Capítulo 45: Romeo

742 Palavras
(7 Meses Antes) Nem uma semana havia se passado direito desde a explosão no centro de Palermo. O cerco da polícia continuava apertado, mas nós já havíamos estabelecido uma rotina de contenção de danos dentro do Palazzo Rossi. Os advogados seguravam os mandados, e o porto operava sob vigilância extrema. A madrugada já avançava quando me sentei na cadeira de frente para a mesa do meu pai. O assunto principal ainda era o desastre que tínhamos sob o nosso próprio teto. — Tranque Rocco nas celas do subsolo — Don Vittorio ordenou, o tom seco, sem margem para debate. — Ele está confinado nos quartos da Ala Norte, mas o desespero faz os homens cometerem erros. Se ele tentar fugir e a polícia o pegar, a nossa organização inteira cai junto. — E depois? — Perguntei, cruzando os braços. — Nós não podemos mantê-lo no porão para sempre. — Quando as investigações esfriarem e esconder um corpo não for um risco tão iminente, nós o matamos — o Don sentenciou. O rosto dele não demonstrou nenhuma hesitação ao descartar a vida do ex-Sottocapo. — A família Martinus é antiga na nossa organização — pontuei, avaliando as repercussões políticas. — Eles não vão engolir a execução de um dos seus membros principais com facilidade. Vittorio encostou as costas na cadeira de couro. O olhar que ele me lançou era frio e cortante. — Você já enterrou homens o suficiente sem se importar com as famílias deles, Romeo. Não comece a agir como um diplomata frouxo agora. Os Martinus que chorem a perda do maior fracasso que já colocaram no mundo. Eu ia responder, mas o toque agudo cortou o ambiente. Era o Telefone Vermelho. Olhei para o aparelho. Pouquíssimas pessoas ousavam usar a linha direta criptografada, e menos ainda o fariam àquela hora da madrugada. Mario, que estava encostado perto das portas duplas de mogno, endireitou a postura. Vittorio pegou o fone no segundo toque. — Pronto — ele atendeu, inabalável. Houve uma pausa do nosso lado. Fiquei observando as feições do Don, tentando ler o que quer que estivesse sendo dito na outra ponta da ilha. — Dante — meu pai reconheceu a voz. Não houve tempo gasto com cordialidades ou perguntas sobre o bem-estar deles. — Do que precisa? A sala ficou muda novamente. A resposta do meu irmão deve ter sido direta e curta, porque as sobrancelhas grossas de Vittorio se juntaram em um vinco de surpresa momentânea. — O meu motorista? — O Don repetiu. Ele ficou em silêncio por mais um instante, ouvindo a justificativa que vinha do leste. Seja lá qual foi o argumento de Dante, ele atingiu o alvo com perfeição. Vittorio não contestou. A decisão foi tomada na mesma fração de segundo. — Ele estará aí amanhã de manhã. Meu pai desligou o telefone e colocou o aparelho de volta na base. Ele levantou o rosto e olhou diretamente para o homem que guardava a porta do escritório. — Mario — Vittorio chamou. O segurança deu um passo à frente. — Sì, Don. — Arrume as suas coisas. Você parte para Messina agora mesmo. — Houve algum problema com o Signor Dante? — Mario perguntou, a voz grave. — Dante está sentado à mesa com Vincenzo Farao para negociar o dote daquela assassina da casa Marino — Vittorio explicou, a raiva contida marcando o maxilar. — O calabrês acha que nós estamos fracos por causa da crise em Palermo. Vincenzo, o noivo, pediu que Dante convidasse alguém de confiança para agilizar as negociações e assinar os papéis do casamento. — Mas isso não pode acontecer — falei. — Claro que não — o Don pousou o punho fechado sobre a mesa. — Mas Vincenzo espera um advogado, alguém que possa ser intimidado. Dante quer você, Mario, e você não dará o meu Beneplácito de forma alguma para aqueles usurpadores. Você e Dante devem procurar um meio de acabar com esse noivado e arrastar Aurora Marino para Trapani o mais rápido possível. Quando contivermos essa crise, a Cúpula se reunirá em Palermo para julgar a assassina. Não deixe Dante fracassar. A mensagem flutuou pelo ar. Meu irmão nunca esteve negociando a paz com a ‘Ndrangheta; ele estava se preparando para a carnificina. E precisava do cão de caça mais fiel do nosso pai para garantir que sairia de Messina vivo. — Entendido — Mario confirmou. — Estarei na estrada em dez minutos.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR