PREPARAÇÃO
Os dias que antecediam o casamento transformaram a mansão Capón em algo ainda mais sufocante, a casa sempre fora grande demais, silenciosa demais, cheia de corredores que pareciam guardar segredos nas paredes de pedra escura, mas agora havia algo diferente no ar. Uma tensão constante, como se cada pessoa ali estivesse esperando o momento certo para atacar.
E Olivia sentia isso em cada passo, nada era dito diretamente, mas tudo era claro, os olhares, os sussurros.
As portas que se fechavam quando ela passava, ela não era bem-vinda, e ninguém fazia questão de esconder, as empregadas eram frias, os homens da segurança a observavam como se ela fosse um animal estranho que havia entrado no território errado. Até os próprios membros da família Capón pareciam tratar sua presença como uma afronta.
Era exatamente o que Amália queria.
Amália não era burra. Muito pelo contrário. Ela havia crescido naquele mundo, aprendendo cedo que destruir alguém raramente exigia violência direta.
Bastava empurrar a pessoa lentamente para fora de qualquer lugar onde pudesse respirar, ela começou pequeno, as roupas de Olivia sumiam.
Algumas peças eram devolvidas manchadas, rasgadas discretamente, como se fossem acidentes. As criadas diziam não saber de nada. Os seguranças fingiam não ouvir quando Olivia chamava.
Uma noite, o jantar foi servido para todos.
Menos para ela.
— Deve ter sido esquecimento — disse uma das empregadas, sem nem olhar em seu rosto.
No dia seguinte, o vestido que havia sido separado para uma prova do casamento simplesmente desapareceu, Amália observava tudo de longe, sempre elegante, sempre tranquila, como uma cobrança ardilosa.
— Talvez você não esteja acostumada com casas grandes — comentou certa tarde, cruzando com Olivia no corredor — coisas se perdem facilmente.
Olivia a encarou.
— Pessoas também. — respondeu.
Amália sorriu.
— Algumas desaparecem para sempre.
Olivia não respondeu.
Mas algo dentro dela estava começando a se quebrar.
Não por medo, por cansaço, ela não tinha aliados naquela casa, nem mesmo o próprio pai.
Carlos Dante havia sumido, questionou Eros, mas ele a ignorava como sempre.
A culpa o devorava, sabia a dor do seu pai, Olivia sabia. Sabia que se ela perguntasse demais, procurasse demais pelo pai, poderia ser o fim dele, por isso se mantinha sempre calada, esperando com esperança que ele encontrasse uma solução, que a tirasse de Eros.
Também sabia que estava ali por causa dele, mas isso não tornava mais fácil respirar dentro daquelas paredes, foi numa tarde silenciosa que ela encontrou o piano.
A sala ficava em uma parte mais afastada da mansão, um espaço amplo com janelas altas que deixavam entrar uma luz suave do final da tarde. Ali havia uma biblioteca, alguns móveis antigos e, no centro do ambiente, um piano de cauda n***o.
Grande.
Imponente.
Perfeito.
Olivia parou na porta, o coração apertou, ela não tocava desde o dia da tentativa de fuga, desde antes de tudo desmoronar, por um instante pensou em ir embora.
Mas os pés não obedeceram, ela caminhou devagar até o instrumento, passou os dedos sobre a madeira polida, o reflexo dela apareceu ali, olhos de cores diferentes. Eram de fato algo que não infância sofreu um pouco, por causas das outras crianças que diziam ser anormal, mas conforme passava os anos, foram se acostumando, e alguns dizem que é bonito, mas ela não. Sempre achou estranho, por algum tempo até usou lentes para esconder. Mas seu pai a proibiu de esconder, dizendo ser parte dela, e que era lindo.
Mas agora só via um rosto cansado demais para alguém de dezoito anos.
— Você também está preso aqui, não é? — murmurou para o piano.
Sentou-se, ficou alguns segundos olhando para as teclas, então começou a tocar, no começo, hesitante.
Como alguém que reaprende a respirar depois de ficar muito tempo submerso, mas então algo dentro dela se abriu, a música saiu.
Não delicada, não perfeita, saiu desesperada.
Notas rápidas, intensas, carregadas de emoção crua. Como se cada tecla pressionada fosse um grito preso em seu peito.
