Capítulo 6

1056 Palavras
Narrado por Anastácia Faz tempo que não sinto esse frio na barriga. Não aquele que vem com o medo, o desespero, o pânico sufocante que me perseguia nas madrugadas. Esse é diferente. Leve, ansioso, quase... bom. É estranho sentir algo bom depois de tanto tempo carregando a dor como segunda pele. Christian me convidou para uma saída. Uma pequena saída, ele disse. Um café discreto em uma livraria no centro. Um lugar silencioso, com mesas pequenas e janelas grandes, onde o mundo parece mais lento. No início, minha resposta foi o silêncio. Depois, o “não posso”. E finalmente, depois de um longo olhar que ele me deu aquele olhar que me faz querer enfrentar o mundo eu disse “talvez”. Esse talvez virou “sim” hoje pela manhã. Senti minhas mãos suarem, o estômago apertar, como se eu estivesse prestes a cometer uma loucura. Talvez estivesse. Sair do hospital, mesmo com permissão médica, me parece quase um ato de traição. Aqui é o meu porto, minha zona de contenção. Lá fora... é o mundo. O mundo que levou o Lucas de mim. O mundo que me quebrou. Mas é também o mundo que está me chamando de volta. E a voz que o chama tem o nome de Christian. Ele me esperava na porta do hospital com o carro ligado, vestido com uma camisa azul-marinho dobrada até os cotovelos. O cabelo levemente bagunçado, o perfume discreto... e aquele sorriso. Meu Deus, aquele sorriso. — Está pronta? — perguntou, abrindo a porta do passageiro com gentileza. Não respondi com palavras. Apenas assenti, segurando firme o ursinho do Lucas o mesmo que dorme comigo desde o dia em que acordei nesta ala. Durante o caminho, ele falava suavemente. Comentou sobre um paciente que se recuperou e agora dava palestras sobre superação. Falou de um livro que estava lendo e de um novo restaurante perto do hospital. Eu escutava, tentando absorver o normal. Tentando me encaixar de novo no que as pessoas chamam de “vida comum”. Mas a verdade é que minha vida nunca mais será comum. Ela foi partida ao meio. Ainda assim... estar com Christian faz esse peso parecer menos esmagador. A livraria era encantadora. Pequena, silenciosa, com cheiro de papel e café fresco. As paredes eram forradas de livros do chão ao teto e havia uma única mesa desocupada perto da janela. Ele a escolheu como se soubesse que seria o meu canto preferido. — Posso pedir por você? — perguntou. Assenti, olhando em volta com olhos assustados e curiosos ao mesmo tempo. Era tudo tão simples... mas tão diferente da bolha em que me acostumei a viver nos últimos meses. Quando ele voltou com os cafés e dois pedaços de bolo de cenoura, me olhou como quem observa algo frágil que está aprendendo a andar. — Está tudo bem? — perguntou, depositando o copo à minha frente. — Está... silencioso. — Dei uma pausa, respirando fundo. — Eu achei que fosse entrar aqui e gritar. Fugir. Mas estou... bem. Ele sorriu, aliviado. — Você está linda. — A frase escapou dele como um pensamento em voz alta. Meu rosto esquentou, o coração deu um salto desconcertado. Não me lembrava da última vez que alguém me chamou de linda sem pena nos olhos. Com verdade. — Não diga isso só para me animar. — Eu não digo nada que não sinta. Bebi um gole do café, tentando controlar a tempestade dentro de mim. Tudo estava mexendo comigo o lugar, o jeito como ele me olhava, o fato de eu estar fora do hospital... e, principalmente, o fato de eu querer estar ali. — Você pensa em sair? — ele perguntou de repente. — Digo... deixar o hospital definitivamente? Olhei para a xícara por alguns segundos. — Às vezes, penso. Mas me assusta. Lá dentro eu sei onde piso. Aqui fora... sinto que posso desabar a qualquer momento. — Desabar faz parte da reconstrução, Anastácia. Mas você não vai estar sozinha. — Eu tenho medo de confiar demais em você — sussurrei. — Medo de que você vá embora como todos os outros. Ele pareceu atingido pelas minhas palavras, mas não hesitou em responder. — Eu não sou todo mundo. E não vou embora. Se ele soubesse o quanto eu queria acreditar nisso. Na volta, ficamos em silêncio no carro. Mas era um silêncio bom. Confortável. Um silêncio que dizia mais do que qualquer conversa. Antes de sairmos do carro, ele me estendeu a mão. — Me dá esse ursinho por um minuto? Hesitei. Era meu amuleto. Minha última ligação física com o Lucas. Mas algo no olhar dele me tranquilizou. Estendi o brinquedo e observei enquanto ele tirava algo do bolso. Christian prendeu, com delicadeza, um pequeno pingente de estrela no pescoço do ursinho. Era dourado, discreto. E absolutamente simbólico. — Estrelas não morrem. Só brilham de outra forma. Você e o Lucas... vão sempre se encontrar nessa luz. Mesmo nos dias mais escuros. Segurei o ursinho de volta, apertando-o contra o peito. As lágrimas vieram silenciosas, mas não foram como antes. Não eram de desespero, mas de gratidão. — Obrigada... — sussurrei. — Por tudo. — Só estou fazendo o que meu coração manda. (...) De volta ao quarto, sentei na cama e encarei a janela. O céu estava cinza, mas não pesado. Havia algo bonito naquela tonalidade suave. Uma promessa de recomeço, talvez. Pensei na minha família. Na ausência deles. E, por um momento, desejei que minha mãe tivesse visto como eu estava hoje. Que visse que ainda existe vida em mim. Mesmo depois de tudo. Mas talvez, mais importante do que ser vista por ela... fosse ser vista por mim mesma. E hoje, pela primeira vez em muito tempo, eu me vi. Fora do hospital. No mundo. Respirando, rindo, sentindo. Lucas… você viu isso, meu amor? À noite, abri o caderno e escrevi: “Hoje saí do hospital. Com Christian. Fomos a uma livraria. Tomei café. Ri. Falei sobre você. E sobrevivi. Você continua comigo. Eu estou tentando. E acho que… estou começando a querer viver de novo.” Fechei o caderno com cuidado, acariciando o ursinho com a estrela pendurada no pescoço. E, naquele instante, senti algo dentro de mim se aquietar. Não era a ausência da dor. Era a presença da esperança.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR