A DANÇA DO VENENO
O silêncio que se formou após a troca de palavras entre Olivia e Amália não durou mais do que alguns segundos, mas foram segundos suficientes para que todos ali entendessem uma coisa muito clara.
A noiva de Eros Capón não era frágil.
A música voltou lentamente, um quarteto de cordas posicionado no fundo do salão retomando uma melodia profunda, quase sombria. As notas ecoavam pelo espaço luxuoso como um sussurro carregado de tensão.
As conversas recomeçaram, a maioria sobre a noiva prisioneira de Capón. Champanhe voltou a circular, mas muitos olhos ainda estavam sobre eles.
Eros permaneceu parado diante de Olivia.
Imóvel, o olhar azul penetrante analisando cada detalhe do rosto dela, como se estivesse recalculando algo.
E mesmo em meio ao caos, ele observava a pessoa que iria destruir, que usaria para matar em vida, quem matou sua família, mas algo o fazia hesitar, e Eros nunca hesitava, isso era fraqueza, e para um homem como ele, qualquer fraqueza era inaceitável.
A vingança foi planejada a anos, e Eros não podia hesitar e não iria.
Ela sustentou o olhar, não havia medo aparente ali agora, apenas orgulho, e isso era… irritante.
— Você gosta de chamar atenção — disse ele, finalmente.
A voz baixa, mas firme, Olivia inclinou levemente a cabeça.
— Você montou uma festa inteira pra isso, me humilhar?
Ela ri sem humor, apenas para provocar.
— Que desperdício de dinheiro, nada me humilha mais do que ser sua noiva.
— Vai ver que esta enganada, niñas de ojos bonitos.
— Porque não me mata logo?
— Seria rápido demais para seu pai.
Um murmúrio de riso escapou de um grupo próximo, Eros não reagiu.
— Amália não está acostumada a ser desafiada, tenha cuidado, niña.
— Eu também não estou acostumada a dividir meu noivo — respondeu Olivia, com um sorriso frio, e sarcástico.
Ele estreitou os olhos, aquela menina estava testando Eros, e ele não gostava disto.
— Você fala como se tivesse escolhido isso.
— Não escolhi — ela respondeu — mas já que estou aqui… não vou rastejar.
Por um segundo, algo quase imperceptível atravessou o rosto de Eros, curiosidade.
Então ele estendeu a mão.
— Dance comigo.
Não foi um pedido, foi uma ordem direta e clara como Eros era sempre.
Olivia olhou para a mão dele, depois para o salão, todos estavam observando, claro que estavam, a noiva precisava cumprir o papel, ela colocou a mão na dele.
— Só porque é esperado — murmurou.
— Continue mentindo pra si mesma. — respondeu ele.
Eros a conduziu para o centro do salão.
A música mudou novamente, tornando-se mais lenta, mais pesada, amão dele pousou em sua cintura, firme, controlada, a proximidade era desconfortável, não por medo, mas pela intensidade.
Olivia podia sentir o perfume dele, amadeirado, frio, distante. O tipo de cheiro que combinava com alguém que não pertencia a lugar nenhum.
A sensação da mão grande e firme dele em sua cintura causava nela algo diferente, que nunca sentiu antes, Olivia nunca namorou, não por falta de pretendente, e sim por não querer, por achar cedo.
E agora estava noivo de um homem bem mais velho, que provavelmente tomaria sua virgindade como um animal. E isso apavorada ela.
— Você provocou Amália. — disse ele enquanto começavam a se mover.
— Ela começou. — Olivia respondeu.
— Ela faz parte da minha vida há muito tempo, não mexe com ela.
— Então deveria ter avisado que ela viria disputar espaço comigo, ja que me escolheu como noiva, vou agir como tal.
Ele inclinou levemente a cabeça provocativa.
— Você acha que ganhou alguma coisa ali?
Olivia levantou o queixo.
— Ganhei respeito.
— Não — respondeu Eros — você ganhou atenção, e não foi coisa boa.
