(7 Meses Antes)
Os dias passavam se arrastando. Dividir a longa mesa de reuniões do Palazzo Rossi com o meu irmão caçula era uma mistura contínua de alívio e aborrecimento.
Ter o Sottocapo de volta para dividir o fardo administrativo era essencial, mas Dante continuava ranzinza, fechado e de poucas palavras. A nossa convivência noturna era áspera.
A cidade estava infestada de cães farejadores de Roma. Nós passamos os últimos dias trancados naquela sala em reuniões intermináveis com advogados e contadores.
Não podíamos dar um passo nas ruas de Palermo sem um flash de câmera ou um distintivo por perto. A limpeza da sujeira que Rocco deixou estava demorando muito mais do que o previsto.
O meu nível de estresse raspava no limite. A minha mente vagueava para longe das fotos de vigilância e dos mandados judiciais, focando na falta que Carmem fazia.
Eu sentia a ausência dela fisicamente. A irritação de não ter a minha funcionária para dissipar o tensão acumulado me deixava com os nervos completamente expostos.
O celular pessoal de Dante tocou em cima dos papéis, quebrando a concentração. Ele atendeu de imediato.
Não colocou no viva-voz, mas a quietude da madrugada na casa facilitava as coisas. Levantei da minha cadeira e caminhei até a ponta da mesa onde ele estava, sob o pretexto de buscar uma pasta de contratos.
Cheguei perto o suficiente para captar o áudio que vazava do aparelho.
Ouvi a voz da brasileira do outro lado da linha. Ela já falava italiano perfeitamente e o seu relato era tenso. Aurora havia armado uma emboscada na Tenuta Rossi.
Houve uma briga física pela arma que Dante deixou com a esposa. A Beretta disparou, varando a porta de carvalho. A bala atingiu a irmã mais nova, Caterina Marino estava com a medula destruída, paraplégica.
Dante encerrou a chamada. O maxilar dele estava duro como pedra. Ele levantou os olhos verdes e me encarou, aguardando a provocação costumeira.
Eu não o decepcionei.
— Você tomou uma excelente decisão ao deixar uma arma carregada nas mãos da sua esposa, Dante — comentei, a voz banhada em uma acidez polida. — Graças a isso, nós agora temos uma aleijada para carregar e sustentar.
A fúria dele estourou. Dante avançou contra mim, os músculos do pescoço retesados e o punho direito fechado. Ele estava pronto para quebrar o meu rosto ali mesmo.
Eu não recuei um único milímetro. Levantei o queixo, esperando o impacto. A dor física seria uma distração muito bem-vinda para a minha própria frustração.
No último segundo, Dante freou o próprio instinto. Ele abaixou a mão e engoliu a raiva que sentia. Virou as costas de forma brusca e saiu da sala de reuniões a passos pesados, batendo a porta.
Fiquei sozinho no meio da papelada espalhada.
O veneno que eu cuspi não surtiu nenhum efeito real sobre mim. Provocar o meu irmão sempre me trouxe uma diversão arrogante no passado, mas agora a sensação era completamente nula.
Não senti nenhuma satisfação com a ofensa. A única coisa que eu realmente queria naquela madrugada não era vencer uma discussão com Dante; era ter Carmem ali para anestesiar a minha mente.