Pré-visualização gratuita Capítulo 1: Romeo
(11 Meses Antes)
O Palazzo Rossi não me pertencia mais.
Desde que a comitiva de Trapani cruzou os portões de ferro, a casa virou um quartel. Os guardas do meu pai patrulhavam as entradas, a Capocuoca Silvana Bellagamba gritava ordens na cozinha e o Don Vittorio ocupava a cadeira do meu escritório.
Eu caminhei pelos tapetes grossos em direção à minha suíte, sentindo o cansaço pesar na nuca. Os músculos do meu pescoço estavam rígidos.
A madrugada tinha sido longa. Os gritos dos homens de Autoleon no porão ainda ecoavam na minha cabeça. O som da carne sendo punida.
O cheiro de ferro e suor frio impregnado nas paredes de pedra. Meu pai extraiu a verdade com as próprias mãos. Eu fiquei lá, assistindo, validando a posição de Capo que eu ostentava, mas que naquele momento parecia vazia.
E no meio de tudo isso, Dante estava longe. Livre.
Eu cobri a fuga dele. Eu indiquei a rota, entreguei as chaves do carro velho e limpei a rua para que ele levasse Emanuele para a Masseria nas montanhas de Enna. Meu irmão mais novo dormia a salvo com a mulher dele, longe de qualquer acordo com a Calábria.
Eu fiquei para trás para lidar com a fúria do Don.
Passei a mão pelo rosto e afrouxei o nó da gravata enquanto empurrava a porta dupla do meu quarto. A minha vida nos últimos meses se resumia a isso. Cobrir rastros, evitar problemas maiores e engolir a minha própria autoridade em silêncio.
Fazia tempo que eu não tinha uma distração. Desde que Emanuele arrastou Sara nua para o pátio e a humilhou na frente dos nossos soldados.
Sara era a secretária que eu coloquei no caminho do meu irmão para arruinar o casamento dele e acabou expulsa da nossa casa aos prantos. Me vingar de Dante? Sim, ele tinha quebrado meu nariz em duas partes, mas essa raiva já passou.
Tanto que, como eu disse, eu ajudei ele a fugir do meu pai, que cogitou em dar a esposa dele para outro porque eles se recusavam a consumar o casamento por causa de um acordo i****a.
O fato era que eu perdi o interesse em trazer qualquer outra mulher para a minha cama depois do escândalo com a Sara. A minha mente estava focada demais na tensão dentro da Famiglia.
Entrei no quarto, a luz do abajur estava acesa.
Parei na soleira. O ambiente não estava vazio.
Havia uma mulher de costas para a porta. Ela usava o uniforme preto e branco de algodão grosso das criadas de Trapani. Ela esticava o lençol claro sobre o meu colchão, alisando o tecido com as mãos enluvadas.
O barulho da porta encostando atrás de mim a assustou.
Ela deu um pulo e se virou rapidamente. O rosto dela ficou pálido. Os olhos escuros se arregalaram por uma fração de segundo antes de ela abaixar a cabeça e curvar os ombros.
— Scusa, signore. (Desculpa, senhor.) — A voz dela era baixa, mansa. — Disseram que o senhor não subiria tão cedo. Achei que daria tempo de preparar o quarto.
Ela apertou as mãos na frente do avental. Era uma das funcionárias que vieram nas vans com a minha avó. Carmem, lembrei do nome depois de forçar a memória.
Eu devia mandá-la sair. O meu limite de tolerância para qualquer pessoa perto de mim estava zerado.
Mas eu não disse nada.
Caminhei até a poltrona de couro perto da janela e me sentei na beirada. Tirei o paletó e o joguei sobre o móvel. Desabotoei o colarinho da camisa, sentindo o ar frio da noite bater no meu pescoço.
— Termine o que está fazendo — falei, encostando a cabeça para trás.
Ela assentiu, os olhos fixos no chão de madeira, e voltou para a cama.
O quarto ficou mergulhado apenas no som do tecido sendo puxado e esticado.
Eu fiquei observando. A cena prendia a minha atenção de um jeito estranho.
Os movimentos dela eram precisos e silenciosos. O cabelo escuro estava preso em um coque firme, sem fios soltos. O uniforme era largo, feito justamente para esconder o corpo das funcionárias, mas a forma como ela se inclinava sobre o colchão fazia o tecido repuxar na cintura e nos quadris.
Ela tinha curvas bem desenhadas.
Claro que eu não podia deixar de reparar.
O dia inteiro eu lidei com homens de terno, com armas carregadas e com as poças no piso do porão. A minha própria casa estava cheia de tensão. E ali, a poucos metros de mim, havia uma mulher cuja única preocupação era deixar o meu lençol sem dobras.
Ela não contestava. Ela não planejava nada. Ela apenas obedecia e limpava a bagunça.
Senti um repuxo de curiosidade física surgir na boca do estômago. O cansaço ainda estava nos meus ossos, mas a presença inofensiva dela ativou algo diferente.
Ela terminou de dobrar a ponta do edredom e ajeitou os travesseiros. Pegou o cesto de vime com as toalhas usadas do meu banheiro e caminhou em direção à porta, passando a poucos passos de onde eu estava sentado.
Ela parou a uma distância segura, mantendo a cabeça baixa.
— Com licença, signore. Boa noite.
Antes de girar a maçaneta, ela hesitou. O queixo dela se ergueu um centímetro. Ela olhou para mim.
Os olhos dela cruzaram os meus. Não havia desafio, apenas um contato rápido e direto. Durou um segundo antes de ela abaixar o rosto de novo e sair para o corredor.
A porta se fechou sem fazer nenhum barulho.
Fiquei sozinho na poltrona. O cheiro de sabão de lavanderia e amaciante que ela deixou no ar substituiu o odor r**m que me perseguiu o dia todo.
Levantei devagar. Fui até a cama perfeitamente arrumada e passei a mão sobre o tecido frio. A imagem da criada de olhar submisso continuava na minha mente enquanto eu ia para o chuveiro.