O ACORDO DE FERRO
A casa acordou diferente naquela manhã, não havia risos. Não havia música. O silêncio era rígido, disciplinado, como se cada parede soubesse que algo definitivo havia sido selado durante a madrugada. Homens que não pertenciam àquela casa ocupavam os corredores, postados como sombras armadas. Nada era pedido. Tudo era imposto.
Carlos Dante não dormira.
Sentado à mesa da sala de jantar, encarava a xícara de café intocada. As mãos tremiam levemente, não de medo, ele já havia ultrapassado esse limite, mas de algo pior, consciência.
A certeza esmagadora de que havia sacrificado a própria filha para pagar um pecado antigo demais para ser apagado, quando Olivia desceu as escadas, ele sentiu o ar faltar.
Ela vestia um conjunto simples, o rosto pálido, os olhos inchados, mas havia uma rigidez nova em seus ombros. Algo havia mudado. A menina doce dera lugar a alguém que fora empurrada para a beira do abismo e decidira não cair em silêncio.
— Eles estão esperando. — disse um dos homens, sem olhar para ela.
Olivia assentiu, sem perguntar quem.
Carlos se levantou de imediato.
— Eu vou com você.
Ela o encarou por um instante.
— Não — respondeu — você já fez o suficiente.
A frase foi dita sem grito, sem raiva explícita. E justamente por isso, o golpe foi mais profundo.
O carro avançou pelas ruas como um corte cirúrgico. Olivia observava a cidade pela janela, tentando gravar detalhes banais, uma padaria aberta, um casal discutindo, uma criança correndo atrás de um cachorro. Pequenas normalidades que pareciam pertencer a outra vida.
A mansão Capón surgiu imponente, cercada por muros altos e portões de ferro que se abriram sem hesitação.
Ali não havia dúvida sobre quem mandava.
O salão principal estava preparado para uma reunião. Homens importantes, aliados, figuras que Olivia reconhecia apenas por nomes sussurrados em conversas que seu pai jamais permitira que ela ouvisse. Agora, todos a observavam.
Como mercadoria, como símbolo.
Eros Capón estava de pé à frente, imóvel.
Vestido de preto, como sempre, a cicatriz atravessando o rosto como um aviso permanente.
O olho azul fixo, avaliando tudo; o esquerdo, esbranquiçado, sem vida, tornava o olhar ainda mais perturbador. Ele não sorriu quando Olivia entrou. Não demonstrou surpresa. Apenas esperava.
— Senhoras e senhores — a voz de Eros ecoou, baixa e firme — estamos aqui para oficializar um acordo.
Carlos sentiu o estômago revirar.
— A partir de hoje — Eros continuou — Carlos Dante passa a operar sob minha proteção e autoridade. Em troca, selamos uma aliança definitiva entre nossas casas.
Um murmúrio percorreu o salão, a familia de Eros esperava por isso, e comemoravam.
— Olivia Dante será minha noiva.
As palavras não pediam consentimento.
Eros virou-se para ela pela primeira vez de forma direta.
— Aceita?
Olivia sentiu todos os olhares queimarem sua pele, pensou no pai ensanguentado, pensou na ameaça, pensou em tudo o que perdera em poucos dias.
— Aceito — respondeu.
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Eros assentiu uma única vez.
— Então está feito.
A reunião terminou tão rapidamente quanto começou. Os homens se dispersaram, satisfeitos. A aliança estava firmada. O poder consolidado.
Restaram apenas eles.
O salão pareceu crescer, tornar-se grande demais para conter a tensão.
— Você pode ir — Eros disse aos demais.
Quando ficaram sozinhos, Olivia finalmente se permitiu respirar fundo.
— Era isso que você queria? — perguntou, a voz firme apesar do tremor interno — Me expor como um troféu?
Eros a observou como se analisasse uma peça defeituosa.
— Eu queria justiça.
— Isso não é justiça — retrucou — é crueldade.
Ele se aproximou lentamente.
— Justiça não é gentil — respondeu — e você é apenas o meio.
Ela levantou o queixo.
— Eu não sou sua coisa.
— Ainda não — disse ele — mas vai aprender o que é pertencer.
O nojo atravessou o rosto dela.
— Eu te odeio.
— Ótimo — respondeu Eros — o ódio mantém você viva.
Ele caminhou até a janela, de costas para ela.
— Existem regras.
Olivia cruzou os braços.
— Claro que existem.
— Primeira — Eros começou — você não foge. Nunca, nem tenta, mas se tentar tenha em mente que as consequências serão duras.
— Segunda — continuou — você não toca em assuntos de negócios. Não faz perguntas. Não escuta atrás de portas.
— Terceira — virou-se para encará-la — você não me desafia em público.
Ela riu, sem humor.
— E em privado?
O olhar dele se estreitou.
— Em privado — respondeu — você aprende.
O silêncio pesou novamente.
— Seu pai continuará vivo enquanto você cooperar — Eros acrescentou, como quem comenta o clima — Qualquer sinal de desobediência… — deu de ombros — e eu não serei paciente.
Olivia sentiu o estômago embrulhar.
— Você não vai me tocar — disse, com coragem emprestada.
— Você será minha esposa, os que espera?
— Mas...
— Não a mas, não esta em condições de impor nada, será da forma que eu quiser.
Ela deu um passo à frente.
— Se acha que me quebrar vai te trazer paz… — a voz falhou por um segundo, mas ela continuou — você está errado.
Eros se aproximou o suficiente para que ela sentisse o frio que emanava dele.
— Paz não é o que eu busco — murmurou — é equilíbrio. E o seu sofrimento o restabelece.
Ela respirou fundo.
— Então faça o seu pior.
— Farei, não precisa pedir. — ele.ri c***l — Outra regra, ninguém toca em você, ninguém te olha, e se voce tocar em alguém, vai ver a pessoa morrer.
— Isso se remete a voce tambem, ou só eu serei a fiel da relação.
— Não existe relação, menina,você é minha e faço o que eu quero.
— Perfeito sr. Capón. Estupro, e parte da sua lista de crimes.
— A lista é extensa pode crer, mas isso nao está nela, nunca precisei, se a tocar vai gozar como nunca na vida, isso eu sei.
O rubor na face de Olvia faz com que Eros trema, com que seu corpo reaja a uma mulher como nunca antes, o deixando sem entender. Não Eros não tem sentimentos.
Por um segundo, algo quase imperceptível passou pelo rosto dele.
Não arrependimento.
Curiosidade.
— Leve-a para o quarto — ordenou a um dos homens, sem tirar os olhos dela — o dela.
A porta se fechou atrás de Olivia com um clique definitivo, sozinha novamente, ela caminhou até a cama e sentou-se, sentindo o peso do dia esmagar seus ossos. O acordo estava selado. O destino traçado.
Ela não era livre.
Mas ainda era ela.
E, do outro lado da mansão, Eros Capón permanecia imóvel, encarando a cidade que agora dormia sob seu domínio.
A vingança estava completa.
E, ainda assim, algo dentro dele, algo pequeno, incômodo, não se aquietava.
Porque destruir o inimigo era fácil.
Difícil seria conviver com a filha dele.