Capítulo 4

1275 Palavras
Narrado por Anastácia O tempo não passa aqui. Ou passa, mas de uma forma estranha. Como se os minutos estivessem mergulhados em um líquido grosso e lento. Às vezes, acho que estou parada no mesmo segundo desde que cheguei. Outras, sinto que dormi por semanas inteiras. Mas hoje… hoje algo foi diferente. Acordei ouvindo passarinhos. Eles cantavam do lado de fora, perto da janela. Nunca tinha prestado atenção nisso. Só que, por algum motivo, o som me fez lembrar da varanda do apartamento onde morávamos. Eu e ele. Lucas. Meu bebê. Faz tanto tempo que não falo esse nome em voz alta que parecia ter esquecido como ele soava. Mas ontem, quando Christian estava ali, sentado ao meu lado, o nome saiu. Escapou. Como se estivesse guardado num baú trancado dentro do meu peito, esperando uma fresta para sair. Lucas. Falar o nome dele me doeu. Mas não como antes. A dor de agora não é um buraco n***o me sugando. É uma saudade que queima devagar. Levantei da cama e fui até a janela. Um gesto pequeno, eu sei. Mas para mim foi imenso. As enfermeiras me olham como se eu fosse um milagre ambulante quando faço qualquer coisa além de respirar. Talvez eu seja. Talvez só não tenha percebido ainda. Lá fora, o sol estava tímido. A luz caía nas árvores com suavidade, como se também não quisesse me assustar. E então… lembrei. Eu estava com Lucas no colo, no sofá da sala, naquela tarde em que ele riu pela primeira vez. Eu fazia um som i****a com a boca, e ele soltou uma gargalhinha que me fez chorar. O tipo de gargalhada que enche um coração inteiro. O tipo de som que deveria ser eterno. Meus olhos arderam. As lágrimas vieram, mas não lutei contra elas. Apenas deixei que corressem, silenciosas. Era a primeira lembrança nítida que eu tinha em muito tempo. Sem distorções. Sem dor esmagadora. Só ele. Meu filho. Meu menino. Mais tarde, Christian veio me ver. Ele sempre bate na porta antes de entrar. Isso me faz sentir que ainda tenho controle sobre alguma coisa. — Oi — disse ele, e sorriu. Um sorriso leve. Nunca forçado. Como se dissesse: "Você pode confiar em mim." — Oi — respondi. Essa foi a segunda palavra do dia. Estou quebrando recordes, pensei, com um meio sorriso. Ele se sentou na poltrona de sempre, ao lado da cama. — Ouvi dizer que se aproximou da janela hoje. Assenti. — Os passarinhos estavam cantando. Ele inclinou a cabeça. — Que bom. Eles costumam visitar muito essa ala do hospital. Parece que gostam daqui. — Talvez saibam que tem gente tentando voltar à vida aqui. A frase saiu sem que eu pensasse demais. E, por um instante, os olhos dele se estreitaram com uma emoção que não consegui identificar. Orgulho? Esperança? — E você está voltando, Anastácia — disse ele, com firmeza suave. — Um passo de cada vez. — Ainda é difícil. Respirar, pensar, lembrar. — E mesmo assim, você está fazendo tudo isso. Esse é o verdadeiro milagre. Fiquei em silêncio. Mas o coração deu um pequeno salto. Nunca me senti como um milagre antes. Só como um fardo. Um peso. Contei a ele sobre a lembrança do riso de Lucas. Ele ouviu com atenção, sem interromper, sem me corrigir, sem tentar consertar a dor. Só… ouviu. — Sabe o que eu percebi? — murmurei. — Eu não tinha esquecido o som da risada dele. Só estava escondido, enterrado. Agora veio à tona de novo. — E isso mostra que seu amor por ele não morreu com ele. Aquela frase me atravessou como uma faca e depois curou como um remédio. Eu chorei de novo. Não de desespero. Mas de algo novo… algo mais próximo de alívio. — A dor me dizia que lembrar dele