HUNTER RETTH NARRANDO
Serena acabou de tomar a dose da manhã do soro com medicação. Ela parece melhor, com três doses já está mais animada e a ferida está bem seca. As roupas que Gregory trouxe ficaram um pouco largas, mas estão bem melhores que as minhas.
Enquanto Serena está melhorando, eu não sei o que está acontecendo comigo. Talvez a nevasca tenha me feito m*l, eu não sei. Não foi a primeira vez que precisei enfrentar isso, mas foi a primeira que tive que ir rápido. Meu corpo está dolorido, o Vicodin parece não funcionar.
Fui até a cozinha e Serena estava tomando um copo de água. Ela me observa enquanto está com a boca no copo, e eu tento afastar todo tipo de pensamento sujo da minha mente.
- Você não parece bem. - Ela disse, e eu respirei fundo, pegando meus comprimidos do armário.
- Não se preocupe. - Falei, e ela negou com a cabeça.
- Hunter... - Ela veio até mim, parou na minha frente e colocou as mãos nas laterais de meus braços. - Você cuidou de mim desde que eu cheguei aqui... E tem cuidado... Todos os dias. Me deixa te ajudar de alguma forma... - Ela disse e eu neguei com a cabeça.
- Você não pode me ajudar, anjo. - Respondi, e ela abaixou a cabeça. Agora, seus cabelos loiros estão bem penteados e sua aparência está mais vívida.
Peguei meus comprimidos e tomei um direto do pote. Ela fez careta ao ver a cena.
- Devia tomar com água. Dizem que faz m*l para o estômago fazer isso. - Comentou.
Quando ela disse isso, por algum motivo, me lembrei da garota da loja. E depois, das canetas.
- Eu te comprei uma coisa. - Falei, e apontei para minha mochila. - No bolso pequeno.
Ela foi até a mochila e abriu. Sorriu ao ver o que era.
- Ninguém achou estranho você comprar canetas de unicórnio? - Disse, rindo.
- A atendente achou. Riu da minha cara e disse que eu parecia o tipo de pessoa que faz churrasco de unicórnio. - Falei, e ela deu risada.
Uma risada gostosa, eu diria.
- Adorei. - Ela ria, ainda.
- Era tudo que tinha de escrever lá. Espero que te ajude a passar o tempo.
Ela veio até mim. Eu estava na cozinha, apoiado no balcão. Puxei um uísque da gaveta e o abri, servindo uma dose. Ela ergueu as sobrancelhas.
- Olha só, você bebe? - Questionou.
- Só quando estou com muita dor. - Falei.
Serena subiu no balcão, se sentando nele, ao lado de onde eu estava apoiado. Me virei levemente pra ela, e ela suspirou.
- Queria poder aliviar sua dor. Você tem sido ótimo comigo. - Eu neguei com a cabeça.
- Esqueça isso. - Pedi.
- Na minha terra, o Brasil, agradecemos as pessoas que nos dão um presente com um abraço e um beijo no rosto. Eu... Posso? - Ela falou.
Por que ela insiste em me tocar? Por que essa garota tem que invadir meu espaço pessoal?
E por que eu gosto tanto?
Ela estendeu os braços e eu fui até ela. Eu estava encaixado no meio de suas pernas, e ela me abraçou com força.
- Eu gosto tanto de abraçar você, eu... Me sinto... Protegida. - Ela disse, afundando o rosto em meu ombro.
Passei meus braços ao redor dela e permaneci em silêncio. Eu ficaria até quando ela quisesse soltar, como nas últimas vezes.
Serena levantou o rosto, de forma vagarosa. Seus movimentos eram lentos e cuidadosos. Ela levou os lábios até a minha bochecha e me beijou ali, de forma demorada.
Ela afastou o rosto da minha bochecha e colocou-o em frente ao meu rosto.
- Gostou disso? - Perguntou, com os olhos claros brilhantes, procurando os meus.
Deus, eu me sinto tão m*l comigo mesmo que m*l consigo olhá-la nós olhos.
Concordei com a cabeça. Ela levou as duas mãos até meu rosto e me fez olhá-la.
- Olhe nos meus olhos, Hunter. Por que você evita me olhar? - Perguntou.
Olhei nos olhos dela por alguns instantes, e depois olhei para baixo. Ela encostou a testa na minha, tentando me fazer olhá-la de novo.
- Sinto que vai descobrir meus pecados quando me olha nos olhos. - Admiti. Era exatamente esse o motivo.
- Você tem tantos pecados assim? - Perguntou, e eu voltei meu olhar para os olhos dela.
Levei uma das mãos até o queixo dela, deslizando suavemente meu polegar pela região.
- Estou isolado nessa cabana no meio do nada por um motivo, anjo. Eu não sou uma boa pessoa. - Falei e ela negou com a cabeça.
Por que ela está olhando meus lábios?
Não faça isso, Serena...
- Se não fosse uma boa pessoa, não tinha cuidado de mim, tinha? - Questionou.
- Talvez eu tenha interesses. - Admiti. - Eu não sou tão bom assim.
- Todos nós temos interesses, Hunter. - Os olhos dela fitaram os meus mais uma vez. Ela levou as duas mãos até meu rosto, e aproximou os lábios dos meus.
- Acha que vou te esconder por mais tempo se for boazinha comigo? - Questionei, e ela afastou um pouco o rosto do meu.
- Você não conhece a palavra "gratidão"? - Ela disse, e negou com a cabeça. - Não sabe receber amor ou carinho sem desconfiar?
Levei a mão até a mão dela, e a tirei do meu rosto. A olhei incrédulo.
- Não. - Afirmei.
- O que você fazia antes de vir parar aqui? - Questionou, curiosa.
- Matava garotas como você, Serena. Matava homens também. Matava todo tipo de gente a mando do meu chefe, e ganhava bastante por isso. Aliás, eu só parei de matar porque minha irmã morreu em uma missão comigo, porque se não, eu teria continuado naquela vida. - Eu falei, de forma calma e pausada.
Serena arregalou os olhos e eu dei um passo para trás.
- Agora que você sabe quem eu sou... Eu não mereço nenhum tipo de "gratidão", não é? - A olhei com um ar de deboche. Ela parecia assustada no início, mas seu rosto estava tranquilo como antes.
- Eu não tenho medo de você. - Disse, cruzando os braços em frente ao peito. - Se me quisesse morta, teria me deixado para o lado de fora. E se fosse um psicopata, não teria parado quando sua irmã morreu.
- Está tentando passar pano pra mim, anjo? - Eu soltei uma risada anasalada. A primeira, em muito tempo.
- Não estou passando pano... Estou falando a verdade! Existe algo bom em você, você só não quer admitir. Se você fosse totalmente do m*l, não teria me trazido as canetas. - Ela falou.
- São só canetas, Serena. - Me aproximei dela mais uma vez, colocando as mãos, uma de cada lado do corpo dela, só que na bancada. Nossos rostos estavam próximos.
- Você não quer que eu goste de você? - Questionou.
- É mais seguro pra você. - Afirmei, e ela negou com a cabeça.
- Não é. Sabe quantas vezes eu acordo de madrugada e venho até a sala só pra ver você e me sentir segura?
Eu não sabia disso. Não sabia mesmo.