Onde você falou que não podia mexer_ falo, abaixando a cabeça. _ Ela olhou para o sangue e saiu do quarto, mas, depois de alguns minutos, eu escutei gritos e Roberto entrar no quarto segurando o cabelo dela. Roberto: Se uma de vocês duas abrirem a boca, podem saber que vão morrer_ falou, jogando minha mãe no chão e saindo do quarto. FLASHBACK OFF _ Depois daquele dia, minha vida se transformou em um inferno. Comecei a frequentar o colégio poucas vezes, depois parei de ir definitivamente e tive a sensação de que os abusos nunca iriam acabar.
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