A melodia cresceu, preencheu a sala.
Subiu pelos corredores da mansão, era linda, mas também dolorosa, Olivia tocava como se aquilo fosse a única coisa que ainda a mantinha inteira.
Os olhos estavam fechados agora, lágrimas silenciosas escorriam pelo rosto, a música falava por ela, falava da perda, do medo, da raiva, da sensação de que sua vida estava sendo arrancada pedaço por pedaço.
Eros Capón ouviu a música do outro lado da casa, ele estava no escritório, analisando documentos relacionados às operações do porto, quando as primeiras notas chegaram até ele.
Ele parou, a testa franziu, aquela música não era comum naquela casa, nenhum som era comum naquela casa.
Ele se levantou, caminhou pelos corredores seguindo o som, cada passo que dava fazia a melodia ficar mais clara.
Mais intensa, quando chegou à porta da sala, parou, Olivia não o viu, ela estava completamente perdida na música, a cabeça levemente inclinada, os dedos voando sobre as teclas.
A expressão carregada de emoção, era como assistir alguém lutando para não se despedaçar.
Eros ficou imóvel. Observando.
Algo apertou dentro do peito dele de um jeito que não reconheceu imediatamente.
Obssessão, curiosidade, ou algo ainda mais perigoso, ele havia imaginado Olivia quebrada, chorando, implorando, mas aquilo…
Aquilo era diferente.
Ela estava sofrendo, mas ainda estava inteira.
E aquilo tornava tudo mais complicado.
O olhar dele desceu para os dedos dela, pequenos, delicados, mas firmes, os mesmos dedos que ele havia tocado quando limpou o ferimento em seu lábio.
Ele lembrou da sensação, estranhamente tranquila, a música terminou abruptamente, Olivia abriu os olhos.
Respirou fundo.
E só então percebeu que não estava sozinha.
Eros estava parado na porta, observando, o silêncio que veio depois foi pesado.
— Não sabia que essa casa permitia música. — disse Olivia, limpando discretamente as lágrimas.
Eros não respondeu imediatamente, ele ainda estava olhando para ela, como se estivesse vendo algo novo.
— Você toca bem. — disse finalmente.
— Tocava melhor antes.
Ele entrou na sala.
— Antes de quê?
Olivia riu, um riso curto, amargo.
— Antes da minha vida acabar.
Ele parou a poucos passos dela.
— Sua vida não acabou.
Ela o encarou.
— Não?
— Não.
— Então isso aqui é o quê? — perguntou, gesticulando para a mansão — férias?
Eros não respondeu, oor um momento apenas ficou olhando para ela, observando cada detalhe, os olhos diferentes, tão lindos que chegava a doer. Até seu olho r**m reconhecia tamanha beleza.
O curativo no lábio, o cabelo levemente bagunçado, a tristeza evidente, e algo dentro dele começou a mudar.
Ele ainda queria destruir Carlos Dante.
Ainda queria fazer o homem pagar por tudo.
Mas Olivia…
Ela estava começando a ocupar espaço demais em sua mente, Eros se aproximou do piano.
Encostou uma mão na madeira escura.
— Continue tocando — disse.
Olivia franziu a testa.
— Por quê?
— Porque quero ouvir.
— Se eu não quiser?
— Farei com que queira.
— Como?
— Quer tocar, ou que eu te toque aqui, em cima desse piano?
Ela o encarou por alguns segundos, o tom dele não parecia hesitar.
Então voltou a olhar para as teclas, respirou fundo. E começou a tocar novamente.
Eros ficou ali, observando.
Sem perceber que, pouco a pouco, a garota que deveria ser apenas uma peça de vingança estava se transformando em algo muito mais perigoso, uma fraqueza.
E fraquezas eram algo que Eros Capón nunca se permitia ter.
Do outro lado do corredor, Amália também ouvia a música.
E o ódio que crescia dentro dela era quase palpável, porque ela não reconhecia aquele olhar.
Eros Capón estava começando a olhar para Olivia Dante de um jeito que nunca havia olhado para ninguém.
E Amália não permitiria que aquilo continuasse, a guerra dentro daquela casa estava apenas começando.