2

1158 Palavras
A INOCÊNCIA ANTES DA QUEDA Olivia Dante entrou em casa com o mesmo sorriso de sempre, a mochila pendia de um ombro, o uniforme impecável, os cabelos presos em um r**o de cavalo que balançava conforme ela caminhava pelo hall amplo da mansão. Havia algo de leve nela, algo quase deslocado naquele lugar cercado por homens armados, muros altos e segredos pesados demais para alguém como ela. — Pai? — chamou, a voz doce ecoando. Carlos Dante estava parado próximo à escada, imóvel demais, os olhos dele estavam vermelhos, não de cansaço, de algo mais profundo algo quebrado. Olivia franziu levemente a testa, co hecia seu pai, e aquela expressão nunca viu antes. — Está tudo bem? — perguntou, largando a mochila no sofá e caminhando até ele. Ela segurou o braço do pai com cuidado, como fazia desde criança, um gesto automático, carinhoso, Carlos sentiu o chão desaparecer sob seus pés. Como dizer? Como olhar para aquela menina e aceitar que o mundo que ele construiu agora queria devorá-la? Ele tentou manter ela longe de tudo, para ela, era apenas um empresário influente, agora candidato a prefeito da cidade, que tudo era faixada, que tudo que tem foi construído com mortes, dor e sangue. — Pai… — insistiu Olivia, sorrindo — você está estranho. Ele piscou algumas vezes, forçando-se a voltar ao presente. — Está tudo bem, meu amor — mentiu. Olivia sorriu, aliviada. — Que bom! Achei que você estivesse doente. Ela começou a falar antes mesmo que ele pudesse respirar. — A aula hoje foi incrível! A professora de literatura elogiou minha redação, disse que eu escrevo como se sentisse tudo muito forte. — riu — E a Camila brigou com o professor de matemática de novo, você precisava ver a cara dele! Carlos ouvia, ou fingia ouvir, cada palavra era uma facada, ela falava de provas, de amigas, de sonhos simples demais para aquele mundo sujo. Falava de música, de dança, de futuro. Um futuro que ele talvez não pudesse mais proteger. — Pai? — Olivia tocou o rosto dele com cuidado — você tem certeza que está bem? Ele assentiu rápido demais. — Só cansado. Ela abriu um sorriso compreensivo. — Então descansa um pouco, eu vou trocar de roupa e depois tenho aula de piano. Carlos segurou o pulso dela antes que ela se afastasse. — Olivia… Ela o olhou, preocupada. — O quê? Por um segundo, ele quase disse tudo, quase implorou que ela fugisse, quase pediu perdão por cada escolha errada que fizera desde o dia em que decidiu entrar naquele mundo. Mas o medo o paralisou. — Nada — murmurou — só… tome cuidado. Olivia riu suavemente. — Sempre tomo, paizinho lindo. Ela se afastou, subindo as escadas, sem perceber que aquele podia ser um dos últimos momentos em que pisaria naquela casa como uma garota livre. Carlos ficou sozinho, e chorou, não alto, não de forma dramática, chorou como homens poderosos choram, em silêncio, com o corpo rígido e a alma em pedaços. Ele não podia entregá-la, não podia, mesmo que isso significasse declarar guerra ao próprio demônio. Olivia manteve sua rotina, era isso que fazia a vida parecer segura, após trocar de roupa, sentou-se diante do piano de cauda branco no salão lateral da casa. Os dedos delicados tocaram as teclas com leveza, preenchendo o ambiente com uma melodia suave, quase infantil. Ela fechou os olhos enquanto tocava, não percebeu o carro estacionado do outro lado da rua, não percebeu os olhos atentos por trás do vidro escuro. Eros Capón observava. O corpo imóvel, a mente funcionando como uma máquina fria, cada detalhe era registrado, apostura, a maneira como ela inclinava levemente a cabeça ao errar uma nota, a concentração pura, livre de qualquer malícia, inocente, era isso que tornava tudo mais c***l. — Então é você… — murmurou, a voz baixa. Nada nela lembrava o homem que destruíra sua família, e sso o irritava. Ela nem sequer se parecia com ele, os cabelos claros, o rosto angelical, os grandes olho, Eros estreitou mais o olhar, eram um de cada cor, que diferente, pensava tentando ver mais, mas a distância o impedia, mesmo com o binóculo, era difícil ver, ela era belíssima, não negava, boca carnuda, tão convidativa, a pele parecia tao macia, como se convidasse a ser tocada, os s***s eram fartos, para a idade, era de um corpo escultural. Mas para Eros aquilo era apenas capa, devia ser tao podre quanto o pai, mas isso não quer dizer que nao poderia usar essa capa por diversão por prazer, faze-la implorar e destruir aquele olhar de esperança, como o pai dela destruiu o meu. Ele não sentia culpa, não sentia piedade. Apenas uma estranha satisfação ao saber que Carlos Dante sofreria cada segundo ao ver aquela pureza ser arrancada de seu controle. — A vingança perfeita — concluiu. O piano cessou, Olivia se levantou, animada, pegando sua bolsa de balé. — Até mais tarde! — gritou para alguém na casa. Saiu. Eros fez um gesto mínimo com a mão, o carro começou a se mover, o estúdio de balé ficava em uma rua tranquila, arborizada, com vitrines simples e cafés pequenos. Olivia caminhava despreocupada, cumprimentando pessoas que conhecia, sorrindo para desconhecidos, ela não percebia os passos sincronizados atrás dela. Não via os homens discretos espalhados pela rua, era seguida, observada, protegida? Não. Caçada. Durante a aula, Olivia se perdeu na música, nos movimentos, na disciplina rígida que contrastava com sua personalidade doce. O corpo leve, os gestos precisos. Do outro lado do vidro, um homem observava. Não era Eros. Era um de seus homens. — Ela é tudo o que disseram — falou ao celular, baixo — Sim. Exatamente como você imaginou. A resposta veio curta. — Não tire os olhos dela. Eros ordena, ja a caminho de volta, aquela garota o deixou duro, p***a, e precisaria se aliviar, como pode, nem a conhecia, so a viu hoje, e ja ficou duro. À noite, Olivia voltou para casa cansada, mas feliz, encontrou o pai na sala, bebendo, aquilo era raro. — Pai? — aproximou-se — você nunca bebe assim. Carlos levantou o olhar lentamente. Ela parecia tão viva. — Senta aqui comigo — pediu. Olivia obedeceu. — Você me ama? — ele perguntou de repente. Ela riu, achando graça. — Claro que amo. Por que isso agora? Ele segurou o rosto dela entre as mãos. — Se eu te pedisse para confiar em mim… mesmo que doesse… você confiaria? O sorriso dela vacilou. — Pai… o que está acontecendo? Ele a puxou para um abraço apertado demais. — Nada — mentiu outra vez — nada ainda. Do lado de fora da casa, invisível aos olhos dela, o destino se aproximava. Eros Capón já tinha decidido. Olivia Dante seria sua, não por amor, mas porque algumas vinganças só são completas quando arrancam o coração do inimigo ainda pulsando. E a queda da inocência seria lenta, c***l, inevitável.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR