Narrado por Anastácia
Aceitei.
Eu disse sim.
Sim para sair do hospital. Sim para morar com Christian. Sim para viver, mesmo com o coração ainda doendo, mesmo sem saber quem eu sou fora das paredes brancas que me acolheram quando tudo em mim desmoronou.
Não dormi naquela noite.
Fiquei deitada, ouvindo os sons abafados do hospital, o ronco de uma paciente no quarto ao lado, os passos apressados da enfermeira da madrugada. E cada som me lembrava de que eu estava partindo. E que não sabia para onde ia.
Meu peito parecia um campo de batalha silencioso: esperança de um lado, pavor do outro. E entre os dois, o nome dele. Lucas.
Foi a primeira vez que pensei no meu filho sem chorar.
Foi dolorido, mas diferente. Como se uma parte de mim estivesse tentando aceitar que ele realmente não vai voltar. Que ele faz parte de mim, mesmo que eu não possa mais vê-lo.
Christian me disse que eu estava renascendo.
Eu não sei se é isso. Mas sei que algo dentro de mim está se mexendo. Como uma flor teimosa crescendo em meio ao concreto.
— Pronta? — ele perguntou na manhã seguinte, com um sorriso que tentava esconder o nervosismo.
Eu não respondi de imediato. Apenas olhei para a mochila surrada que eu arrumara com ajuda da Juliane. Quase nada dentro: algumas roupas doadas, o ursinho do Lucas e dois livros que li e reli nesses meses.
— Estou com medo — confessei, com a voz quase infantil.
Christian se aproximou devagar, como sempre fazia, respeitando o meu espaço.
— Medo é normal. Você está saindo de um lugar que se tornou sua zona de segurança. Mas o mais importante é que você não vai estar sozinha.
Assenti, mordendo o lábio.
— Eu não sei viver fora daqui. Esqueci como é.
— Eu vou te ajudar a lembrar.
E por algum motivo que eu não entendo, eu acredito nele.
Saímos pela porta da frente do hospital, e senti o sol direto no rosto pela primeira vez em semanas. Talvez meses. Fechei os olhos por instinto, mas não por dor era calor. Luz. Um começo.
O carro dele era simples, organizado. O rádio desligado, talvez para não me sobrecarregar. Ele parecia mais nervoso que eu.
— Se quiser voltar, a qualquer momento, eu trago você. Prometo.
— Não vou voltar — respondi, quase surpresa com a firmeza da minha própria voz.
Vi ele sorrir discretamente, mas logo desviou os olhos para a estrada.
Ficamos em silêncio por longos minutos. Um silêncio confortável, estranho para mim. Nos últimos meses, qualquer silêncio era um convite para os meus monstros aparecerem. Mas com Christian ali, o silêncio parecia... seguro.
— Você tem medo de mim, Christian?
Ele franziu as sobrancelhas.
— Nunca tive.
— Nem quando eu gritei? Quando tentei me machucar? Nem quando fiquei dias sem falar?
— Medo, não. Preocupação, sim. Você estava machucada. Isso não te faz menos digna de cuidado. Nem menos humana.
Engoli em seco. Aquilo doía de um jeito estranho. Um tipo de dor boa, como se alguém finalmente estivesse limpando uma ferida antiga.
— Minha mãe disse que eu era fraca. Que me entreguei à loucura. Que desonrei a memória do Lucas.
Senti os olhos arderem, mas continuei.
— A minha irmã me bloqueou de tudo. Disse que não podia me ajudar se eu não queria me ajudar.
Christian apertou levemente o volante. Acho que ele tentava conter a raiva.
— Eles não estavam preparados para sua dor. E responderam com covardia. Não é culpa sua.
— Mas dói.
— Eu sei.
E naquele momento, mesmo sem encostar em mim, senti que ele me abraçava por dentro.
A casa dele era como ele: limpa, organizada, acolhedora. O cheiro de madeira misturado com café fresco. Janelas grandes, cortinas claras, muitas plantas. Um jardim com uma cerejeira florida. Era tudo tão... vivo.
