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1163 Palavras
O ACORDO DE FERRO A casa acordou diferente naquela manhã, não havia risos. Não havia música. O silêncio era rígido, disciplinado, como se cada parede soubesse que algo definitivo havia sido selado durante a madrugada. Homens que não pertenciam àquela casa ocupavam os corredores, postados como sombras armadas. Nada era pedido. Tudo era imposto. Carlos Dante não dormira. Sentado à mesa da sala de jantar, encarava a xícara de café intocada. As mãos tremiam levemente, não de medo, ele já havia ultrapassado esse limite, mas de algo pior, consciência. A certeza esmagadora de que havia sacrificado a própria filha para pagar um pecado antigo demais para ser apagado, quando Olivia desceu as escadas, ele sentiu o ar faltar. Ela vestia um conjunto simples, o rosto pálido, os olhos inchados, mas havia uma rigidez nova em seus ombros. Algo havia mudado. A menina doce dera lugar a alguém que fora empurrada para a beira do abismo e decidira não cair em silêncio. — Eles estão esperando. — disse um dos homens, sem olhar para ela. Olivia assentiu, sem perguntar quem. Carlos se levantou de imediato. — Eu vou com você. Ela o encarou por um instante. — Não — respondeu — você já fez o suficiente. A frase foi dita sem grito, sem raiva explícita. E justamente por isso, o golpe foi mais profundo. O carro avançou pelas ruas como um corte cirúrgico. Olivia observava a cidade pela janela, tentando gravar detalhes banais, uma padaria aberta, um casal discutindo, uma criança correndo atrás de um cachorro. Pequenas normalidades que pareciam pertencer a outra vida. A mansão Capón surgiu imponente, cercada por muros altos e portões de ferro que se abriram sem hesitação. Ali não havia dúvida sobre quem mandava. O salão principal estava preparado para uma reunião. Homens importantes, aliados, figuras que Olivia reconhecia apenas por nomes sussurrados em conversas que seu pai jamais permitira que ela ouvisse. Agora, todos a observavam. Como mercadoria, como símbolo. Eros Capón estava de pé à frente, imóvel. Vestido de preto, como sempre, a cicatriz atravessando o rosto como um aviso permanente. O olho azul fixo, avaliando tudo; o esquerdo, esbranquiçado, sem vida, tornava o olhar ainda mais perturbador. Ele não sorriu quando Olivia entrou. Não demonstrou surpresa. Apenas esperava. — Senhoras e senhores — a voz de Eros ecoou, baixa e firme — estamos aqui para oficializar um acordo. Carlos sentiu o estômago revirar. — A partir de hoje — Eros continuou — Carlos Dante passa a operar sob minha proteção e autoridade. Em troca, selamos uma aliança definitiva entre nossas casas. Um murmúrio percorreu o salão, a familia de Eros esperava por isso, e comemoravam. — Olivia Dante será minha noiva. As palavras não pediam consentimento. Eros virou-se para ela pela primeira vez de forma direta. — Aceita? Olivia sentiu todos os olhares queimarem sua pele, pensou no pai ensanguentado, pensou na ameaça, pensou em tudo o que perdera em poucos dias. — Aceito — respondeu. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Eros assentiu uma única vez. — Então está feito. A reunião terminou tão rapidamente quanto começou. Os homens se dispersaram, satisfeitos. A aliança estava firmada. O poder consolidado. Restaram apenas eles. O salão pareceu crescer, tornar-se grande demais para conter a tensão. — Você pode ir — Eros disse aos demais. Quando ficaram sozinhos, Olivia finalmente se permitiu respirar fundo. — Era isso que você queria? — perguntou, a voz firme apesar do tremor interno — Me expor como um troféu? Eros a observou como se analisasse uma peça defeituosa. — Eu queria justiça. — Isso não é justiça — retrucou — é crueldade. Ele se aproximou lentamente. — Justiça não é gentil — respondeu — e você é apenas o meio. Ela levantou o queixo. — Eu não sou sua coisa. — Ainda não — disse ele — mas vai aprender o que é pertencer. O nojo atravessou o rosto dela. — Eu te odeio. — Ótimo — respondeu Eros — o ódio mantém você viva. Ele caminhou até a janela, de costas para ela. — Existem regras. Olivia cruzou os braços. — Claro que existem. — Primeira — Eros começou — você não foge. Nunca, nem tenta, mas se tentar tenha em mente que as consequências serão duras. — Segunda — continuou — você não toca em assuntos de negócios. Não faz perguntas. Não escuta atrás de portas. — Terceira — virou-se para encará-la — você não me desafia em público. Ela riu, sem humor. — E em privado? O olhar dele se estreitou. — Em privado — respondeu — você aprende. O silêncio pesou novamente. — Seu pai continuará vivo enquanto você cooperar — Eros acrescentou, como quem comenta o clima — Qualquer sinal de desobediência… — deu de ombros — e eu não serei paciente. Olivia sentiu o estômago embrulhar. — Você não vai me tocar — disse, com coragem emprestada. — Você será minha esposa, os que espera? — Mas... — Não a mas, não esta em condições de impor nada, será da forma que eu quiser. Ela deu um passo à frente. — Se acha que me quebrar vai te trazer paz… — a voz falhou por um segundo, mas ela continuou — você está errado. Eros se aproximou o suficiente para que ela sentisse o frio que emanava dele. — Paz não é o que eu busco — murmurou — é equilíbrio. E o seu sofrimento o restabelece. Ela respirou fundo. — Então faça o seu pior. — Farei, não precisa pedir. — ele.ri c***l — Outra regra, ninguém toca em você, ninguém te olha, e se voce tocar em alguém, vai ver a pessoa morrer. — Isso se remete a voce tambem, ou só eu serei a fiel da relação. — Não existe relação, menina,você é minha e faço o que eu quero. — Perfeito sr. Capón. Estupro, e parte da sua lista de crimes. — A lista é extensa pode crer, mas isso nao está nela, nunca precisei, se a tocar vai gozar como nunca na vida, isso eu sei. O rubor na face de Olvia faz com que Eros trema, com que seu corpo reaja a uma mulher como nunca antes, o deixando sem entender. Não Eros não tem sentimentos. Por um segundo, algo quase imperceptível passou pelo rosto dele. Não arrependimento. Curiosidade. — Leve-a para o quarto — ordenou a um dos homens, sem tirar os olhos dela — o dela. A porta se fechou atrás de Olivia com um clique definitivo, sozinha novamente, ela caminhou até a cama e sentou-se, sentindo o peso do dia esmagar seus ossos. O acordo estava selado. O destino traçado. Ela não era livre. Mas ainda era ela. E, do outro lado da mansão, Eros Capón permanecia imóvel, encarando a cidade que agora dormia sob seu domínio. A vingança estava completa. E, ainda assim, algo dentro dele, algo pequeno, incômodo, não se aquietava. Porque destruir o inimigo era fácil. Difícil seria conviver com a filha dele.
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