Narrado por Anastácia
Acordei com a luz filtrando pelas cortinas claras e por um som que me trouxe paz: o vento balançando as folhas do jardim. Por um momento, quase me esqueci de quem eu era. Não houve grito. Não houve choro. Nem o rosto do meu filho me chamando de volta para a escuridão.
Só havia silêncio e, dessa vez, ele não parecia um castigo.
Demorei alguns minutos para sair da cama. Fiquei observando o teto, sentindo a respiração leve, tentando entender o que estava acontecendo comigo. Porque algo dentro de mim estava... diferente.
Eu não sentia mais apenas dor. Havia alguma coisa se misturando a ela. Uma espécie de esperança tímida, quase imperceptível. Como um fio de luz entrando por uma janela esquecida.
E isso, de certa forma, me assustava mais do que a tristeza.
Levantei devagar, vesti uma blusa de lã, desci as escadas e encontrei Christian na cozinha. Ele fazia café, concentrado, de avental, o cabelo bagunçado e a barba por fazer.
Ele estava tão bonito que me peguei sorrindo como uma adolescente. i****a. Imatura.
Mas eu sorri.
— Bom dia — disse, sem que minha voz tremesse.
Ele se virou, surpreso. E sorriu de volta.
— Bom dia, Ana. Dormiu bem?
Assenti. Ele serviu o café e colocou uma fatia de bolo no meu prato.
— Fez de novo o de laranja com calda de limão?
— Você gostou, não foi?
— Eu amo. Minha avó fazia — respondi, sentando à mesa.
Ele parou por um instante. E depois disse, com a voz baixa:
— É a primeira vez que você fala de alguém da sua infância.
Foi aí que percebi: eu realmente tinha falado. Naturalmente. Sem medo.
Christian se sentou ao meu lado, mas respeitando meu espaço, como sempre fazia. Aquela distância segura tão segura que doía.
Tomamos café em silêncio, mas era um silêncio leve. Eu sentia vontade de perguntar como tinha sido o dia dele ontem. O que ele tinha sonhado. Se ainda pensava em mim quando se deitava à noite.
E então me dei conta da pergunta mais importante: eu pensava nele quando me deitava?
Sim.
A resposta era clara. Eu pensava nele. Muito mais do que devia.
Passei a manhã no jardim, desenhando. A tela ainda era da árvore com o Lucas dormindo nos galhos, mas eu começava a adicionar mais cores. Flores. Um sol tímido atrás das folhas.
Christian me observava pela janela. Eu sentia. Sempre sentia. Mas ele nunca invadia o meu espaço. E isso me fazia querer que ele invadisse. Que se aproximasse mais. Que me tomasse em seus braços e dissesse que eu estava salva. Que tudo tinha acabado.
Mas não era tão simples assim.
Dentro de mim, havia um medo que resistia a ir embora. O medo de ser amada e, mais ainda, o medo de amar de volta. Porque amar significava se abrir. E se abrir significava correr o risco de perder de novo.
E eu já sabia como era perder tudo.
Naquela tarde, tive coragem de perguntar:
— Christian... por que você faz isso?
— Isso?
— Me acolher. Me proteger. Me dar tanto... sem receber nada.
Ele me encarou, firme, mas com ternura.
— Porque você merece. Porque ninguém te protegeu quando mais precisava. Porque você foi jogada no escuro... e eu só quero te dar um pouco de luz.
Meus olhos arderam.
— E se eu nunca conseguir devolver isso?
— Não estou aqui pra receber nada. Estou aqui pra te ver viver. Só isso já vale tudo.
Olhei para ele por um longo tempo. Havia tanta verdade naqueles olhos castanhos. Tanta paciência. Tanta dor também. Como se ele carregasse suas próprias perdas, suas próprias cicatrizes.
Foi aí que me aproximei e encostei a cabeça no ombro dele.
Ele congelou por um segundo. Depois, repousou a mão nas minhas costas com delicadeza.
Ficamos assim por muito tempo.
Sem precisar dizer nada.
Naquela noite, dormi com um peso diferente no peito. Um peso doce. Familiar. Como a saudade de algo que você ainda não viveu.
Sonhei com o Lucas.
Mas dessa vez, ele não chorava. Ele sorria. Estava de mãos dadas comigo... e com Christian. Nós três caminhávamos por um campo de flores. O céu era lilás. O vento era leve.
Acordei com lágrimas no rosto. Mas não de dor.
De alívio.
Levantei e fui até a sala, e lá estava Christian, lendo, como sempre. Ao me ver, ele largou o livro imediatamente.
— Sonhei com ele denovo— disse, antes que a coragem me faltasse.
— Com o Lucas?
Assenti.
— Ele estava em paz — acrescentei. — E você estava lá também.
Christian não falou nada. Apenas se aproximou e tocou minha mão. Depois, disse:
— Você está se curando, Ana.
— E isso me dá medo.
Ele franziu o cenho.
— Por quê?
— Porque curar significa seguir em frente. E seguir em frente significa deixá-lo para trás. E eu não quero que ele pense que o esqueci.
Ele apertou minha mão.
— Seguir em frente não é esquecer. É carregar. De outro jeito.
— E se eu cair de novo?
— Eu vou estar aqui pra te levantar.
O mundo parou por um segundo. Meu coração disparou.
— Por quanto tempo?
Ele me olhou como se a resposta fosse óbvia.
— Pelo tempo que você me permitir.
E foi naquele instante que eu soube.
Eu estava me apaixonando por ele.
Pelos gestos. Pela paciência. Pelo jeito como ele fazia café. Pela forma como me olhava sem me julgar. Pelo modo como me ouvia. Pelo silêncio entre nós que nunca era vazio.
Mas amar de novo... Deus, como isso me dava medo.
Medo de não ser suficiente. Medo de ser um fardo. Medo de que ele apenas me visse como uma mulher quebrada que precisava de conserto.
E se ele só estivesse ali por culpa?
E se ele estivesse apenas preenchendo um vazio?
Na manhã seguinte, decidi me arriscar. Preparei o café. Eu. Com minhas mãos. Queimando o pão e errando a dose do açúcar, mas tentando. Queria mostrar que também podia cuidar.
Quando ele desceu, sorriu surpreso.
— Fez café?
— Fiz. Mas não garanto que esteja bom.
Ele provou e fez uma careta.
— Está horrível. Mas é o melhor café que já tomei.
Rimos juntos. E naquele riso, havia algo novo. Quase uma dança.
— Christian — sussurrei, séria. — O que somos?
Ele me olhou nos olhos. Demorou a responder.
— Somos o que você quiser ser. No tempo que você precisar.
Minha garganta fechou. Eu queria dizer que o queria. Que estava pronta. Que tinha medo, mas queria tentar. Que ele era o homem mais lindo e bom que já conheci.
Mas a voz não saiu.
Ele entendeu.
Apenas tocou minha mão outra vez. Sem pressa. Sem pressão.
E eu soube que, quando eu estivesse pronta... ele estaria ali.
Me esperando.