O tempo parou.
Eu não sei mais o que é manhã ou noite. Não sei se é verão ou inverno. A única coisa que sei é que meu filho morreu. E, com ele, tudo em mim também morreu.
Lucas.
Meu menino.
Meu amor.
Meu ar.
Meu filho.
As pessoas falam, tocam meu braço, murmuram meu nome, tentam alimentar meu corpo. Mas não sabem. Não entendem. Eles acham que estou calada, mas estou gritando por dentro. Eles acham que não sinto, mas meu peito dói tanto que acho que ele se parte um pouco mais a cada segundo.
Eu o segurei nos braços. Senti seu coração parando.
Fui eu. Eu deveria tê-lo salvado. Eu deveria tê-lo protegido.
Por isso não falo. Porque se eu abrir a boca, o mundo vai ouvir os meus gritos. E ninguém pode suportá-los. Nem eu.
Eu me lembro da última vez que ele sorriu. Estávamos na varanda, no fim da tarde. Ele balbuciava sons doces, e estendia os bracinhos para pegar o ursinho azul. Esse mesmo que está comigo agora. Eu o seguro com força porque é o único pedaço dele que ainda existe aqui. Ele babava no canto da boca, rindo daquele jeito sem dente, com os olhinhos brilhando.
Ele tinha febre naquela noite. Eu pensei que era só mais uma gripe.
Mas na manhã seguinte, ele não chorou. Não abriu os olhos. Não se mexeu.
Meu corpo inteiro gelou.
Quando cheguei ao hospital, ele já não respirava.
A médica disse “morte súbita infantil”. Como se isso fosse suficiente. Como se um nome técnico pudesse justificar o fim do meu mundo.
Lembro de gritar. Lembro de tentar arrancar meu próprio peito com as unhas. Lembro da sensação de que tudo desabava por dentro.
E depois… nada.
O vazio.
Hoje, um homem entrou no meu quarto. Usava jaleco branco.
Ele tem olhos sérios e uma voz grave, mas… suave. Me chamou de Anastácia. Me disse que vai ficar comigo. Fiquei imóvel. Ele não sabe que meu nome morreu junto com meu filho. Mas havia algo na voz dele… uma ausência de pressa.
Ele não me obrigou a falar. Não me disse para “ser forte”. Não me tratou como louca.
Ele apenas ficou ali. Silencioso.
E eu… eu quis, por um segundo, que ele ficasse.
No dia seguinte, ele voltou. Trouxe um livro. A capa me era familiar, mas eu não lembrava de onde. Ele começou a ler em voz alta. As palavras batiam contra as paredes, contra minha pele, contra esse buraco dentro de mim.
“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças mas poucas se lembram disso.”
Essas palavras me fizeram respirar fundo.
Por que ele está fazendo isso? Por que está tentando me alcançar?
Por um segundo um só eu olhei pra ele.
Não porque eu quisesse. Mas porque não consegui evitar. Sua voz me puxava. Como se ele me chamasse de volta de um lugar escuro. Mas eu não sei se quero voltar. Lá fora dói demais.
Aqui, no escuro, eu pelo menos estou perto do Lucas.
À noite, sonhei.
Primeira vez em dias. Ou meses. Ou talvez só horas. Não sei mais.
Sonhei que estava num campo. Lucas engatinhava entre as flores. Estava lindo, com a bochecha rosada e o sorriso iluminando tudo. Eu ria. Eu corria atrás dele. Ele dizia “mamãe”. Tão claro, tão real.
Mas então o céu ficou cinza. O campo virou hospital. Os médicos surgiram e o arrancaram dos meus braços. Eu gritava. Ele chorava. E sumia.
Acordei suando, o peito arfando. Me encolhi no canto do quarto e abracei o urso até ele quase perder a forma. Quis desaparecer. Quis não existir.
No terceiro dia, ele voltou.
Eu já esperava. Não com ansiedade não sei mais o que é isso mas com uma espécie de… consciência.
Ele sentou. Disse:
— Hoje vou ler mais um trecho. Tudo bem?
Eu não respondi. Mas também não desviei os olhos.
Fiquei observando suas mãos virarem as páginas. Mãos grandes. Firmes. Mãos de quem já segurou dor antes.
Ele não me olhou o tempo todo. Isso me deu alívio. Quando alguém te encara por muito tempo, parece que querem invadir o que restou da sua mente.
Mas ele não invadia. Apenas ficava ali. Constante. Como uma âncora. Como se dissesse: “você pode se afogar, mas eu ainda estarei aqui”.
Eu não sei por que esse homem me faz querer existir um pouco mais.
Não sei se é porque ele não me pressiona. Ou se é porque ele fala de coisas que lembram inocência.
Ou talvez seja porque, ao contrário de todo mundo, ele não me trata como uma mulher quebrada. Apenas… como alguém que ainda está ali, mesmo que em pedaços.
Não sei explicar. Mas quando ele lê, meu peito dói menos.
Hoje, me vi no espelho pela primeira vez desde que me trouxeram aqui. O reflexo me assustou. Olheiras profundas. Cabelos emaranhados. Rosto pálido. Parecia uma assombração.
Não consegui me encarar por mais de três segundos. Voltei correndo pro canto. Me encolhi como uma criança. Como o Lucas fazia quando eu o envolvia numa manta e cantava baixinho.
Tive vontade de cantar. Mas não consegui.
Apenas fechei os olhos e sussurrei por dentro:
“Me perdoa, filho. Me perdoa por não te proteger.”
No fim da tarde, escutei passos familiares. Era ele.
Abri os olhos. Ele estava ali.
Sentei mais ereta, sem perceber. Pela primeira vez, ajeitei o urso com mais cuidado no colo.
Ele notou. Vi o leve arquejo em sua respiração. Mas não disse nada.
Apenas sorriu de lado e disse:
— Boa tarde, Anastácia.
Minha garganta coçou. As palavras ficaram presas.
Mas pela primeira vez em muito tempo, eu quis responder.
Minha boca tremeu. Eu fechei os olhos com força. Uma lágrima escapou.
E então, como se tivesse escavado minha alma com as próprias mãos, eu murmurei:
— Lucas...
Christian congelou por um segundo. Eu vi. Mas ele não quebrou.
Apenas respondeu, com a voz embargada:
— É o nome mais bonito que já ouvi.
Foi só isso. E foi tudo.
Talvez eu ainda esteja quebrada. Talvez eu nunca volte a ser quem fui.
Mas, naquele momento, pela primeira vez, senti algo que não fosse dor.