Isabela narrando Fui indo limpar a cozinha quase no automático, como se o meu corpo soubesse o que fazer mesmo quando a minha cabeça ainda estava em pedaços. Cada passo doía, cada respiração parecia raspar por dentro das costelas, mas eu não queria ficar parada. Ficar parada significava pensar demais, e pensar demais naquela hora era perigoso. Meu irmão veio logo atrás, em silêncio, com o rosto fechado, carregando um balde e alguns panos. A gente não precisou combinar nada. Só começamos. O chão ainda estava manchado de sangue, a pia, a lateral do armário. Aquilo me deu um nó no estômago. Não era só sujeira. Era prova de tudo que tinha acontecido ali dentro. Eu molhei o pano, torci com dificuldade e passei devagar pelo chão. Cada vez que o pano ficava vermelho de novo, meu peito apertava.