— Aqui será o seu quarto — ele apontou para uma porta no corredor, ao lado do quarto dele. — Se quiser mudar alguma coisa, só dizer. Nada aqui é definitivo.
O cômodo era simples, mas tinha uma colcha macia, uma janela com vista para o jardim e uma estante vazia, como se me dissesse: “Preencha com sua história”.
— Posso deixar o ursinho do Lucas aqui? — perguntei, quase com medo da resposta.
— Esse quarto é seu, Anastácia. Tudo que é importante para você é bem-vindo aqui.
Segurei o ursinho com mais força, como se ele me desse coragem. Coloquei-o sobre a cama, com cuidado. Pela primeira vez, ele não parecia fora de lugar.
Os dias seguintes foram... estranhamente calmos.
Christian me deixava à vontade. Não perguntava demais, mas também não se afastava. Preparava o café da manhã e me oferecia, mas não insistia. Sentava no jardim comigo. Tinha livros por toda parte, e música suave tocando em alguns momentos. Comecei a dormir melhor. Sonhei com o Lucas duas vezes. Nas duas, ele sorria.
Na terceira noite, acordei assustada, sem saber onde estava.
Respiração acelerada, suor nas mãos, o peito apertado.
— Lucas! — sussurrei, desesperada, olhando em volta.
Foi quando ouvi os passos no corredor.
— Anastácia? — a voz de Christian veio calma, baixa. — Está tudo bem?
Ele não entrou de imediato. Esperou. Eu respirei fundo.
— Pode entrar.
Ele entrou com o rosto preocupado. Sentou-se na poltrona ao lado da cama, onde tinha deixado um copo d’água.
— Pesadelo?
Assenti.
— Sonhei que ele estava preso em um lugar escuro. E eu não conseguia achá-lo.
— Isso é só o medo falando. Ele está em paz. E você está aqui, segura.
As lágrimas escorreram, mas não eram desespero. Era alívio. Ele estava ali.
— Pode... ficar aqui até eu dormir de novo?
— Claro.
Ele não tocou em mim. Apenas ficou ali, com os olhos fechados, respirando com calma. Em algum momento, dormi. Pela primeira vez, com alguém por perto.
Uma semana depois, estávamos sentados no jardim, tomando chá. O sol batia no meu rosto, e o vento balançava as flores da cerejeira.
— Posso te perguntar uma coisa? — arrisquei.
— Pode tudo.
— Por que você fez isso por mim? Me tirar do hospital... me trazer pra cá...
Ele demorou um pouco para responder.
— Porque eu vi você. Antes mesmo de você se ver. Vi que você ainda estava viva, mesmo enterrada pela dor. E eu sabia que, se alguém te estendesse a mão de verdade, você conseguiria voltar. Só precisava de alguém que não desistisse.
— E por que você? Por que não outro médico?
Ele me olhou, direto nos olhos.
— Porque, em algum ponto do caminho, não era mais apenas como médico. Era como homem. Eu me importo com você, Anastácia. Muito mais do que deveria.
Fiquei em silêncio. O coração batia forte. Mas não de medo. De alguma outra coisa.
— Você acha que um dia eu vou... amar de novo?
— Eu acho que você já está aprendendo a amar de novo. Começando por você mesma.
Olhei para ele, para aquele homem que me devolveu o mundo, e senti um calor subir pelo peito. Um calor que eu não sentia havia muito, muito tempo.
— Obrigada, Christian.
— Por quê?
— Por não me tratar como um caso perdido. Por me lembrar que eu sou mais do que a minha dor.
Ele sorriu.
— Sempre foi. Eu só te ajudei a lembrar.
Naquela noite, dormi com a janela aberta. O vento tocava minha pele como um carinho. O ursinho do Lucas estava ao meu lado. E no fundo do coração, pela primeira vez em muito tempo, senti algo que pensei ter morrido junto com meu filho.
Paz e esperança.