Ela deu um pequeno sorriso.
— Às vezes é a mesma coisa.
O olhar dele escureceu, no outro lado do salão, Amália observava, o copo de champanhe em sua mão estava sendo apertado com força demais.
Aquele lugar deveria ser dela, sempre fora.
Ela conhecia Eros desde a infância. Conhecia cada sombra da mente dele, cada silêncio, cada explosão de violência contida.
Ela era a única que sabia como lidar com o monstro, e agora aquela garota… aquela menina de olhos impossíveis… estava no centro do salão dançando com ele.
Amália virou o champanhe de uma vez.
— Ridículo — murmurou.
Um homem ao lado tentou fazer um comentário leve, olhou para Santiago, o braço direito de Eros, o melhor amigo e seu assassino mais frio e letal, observava a garota com Eros.
— Ela é bonita.
Amália lançou um olhar que o fez se calar imediatamente.
— Bonita não significa forte. Eu sou forte pra ele.
— Eros nunca quis nada sério com você.
— Eu sou a unica que o entende.
— Não. Você é a unica que insiste.
— Que se f**a, ela não merece ele.
Ela voltou a olhar para o casal, mas, no fundo, uma sensação incômoda crescia, porque Eros não tinha afastado Olivia.
Nem uma vez.
E com Amália foi dificl ter uma noite com ele, cada toque ele repudiava, a afastava, depois do ato, ele tomou banho se lavou como se estivesse contaminado, e nas outras poucas vezes foi assim.
Eros não gostava de toque prolongado, e so ela entendia isso. E não aquela menina ridícula.
No centro do salão, Olivia sentia o peso do olhar de Amália queimando suas costas.
— Sua amiga parece… irritada — comentou.
— Ela não gosta de perder. — respondeu Eros.
— Então ela não deveria disputar território com a noiva.
Ele parou por um segundo.
A dança hesitou.
— Você fala como se realmente fosse ocupar esse lugar.
Olivia sustentou o olhar.
— Você me colocou nele.
— Eu coloquei você como peça de vingança.
— Peças também derrubam reis — respondeu ela.
— Aunda bem que sabe que aqui sou rei.
Um silêncio pesado caiu entre eles, Eros voltou a conduzir a dança, mas agora seus olhos estavam mais atentos, mais analíticos.
Como se estivesse tentando entender até onde aquela coragem era real… ou apenas desespero.
— Seu pai deve estar orgulhoso. — disse ele de repente.
Olivia sentiu a pontada, mas não demonstrou.
— Meu pai está vivo — respondeu — e isso é o suficiente por enquanto.
Ele inclinou o rosto ligeiramente.
— Você não odeia ele?
Ela demorou alguns segundos.
— Odeio as escolhas dele — disse — mas ainda é meu pai.
— Interessante.
— Por quê?
— Porque você poderia me odiar mais.
Ela riu, um riso baixo.
— Quem disse que eu não odeio?
Os olhos azuis dele ficaram ainda mais frios.
— Ódio não me incomoda.
— Então estamos bem.
A música terminou, o salão aplaudiu educadamente, Eros soltou a cintura dela devagar, mas não se afastou.
— Você está tentando sobreviver — disse ele.
— Sim.
— Isso não significa que vai conseguir.
— Também não significa que você vai me quebrar.
O olhar dele permaneceu fixo no dela por alguns segundos longos.
Então ele se afastou.
— Aproveite a festa, Olivia Dante
.
Ela respondeu com um sorriso calmo demais.
— Aproveite o noivado, Eros Capón.
Ele virou as costas, e, pela primeira vez naquela noite, percebeu que algo naquela garota… não seguia nenhuma das previsões que havia feito.
Do outro lado do salão, Amália já caminhava de volta, o olhar cheio de veneno.
A guerra silenciosa tinha apenas começado.
E aquela festa luxuosa, cheia de champanhe caro e alianças perigosas, era apenas o primeiro campo de batalha.