capítulo 7

1156 Palavras
Narrado por Christian Já vi centenas de pacientes cruzarem os portões do hospital. Alguns voltam para casa com a alma leve, outros com a batalha apenas adormecida. Mas nenhum deles me marcou como ela. Anastácia não é apenas um caso clínico. Nunca foi. Desde o primeiro dia em que li o prontuário e vi as anotações de surto psicótico pós-traumático, algo em mim se alertou. Mas foi no primeiro olhar, naquele silêncio devastado que ela carregava, que eu soube: ela estava quebrada, mas não destruída. E agora, a mulher que m*l falava e se recusava a abrir a cortina do quarto, havia saído comigo. Tomado um café. Sorrido. Falado o nome do filho. Lucas. O nome ainda pairava na minha mente como uma benção e uma ferida. Desde que voltei do pequeno passeio com ela, não consegui parar de pensar. A reação dos outros médicos, as implicações éticas... e principalmente, os riscos emocionais para ela. Mas algo em mim já está decidido: Anastácia precisa sair daquele hospital. Nem que seja devagar. Nem que precise ser guiada passo a passo. E eu... eu estou disposto a dar cada um deles ao lado dela. Mas como propor algo assim? Como pedir a uma paciente para confiar em mim fora do hospital, para aceitar minha presença em sua vida quando tudo que ela conhece é perda e abandono? Estou no limite daquilo que um profissional pode fazer sem cruzar a linha. E sei que já cruzei. — Christian, posso falar com você? — a voz da enfermeira Juliane me tirou do devaneio. Estávamos na sala de descanso da equipe, onde eu fingia analisar alguns laudos. — É sobre a Anastácia. — Claro — larguei os papéis e olhei para ela. Juliane cruzou os braços, hesitante. — Ela realmente melhorou muito... mas não tem ninguém da família acompanhando o progresso. Isso dificulta uma alta planejada. Não há para onde ela ir, ninguém que se disponha a receber ou cuidar. Assenti, com o maxilar travado. — Eu sei. A família cortou os vínculos, disseram que ela “envergonha a memória do filho”, que “se fez de vítima”. Tive acesso às respostas da mãe e da irmã quando tentamos contato. Juliane suspirou, incomodada. — É revoltante. Mas infelizmente, precisamos pensar em alternativas. O hospital não é um lar definitivo. Se ela continuar evoluindo, vamos precisar de um plano. Olhei para ela, com a decisão martelando no peito. — E se... ela pudesse ficar comigo? Juliane me encarou como se eu tivesse acabado de dizer que ia para Marte. — Christian, você sabe que isso... — Eu sei o que isso significa. E sei que estou cruzando fronteiras — interrompi, antes que ela continuasse. — Mas ela não é só minha paciente. Anastácia não tem ninguém. E eu não estou falando de algo definitivo. Só até ela se adaptar à vida fora daqui. Ela precisa de um lugar seguro. Precisa de alguém em quem confiar. E, por alguma razão que nem eu entendo direito, ela confia em mim. Juliane apertou os olhos, me estudando. — Você está apaixonado por ela? Não respondi. Só abaixei o olhar, sentindo o coração disparar. — Pense com calma — ela disse. — Porque se isso for mais sobre você do que sobre ela, pode machucar muito os dois. Passei o resto do dia revendo cada conversa, cada olhar. Lembrei do modo como ela segurou minha mão no carro, como encostou o rosto no ursinho que carrega o nome do filho. Lembrei do sorriso tímido ao ver a estrela dourada. Aquilo não era apenas gratidão. Era confiança. Era conexão. E eu estava afundado até o pescoço nessa história. Mas não era egoísmo. Não era carência. Era o instinto de proteger. De cuidar. De dar a ela o que ninguém mais foi capaz de oferecer: um recomeço. No fim do dia, bati na porta do quarto dela. — Posso entrar? — Claro — sua voz veio mais firme do que eu esperava. Ela estava sentada junto à janela, abraçada ao ursinho, os pés descalços. O cabelo solto caía pelos ombros, e havia um brilho nos olhos que eu ainda não sabia nomear, mas me fazia acreditar que tudo era possível. — Pensei em você o dia todo — ela confessou, com um leve sorriso. Sentei na poltrona à frente da cama, um pouco mais perto do que deveria. — Eu também pensei muito em você, Anastácia. Ela se encolheu levemente, como se não esperasse essa honestidade. — Você está conseguindo dormir melhor? — perguntei. — Um pouco. Sonhei com o Lucas ontem. Ele estava brincando no quintal da casa da minha infância. Eu via só de longe, mas ele estava feliz. — Ele está em paz. E você está se permitindo sentir isso. É um avanço enorme. Ela assentiu, com os olhos úmidos. — Você acha mesmo que eu posso viver fora daqui? Suspirei, sentindo o peso da decisão me pressionar. — Acho que você precisa viver fora daqui. E não estou dizendo para sair de uma vez. Mas talvez... tentar um passo maior. Ficar em um lugar seguro, longe dos corredores brancos, das paredes frias. Um lugar onde você possa ter sua rotina, com liberdade, mas ainda com apoio. Comigo. Ela me olhou fixamente, como se tentasse entender o que eu estava dizendo. — Você está... me convidando para morar com você? Sorri de leve, sentindo o coração quase escapar do peito. — Estou oferecendo um abrigo. Nada que você não possa recusar. Mas sim... estou dizendo que, se você quiser, pode ficar comigo. Eu tenho um espaço grande, tranquilo, com jardim, silêncio, livros. E posso adaptar tudo para suas necessidades. Ela demorou a responder. Encarou o chão, depois o ursinho, depois meus olhos. — E se eu tiver uma crise? E se eu não conseguir sair da cama? Se eu gritar, se me perder de novo? Toquei sua mão com delicadeza. — Então eu vou estar lá. Para segurar sua mão. Para lembrar quem você é. As lágrimas escorreram, silenciosas, e ela não fez menção de escondê-las. — Ninguém nunca me ofereceu nada assim. Nem minha família. Muito menos depois que o Lucas... foi embora. — Eu não sou sua família, mas estou aqui. E quero estar. Por um instante, ela pareceu uma menina, frágil e com medo de acreditar. Mas então, ela se curvou levemente e encostou a testa na minha. — Eu tenho medo... mas eu quero tentar. Fechei os olhos, sentindo aquele momento se cravar em mim como um marco. — Eu estou com você, Anastácia. Um passo de cada vez. E nunca mais sozinha. Naquela noite, deixei o hospital sentindo que minha vida tinha mudado. Não por quebrar protocolos, ou arriscar minha carreira isso era apenas ruído agora. O que importava era o que tínhamos construído. Uma ponte entre a dor e a esperança. Um laço que nem o tempo, nem a perda, nem o medo conseguiram romper.
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