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1294 Palavras
A FERA E A FERIDA A mansão Capón finalmente silenciou, horas antes, o salão principal havia sido um teatro de poder, luxo e humilhação. Música, champanhe caro e alianças perigosas circulavam entre homens que carregavam sangue nas mãos e sorrisos nos lábios. Agora restava apenas o eco distante de passos de seguranças e o vento batendo contra as grandes janelas da propriedade, Eros Capón ainda não dormia. Ele estava sozinho em seu escritório, sentado na poltrona de couro escuro, os cotovelos apoiados nos joelhos, um copo de uísque quase vazio entre os dedos. O gelo já havia derretido. Ele não lembrava quando tinha parado de beber, seu olhar estava distante, mas sua mente não, osom da bofetada ecoava repetidamente em sua cabeça. A imagem dela no chão, tão frágil, tão linda buscando ele como salvador. Só que esse não era ele, Eros Capón não salvava ninguém, so tomava. O sangue escorrendo por sua boca linda, era uma laranja dificil de engolir e ele nem sabia o porque. Eros apertou o copo com força. Não deveria ter importado. Ela era apenas uma peça. A filha do homem que destruiu sua vida. A garota que serviria para quebrar Carlos Dante por completo. Nada mais. Ainda assim… Algo havia se movido dentro dele quando viu o sangue no lábio dela. Ele terminou o uísque de uma vez. Levantou-se, caminhou até o corredor silencioso da mansão. Seus passos eram silenciosos, como os de um predador acostumado a se mover no escuro. Ele parou diante da porta do quarto de Olivia, ficou ali alguns segundos, imóvel, sem saber exatamente por quê, então abriu a porta. O quarto estava iluminado apenas pela luz suave que entrava pelas janelas altas. Olivia dormia. O corpo pequeno encolhido na cama grande demais para ela. O cabelo espalhado pelo travesseiro como um halo escuro. E os olhos fechados. Aquela criatura impossível, um verde, um azul. Ele se aproximou devagar. Observando. Ela parecia mais jovem dormindo. Mais vulnerável. Mais distante daquela garota que havia enfrentado Amália diante de todos. O lábio ainda estava machucado, m*l limpo. Um corte fino, mas profundo o suficiente para ter deixado sangue seco na pele. Eros franziu levemente a testa, descuido. Ele não gostava de descuido, virou-se e caminhou até o banheiro, minutos depois voltou com uma pequena caixa de primeiros socorros, algodão e um frasco de antisséptico. Sentou-se na beira da cama. Por um instante apenas ficou olhando. O que diabos estou fazendo? Ele não respondeu à própria pergunta, molhou o algodão. Então, com cuidado inesperado, tocou o lábio ferido dela. Olivia se mexeu levemente no sono, Eros congelou, mas ela não acordou, ele limpou o sangue seco com movimentos lentos, precisos. O toque era firme, mas surpreendentemente cuidadoso. Depois aplicou o antisséptico, o cheiro forte preencheu o ar, por fim colocou um pequeno curativo com um cuidado que nunca teve antes na vida, e que nem sabia que era capaz de fazer, apenas tratou daquel boca macia como se fosse uma pétala frágil. Quando terminou, ficou alguns segundos olhando para ela, surpreso, ele havia torturado homens sem hesitar, quebrado ossos, arrancado confissões, mas ali estava ele… cuidando de um corte. Eros passou a mão pelo próprio rosto. Levantou-se abruptamente, aquilo não fazia sentido, ele precisava de um banho. Demorado. O quarto dele ficava alguns corredores adiante. Assim que entrou no banheiro, abriu o chuveiro no máximo. A água quente caiu sobre seus ombros. Ele ficou ali muito tempo, mais do que o necessário, a proximidade com Amália durante a festa ainda parecia grudada em sua pele. Não era nojo, talvez, mas era algo que não sabia explicar, não gostava de tal proximidade de ninguém. Não era conforto, algo nela sempre o incomodava ultimamente, talvez porque Amália sempre soube exatamente quem ele era. E não exigia mais nada. Já Olivia… “ Não existe Olivia, apenas um meio de vingança.