O PREÇO DA COROA
A festa continuava, mas já não havia nada de festivo no ar, o salão da mansão Capón brilhava com uma elegância sombria. Lustres de cristal refletiam a luz quente das velas espalhadas pelas mesas de mármore n***o. Arranjos de flores escuras, rosas quase negras, dálias vinho profundo, lírios púrpura, criavam uma atmosfera opulenta e ameaçadora, como se a própria decoração fosse um lembrete de que beleza e perigo podiam ocupar o mesmo espaço.
Taças de cristal tilintavam, champanhe francês corria livremente, homens poderosos conversavam em círculos fechados, vozes baixas, sorrisos calculados, mas havia um novo centro de atenção.
Olivia Dante.
Ela caminhava pelo salão como uma intrusa em território inimigo, e todos sabiam, as famílias que orbitavam Eros Capón não eram apenas aliados, eram predadores. Pessoas que haviam crescido naquele mundo brutal onde respeito vinha do medo e lealdade vinha do sangue, e Olivia não pertencia àquilo, ela era o troféu. A dívida. A vingança viva, os olhares seguiam cada passo dela.
Alguns curiosos, outros claramente hostis, trás todos esperando que Eros corte seu pescoço na frente de todos.
Uma mulher mais velha murmurou algo ao marido, olhando para Olivia com desprezo.
— Bonita demais para sobreviver aqui.
Outro homem respondeu.
— Capón gosta de quebrar coisas bonitas.
A frase circulou entre alguns convidados como um veneno suave, Olivia fingia não ouvir, mas ouvia, cada palavra, cada sussurro, ela mantinha o queixo erguido, caminhando lentamente, como se ainda tivesse controle da própria vida. Procurava por seu pai, mas ele havia sumido, m*l sabia ela que Eros ja havia mandado levar ele dali.
Do outro lado do salão, Eros observava.
Parado próximo ao bar de mármore escuro, um copo de uísque intocado entre os dedos.
Amália estava praticamente colada a ele, o que odiava com todas as suas forças, mas por aquela noite e na frente de Olivia permitiria, porque viu que incomodava ela, e tudo que incomoda um Dante negativamente era bom para ele.
A mão dela apoiada em seu braço, o corpo inclinado na direção dele, como se fosse natural, como se fosse direito adquirido.
— Você viu a cara dela quando eu apareci com você? — murmurou Amália, satisfeita.
Eros não respondeu, ele estava olhando para Olivia, de novo.
Sempre.
Amália percebeu.
Claro que percebeu.
— Ela não pertence aqui. — continuou, apertando levemente o braço dele — todos sabem disso.
Eros finalmente bebeu um gole do uísque.
— Não precisa gostar dela — disse — só precisa entender o acordo.
— Eu entendo perfeitamente — respondeu Amália, o sorriso fino — ela é só vingança.
Ele não respondeu, mas seus olhos continuaram acompanhando Olivia, aquilo começava a incomodar, Amália estreitou os olhos.
— Está olhando demais.
— E quem disse que isso é da sua conta, estou observando. — respondeu ele.
— Ela te diverte?
O silêncio foi resposta suficiente.
Amália soltou uma risada curta.
— Ela vai quebrar rápido.
Eros não respondeu, mas algo no fundo de seu estômago começou a se contorcer.
Porque Olivia não parecia quebrada.
Ainda, no centro do salão, Olivia estava parada perto de uma das mesas de champanhe.
Ela pegou uma taça.
As mãos estavam levemente trêmulas, mas ela manteve a postura, uma mulher se aproximou, depois outra, e mais duas, todas ligadas à família Capón, os olhares eram afiados.
— Então você é a famosa Olivia Dante — disse uma delas.
— Parece frágil. — comentou outra.
— Muito jovem, não vai durar.
— Muito ingênua.
Olivia sorriu educadamente.
— E vocês parecem muito interessadas na minha vida.
Uma delas riu.
— Não é interesse, querida. É curiosidade.
— Sobre quanto tempo você dura aqui.
O grupo riu, Olivia não respondeu.
Ela apenas bebeu um pequeno gole do champanhe, então uma voz conhecida surgiu atrás delas.
— Estão assustando a criança?
Amália, ela caminhou até o grupo com elegância perfeita, o vestido vermelho deslizando pelo chão de mármore como sangue derramado.
As mulheres abriram espaço imediatamente.
Amália parou diante de Olivia, olhou-a de cima a baixo, sem pressa, sem disfarçar o desprezo.
— Então… — disse ela — você é a noiva.
Olivia sustentou o olhar.
— E você é quem mesmo?
Algumas mulheres prenderam o ar.
Amália sorriu.
— Eu sou quem deveria estar no seu lugar.
— Ah — respondeu Olivia — então você deve estar muito frustrada.
Os olhos de Amália se estreitaram.
— Você realmente acha que esse casamento significa alguma coisa?
— Significa o suficiente para você estar incomodada.
O clima mudou, Amália deu um passo à frente.
— Você acha que vai dormir na cama dele?
Olivia não respondeu.
— Ele vai casar com você por vingança — continuou Amália — mas vai vir para mim todas as noites.
A frase caiu como veneno no ar, Olivia respirou fundo, então sorriu.
— Deve ser difícil saber que mesmo assim ele vai me chamar de esposa.
As mulheres ao redor se entreolharam.
Amália perdeu o sorriso.
— Você é uma criança arrogante.
— E você é uma amante descartável.
O som da bofetada ecoou pelo salão.
Alto. Violento.
A cabeça de Olivia virou com o impacto, o corpo perdeu o equilíbrio, ela caiu no chão de mármore, o gosto de sangue invadiu sua boca imediatamente, o salão inteiro ficou em silêncio, a taça de champanhe rolou pelo chão, o líquido dourado se espalhando como uma mancha.
Olivia tentou se levantar, mas por um segundo ficou ali, no chão.
Humilhada, o lábio partido, sangrando.
Os olhos começaram a se encher de lágrimas que ela se recusava a deixar cair, então ela olhou para ele.
Eros.
Ele estava parado a poucos metros, observando, a expressão indecifrável, Olivia segurou o olhar dele, não implorando, mas esperando.
Esperando alguma coisa, qualquer coisa.
Eros não se moveu. Por dentro, algo se revirava violentamente.
Ele não gostava de ver sangue dela, não daquele jeito, mas também não podia demonstrar nada, não ali, não na frente de todos, então ele fez o que sempre fazia.
Nada.
Ele colocou as mãos nos bolsos, o gesto lento.
Frio. Depois segurou a cintura de Amália.
E virou as costas.
— Vamos. — disse apenas.
Amália sorriu vitoriosa, sles caminharam para fora do salão.Deixando Olivia no chão, sangrando, humilhada, o silêncio que ficou para trás era pesado como chumbo.
Carlos Dante tentou dar um passo, mas dois homens o seguraram, Olivia finalmente conseguiu se levantar.
O lábio ainda sangrava, a dor queimava, mas não era a dor que mais machucava, Era a certeza, a certeza absoluta de que aquela casa seria um inferno.
E que o homem que comandava tudo aquilo… nunca estaria do seu lado, ela limpou o sangue com as costas da mão, respirou fundo.
E voltou a erguer o queixo, porque se Eros Capón achava que ela ia quebrar ali… Ele ainda não entendia quem era Olivia Dante.