1

1100 Palavras
O PREÇO DO SANGUE Eros Capón observava a cidade através do vidro escuro do carro como quem encara um território inimigo prestes a ser conquistado. Madrid se espalhava diante dele com suas luzes frias, avenidas largas e prédios antigos que guardavam segredos demais. Aquela cidade era sua. Cada rua, cada porto, cada rota de entrada e saída passava, direta ou indiretamente, por suas mãos. Ainda assim, havia uma mancha, um nome que sujava tudo. Carlos Dante. O carro avançava silencioso, pesado como uma sentença. Dentro dele, o ar parecia denso, nenhum dos homens ousava falar, não quando, Eros estava assim. Encostado no banco de couro, o chefe da máfia espanhola mantinha o rosto parcialmente virado para a janela. A cicatriz que cortava sua face, começando acima da sobrancelha direita, atravessando o nariz e morrendo cruelmente próximo ao olho esquerdo, pulsava levemente. Não por dor física. Aquilo já havia passado há anos. Era memória. O olho esquerdo, de visão comprometida, ardia quando ele pensava nela. Sua mãe caída no chão frio, os olhos vazios encarando o teto que desabava junto com sua vida, o sangue escorrendo lento, quase respeitoso, manchando o vestido que ela usara naquela manhã. Sua irmã. Pequena demais, frágil demais, morta por estar no lugar errado, com o sobrenome errado, e Carlos Dante havia sido o responsável. O brasileiro que agora ousava se infiltrar em seu país, ocupar espaço que não lhe pertencia, fazer alianças, comprar políticos, corromper policiais e fingir que podia dividir o poder com ele.Eros apertou os dedos lentamente, sentindo os nós dos ossos estalarem. — Hoje — murmurou, a voz baixa, rouca — ele aprende o que acontece quando se rouba de mim. O motorista engoliu seco, mantendo os olhos fixos na estrada, a mansão de Dante surgiu minutos depois, grande demais, chamativa demais, um erro clássico de quem acreditava estar seguro. Muros altos, câmeras, homens armados, tudo inútil. Os portões se abriram sem resistência, não porque Eros precisasse de permissão, mas porque Carlos Dante já esperava por aquilo, fugir não era uma opção, ele sabia. O carro parou diante da entrada principal. Eros saiu primeiro, alto, imponente, vestido inteiramente de preto, o casaco longo marcando seus ombros largos. O rosto fechado, os olhos azuis e frios como lâminas. A cicatriz parecia ainda mais c***l sob a luz externa, um aviso silencioso do que ele era capaz de fazer. Nenhum dos seguranças teve coragem de encará-lo por mais de um segundo, Eros odiava olhares demorados, se olhassem demais pode ter certeza que estariam sem olhos. A porta se abriu antes que ele precisasse bater. Carlos Dante estava ali, mais velho do que Eros lembrava. Os cabelos grisalhos nas laterais, o rosto marcado por noites m*l dormidas e decisões erradas, ainda poderoso, ainda perigoso,.mas não intocável. — Capón — Dante disse, tentando manter a voz firme, embora Eros se delicie ao ver medo em seu olhar, era isso que queria, era por isso que esperou tanto. Eros entrou sem responder, cada passo ecoava no mármore do hall como um martelo batendo em um caixão, seus homens ficaram do lado de fora, qquilo era pessoal. — Você tem coragem — Eros finalmente falou, caminhando lentamente pelo ambiente — de pisar no meu país depois do que fez? Dante respirou fundo. — O passado ficou para trás. O riso de Eros foi curto, sem humor algum, sombrio como seu próprio coração que todos que o conhecem dizem nao ter. — O passado nunca fica para trás — ele se virou, o olho bom fixo em Dante — ele espera. Paciente, até a hora de cobrar. O silêncio cai fri entrr eles, o ficoh pesado do jeito que Eros espera. — Minha família morreu por sua causa — Eros continuou, aproximando-se — minha mãe, minha irmã, você roubou tudo, meu nome, meu lar, meu futuro. — Foi guerra — Dante respondeu, mais baixo — Eu também perdi homens. O punho de Eros acertou a mesa ao lado com força suficiente para rachar a madeira. — Não ouse comparar perdas — rosnou — homens escolhem morrer, crianças não. Dante empalideceu, ele sabia. Sempre soube que aquele dia chegaria, mas por mais que soubesse que pagaria até com a vida, ver Eros ali, saber de tudo que ele ja fez, do quão horrendo é esse homem, ainda o fazia ficar com mais receio de tudo que lhe aguardava. — O que você quer? — perguntou, enfim. Eros sorriu de canto, um sorriso frio, calculado, que nunca trazia boas notícias. — Justiça. — Dinheiro? Território? — Dante tentou — Eu posso sair da Espanha. — Tarde demais — Eros respondeu — Você já pagou com sangue. Agora vai pagar com algo que ama. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Carlos Dante sentiu o coração afundar. — Não — murmurou — Não envolva minha filha. Eros inclinou levemente a cabeça, seu olhar mais gélido que o gelo, Carlos devia onolhar, sabe bem que todos que olham demais a cicatriz de Eros acaba com cicatrizes piores no túmulo. — Olivia Dante — pronunciou o nome com calma c***l — dezoito anos. Única filha. Mimada, inocente, seu ponto fraco. — Ela não tem nada a ver com isso! — Dante explodiu, avançando um passo, Eros não se moveu. — Tudo tem a ver comigo agora. E le deu alguns passos, ficando perigosamente próximo. — Você vai entregá-la como minha noiva. As palavras caíram como uma execução. — Nunca — Dante cuspiu — Eu prefiro morrer. — Você vai — Eros respondeu, impassível — mas antes vai assistir. O brasileiro tremia de ódio e desespero. — Ela é uma criança… O olhar de Eros escureceu ainda mais. — Ela é adulta, e será minha, ele se afastou, caminhando até a porta. — O noivado será anunciado em breve. Você vai cooperar, vai manter sua facção sob minhas regras, vai me servir até o último suspiro. Parou antes de sair. — Qualquer tentativa de fuga… — virou apenas o rosto — e eu destruo tudo. Um por um, começando por quem ela mais ama. Dante caiu sentado, derrotado. — Onde ela está? — Eros perguntou. — Na escola — respondeu, a voz quebrada. — Ótimo — Eros disse — Que aproveite enquanto pode. Ele saiu, a porta se fechou atrás dele como o fim de uma vida, dentro do carro, Eros encostou a cabeça no banco, fechando os olhos por um segundo. A imagem de sua mãe ensanguentada se misturava agora ao nome de Olivia Dante, ela não era culpada, mas seria o pagamento. Eros Capón não conhecia misericórdia. E aquela guerra estava apenas começando.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR