A QUEDA SILENCIOSA
Olivia não ouviu os aplausos,não ouviu a música cessar, não ouviu as vozes ao redor, o mundo havia se reduzido a um único ponto.
E aquele ponto… era dor.
Ela permaneceu parada por alguns segundos depois que saiu do centro da pista, como se o corpo ainda não tivesse entendido que precisava se mover, mas quando entendeu, ela andou, lenta, controlada, como se cada passo fosse calculado para não deixar ninguém perceber que ela estava desmoronando por dentro.
O vestido arrastava pelo chão, pesado, sufocante, ela queria arrancá-lo, queria desaparecer, queria não existir, mas continuou andando, passou por mesas, por olhares curiosos, por sorrisos m*l disfarçados,alguns cochichavam, ela sabia, sentia cada olhar de deboche, de pena, de ironia que lhe era dirigido.
— Coitada…
— Nem a primeira dança…
— Capón nem esconde…
Ela apertou os punhos, com força, as unhas cravando na palma da mão, raiva, era isso, a dor estava virando raiva, uma raiva quente.
Viva.
Que subia pelo peito e queimava a garganta, ele fez isso de propósito. Claro que fez. Eros Capón não fazia nada sem intenção.
Ele queria humilhar.
Queria mostrar para todos.
Queria deixar claro que ela não era nada.
Que aquele casamento…
Não significava nada.
Que ela…
Não significava nada.
Olivia parou por um segundo perto de uma coluna, respirou fundo, mas o ar não vinha, o peito apertava, as lágrimas queriam voltar, mas ela aguentou firme, sem deixar cair.
Não ali, não na frente deles, ela ergueu o queixo.
— Eu não vou quebrar… — murmurou baixo.
Mas a voz falhou, porque, no fundo…
Ela já estava quebrada, ela virou, e caminhou para fora do salão, sem olhar para trás, sem procurar ninguém, sem esperar nada.
Apenas…
Foi embora.
Eros ainda estava no meio do salão quando percebeu, algo estava errado, ele não soube dizer o quê exatamente, mas sentiu, foi como um silêncio repentino dentro dele, ele soltou Amália, sem aviso.
— Eros?
Ela franziu a testa, mas ele não respondeu.
Os olhos dele já estavam procurando.
Instintivamente, automaticamente.
Olivia.
Mas ela não estava mais lá, o ponto de luz no meio da escuridão, tinha desaparecido, o peito dele apertou, forte, irritante, inexplicável, ele girou o olhar pelo salão.
Uma vez, duas, nada.
— Onde ela está? — perguntou, a voz baixa.
Amália cruzou os braços.
— Foi embora.
— Pra onde?
— Não sei — respondeu com indiferença, e sinceramente, não me importa.
Mas Eros já estava andando, passos rápidos, determinados.
Ele não gostava de não saber onde algo estava.
Muito menos quando esse “algo” era…
Ele travou o pensamento.
Não.
Ela não era nada.
Só precisava ser encontrada. Controle, era sobre controle, sempre foi, mas antes que pudesse sair do salão, uma mão firme segurou seu braço.
— Eros.
Ele parou, devagar, já sabendo quem era, Domingo Capón, o pai, o verdadeiro dono daquela casa, Eros virou lentamente.
— Solta.
Mas Domingo não soltou, o olhar dele era duro, frio, cheio de algo mais profundo.
Ódio antigo.
— Vai atrás dela depois — disse — agora você fica.
Eros sustentou o olhar.
— Eu disse solta.
Domingo finalmente soltou, mas não recuou.
— Você esqueceu o que estamos fazendo aqui?
— Não.
— Então comece a agir como se lembrasse.
O silêncio entre eles ficou pesado.
— Ela é só uma peça — continuou Domingo — e você está tratando como se fosse mais.
— Não estou.
— Está sim.
Eros deu um passo à frente.
— Fala logo o que quer.
Domingo sorriu, um sorriso frio.
— Quero que você termine o que começamos.
Eros não respondeu.
— Você sabe o que deve fazer — continuou o pai — essa noite é só o começo.
O olhar de Domingo escureceu.
— Você vai quebrar ela.
As palavras vieram pesadas.
Cruéis.
— Vai tirar tudo dela, faça ela sofrer na noite de núpcias.
Eros manteve o rosto neutro, mas algo dentro dele tensionou.
— E quando terminar…
Domingo se aproximou um pouco mais, a voz mais baixa, mais perigosa.
— Quando comprovar que ela não é mais virgem, com certeza não é, sendo tão bonita ja deve ter tido outros homens.
Eros ficou imóvel.
— A cúpula não vai mais interferir. Eles só proibiram a morte, por ela ser nova, intocada, mas quando comprovamos, eles não terão desculpas.
O olhar dele era gelado.
— Depois disso…
Um pequeno sorriso.
— Ninguém vai impedir, vamos matar
Eros entendeu, perfeitamente.
— Você quer matar ela.
— Eu quero justiça, minha fimha pela filha dele.
— Isso não é justiça.
Domingo riu baixo.
— Foi isso que você disse quando minha filha morreu?
O golpe foi direto, Eros não respondeu.
— Ela era só uma criança, minha menina.
Eros desviou o olhar por um segundo.
E isso foi suficiente.
— Você está hesitando — Domingo afirmou.
— Não estou.
— Está.
O silêncio se estendeu.
— Você esqueceu o que ela representa.
— Não esqueci, sei de tudo.
— Então prove.
As palavras caíram como ordem.
— Faça o que precisa ser feito.
Eros respirou fundo, lento, controlado.
— Eu sei o que fazer.
Domingo o observou por alguns segundos.
Tentando ler algo, mas Eros já estava fechado novamente, frio, impenetrável.
— Ótimo — disse por fim — porque eu não vou esperar.
Ele se afastou, deixando Eros sozinho.
Eros ficou parado por alguns segundos, o salão continuava vivo, música, risos, conversas.
Mas para ele… Nada daquilo existia, apenas uma coisa. Ela. Ele virou e saiu, passos rápidos, firmes.
Os corredores da mansão estavam mais silenciosos agora, as luzes mais baixas.
As sombras mais longas.
— Olivia.
Nada, ele abriu uma porta, nada, outra, nada, o quarto, vazio, a sacada, vazia, o jardim escuro, silencioso, nada.
A irritação começou a crescer.
Rápida.
Afiada.
— Onde você está maldita…
Ele passou a mão pelo rosto, respirando fundo, tentando manter o controle, mas estava perdendo. Eros Capón não perdia o controle. Nunca. Mas aquela noite… Aquela garota. Estava começando a bagunçar tudo.
Ele caminhou até o final de um corredor.
Parou, olhou ao redor, silêncio, frio, vazio, pela primeira vez em muito tempo…
Ele não tinha resposta.
E aquilo…
Aquilo era perigoso.
Muito perigoso.