era perigoso. Que eu ia me perder de vez. — E agora? — Agora… eu quero lembrar. Mesmo que doa. No fim da conversa, ele se levantou, mas não foi embora de imediato. — Posso te contar uma coisa? — perguntou. Assenti, curiosa. — Eu perdi minha esposa em um acidente de carro, naquela época, minha família desmoronou, eu desmoronei, me fechei. E passei anos tentando apagar qualquer lembrança dela. — E conseguiu? — Nunca. Só que, com o tempo, entendi que lembrar era a única forma de mantê-la viva comigo. E que a dor… bem, a dor não some. Mas muda de forma. Ela aprende a dividir espaço com a memória boa. Fiquei em silêncio por um tempo. — Qual o nome dela? Ele sorriu. Um sorriso triste, mas cheio de ternura. — Clara. — Nome bonito. — Assim como Lucas. Depois que ele saiu, fiquei com o nome Clara na cabeça. E com a imagem daquele menino sorrindo. Lucas. Meu filho. Meu amor maior. Pela primeira vez desde que o perdi, eu senti que lembrar dele não era um castigo. Era um privilégio. Peguei o ursinho azul e sentei na cama com ele no colo. Passei os dedos pelas costuras desgastadas. Era o brinquedo preferido do meu bebê. Ele mordia as orelhas e ria quando o nariz fazia barulho. — Mamãe lembra de você — sussurrei. — E vai continuar lembrando. Aos poucos, fui enchendo a mente com imagens: o banho, o cheirinho de talco, a forma como ele olhava pra mim quando queria colo. O peso dele adormecido nos meus braços. Os sons da casa. Os risos. Tudo estava voltando No dia seguinte, Christian trouxe um caderno. Capa dura, sem desenhos. Só uma folha em branco na primeira página. — Pra você escrever quando quiser. Ou desenhar. Ou rabiscar. Ou só arrancar as folhas se estiver com raiva. Peguei o caderno com cuidado. Meus dedos tremiam. — Escrever o quê? — O que vier. Pode começar contando quem era Lucas. Ou o que você sente agora. Ou só escrever seu nome. O importante é que seja seu. Sua história. Suas palavras. Não consegui escrever naquele instante. Mas deixei o caderno do meu lado na cama. Era estranho, mas reconfortante. Como se me devolvessem uma ferramenta para construir alguma coisa de novo. E talvez fosse isso mesmo: a reconstrução. No fim daquela semana, já conseguia falar pequenas frases com as enfermeiras. Dizer “bom dia”, “obrigada”, “não quero comer isso”. Gestos simples, que antes pareciam impossíveis. Márcia, a enfermeira mais doce do mundo, me trouxe um chá com mel e disse: — Você tem ideia de quanto já caminhou, querida? Sorri, envergonhada. Mas por dentro, algo começava a inflar no meu peito. Algo novo. Quase… bonito. À noite, escrevi a primeira página do caderno: "Meu nome é Anastácia Rangel. Meu filho se chamava Lucas. Ele era meu sol, minha luz, meu amor maior. E agora, mesmo sem ele, eu estou tentando viver. Um passo de cada vez." Fechei o caderno com cuidado. E dormi abraçada ao urso. No dia seguinte, Christian entrou no quarto, como sempre. Mas desta vez, eu que falei primeiro. — Obrigada. Ele parou, surpreso. — Pelo quê? — Por ouvir. Por ficar. Por não desistir de mim. Ele se aproximou e se sentou na poltrona. — Eu não teria como desistir. Você está me mostrando todos os dias o quanto vale a pena continuar. Nossos olhos se encontraram por um segundo a mais do que o necessário. Um segundo longo. Cheio de alguma coisa que eu ainda não sei nomear. Mas sei que estava ali. Vivo. Talvez fosse esperança. Talvez fosse mais. Mas, por enquanto, tudo o que importava era o fato de eu estar voltando. E ele estar ali, esperando por mim.
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