“ Tentava colocar isso na sua cabeça, a garota com aqueles olhos lindos, que mantinha o queixo erguido como se fosse o desfiar sempre, vinha a sua mente, sem que omconseguisse evitar. Ele fechou os olhos sob a água. Quando tocou o rosto dela para limpar o ferimento, algo estranho havia acontecido. Não havia repulsa, nem raiva, nem a vontade de fugir do contato como era sempre com outras pessoas. Havia… calma, suavidade, conforto… Aquilo o irritava. Quando saiu do banho, já era madrugada profunda, mas antes de dormir, ele voltou ao quarto dela, a porta ainda estava aberta, Olivia continuava dormindo, o curativo pequeno destacava-se em sua boca. Ele aproximou-se novamente, observando. Como destruir algo tão bonito? A pergunta veio sem querer, mas ele sabia a resposta. Devagar. Paciente. Sem pressa . Ele havia esperado anos para destruir Carlos Dante. Poderia esperar mais um pouco, o casamento seria em poucos dias. Depois disso… Olivia Dante pertenceria a ele. Totalmente, ele havia planejado nunca tocá-la, nunca realmente. Ela seria apenas um símbolo, mas agora… Agora algo dentro dele estava começando a mudar, Eros recuou, saiu do quarto, lorque ficar ali mais tempo era perigoso. Não para ela. Para ele. NA MANHÃ SEGUINTE… O café da manhã na mansão Capón não era uma refeição,era uma reunião de poder, a mesa longa de madeira escura ocupava quase todo o salão de jantar. Pratos de porcelana fina, talheres de prata e travessas cheias de comida cara estavam espalhados com precisão militar. O pai de Eros já estava sentado. Domingo Capón era um homem grande, duro como pedra. Os cabelos grisalhos cortados curtos, o rosto marcado por décadas de violência e comando, oo lado dele estava Amália, impecável, serena, como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Santiago seu amigo de infância, seu conselheiro, a quem ouve sem hesitar, sentado comendo em silêncio como fazia sempre. Eros entrou por último, sentou-se sem dizer nada, o silêncio dominava a mesa, foi então que Olivia apareceu na porta, ela parecia cansada, curativo pequeno no lábio era visível, mas seu queixo continuava erguido, ela caminhou até a mesa, tentou puxar a cadeira. — Não. A voz de Domingo Capón cortou o ar. Olivia parou. — Criadas comem na cozinha — disse ele friamente. O silêncio pesou, Amália sorriu discretamente. — Acho que ouviu. — acrescentou. Olivia encarou os dois, depois deu de ombros, um gesto bobo, mas que deixava ela tão linda fazendo, que Eros não conseguia desviar os olhos. — Melhor mesmo — disse calmamente — deve ser mais agradável comer longe de vocês. Ela virou-se para sair, então uma mão segurou seu pulso, firme. Era Eros. Ela olhou para ele, ele também estava olhando para ela. — Sente — disse ele. A palavra não era alta, mas era uma ordem clara e absoluta, daquelas que todos sabem que não tem negociação. Domingo franziu a testa. — Ela não… — Ela senta — Eros interrompeu. O olhar entre pai e filho ficou pesado. — Ela é minha noiva — continuou Eros — e precisa estar alimentada. Ele soltou o pulso dela apenas depois de puxar a cadeira bem ao se lado. — Vai precisar de forças — acrescentou, frio — para aguentar tudo o que vem pela frente. O pai dele não gostou, Amália também não, ela não entendia, ouviu tanto Eros falar que a faria lamber o chão que pisa, no entanto Eros estava tocando nela, sem puxar a mão, sem esbravejar por isso, e Amália sente seu coração se encher de ódio por essa garota. Mas ninguém discutiu, Olivia sentou, o silêncio voltou, e pela primeira vez naquela casa, ela percebeu algo importante, mesmo odiando-a, mesmo usando-a como vingança. Eros Capón ainda era o único homem naquela mesa que tinha poder suficiente para protegê-la. O problema… Era que ele também era o homem mais perigoso para ela, aquele que queria arrancar seu pescoço lentamente.
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